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	<title>Apostadores Archives - Clique Notícias Brasil</title>
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		<title>Apostadores de bet em periferias buscam ajuda após vida virar pesadelo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Agência Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 13:59:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>As lembranças misturam-se como em um pesadelo. Kaio*, de 42 anos, lembra-se de uma madrugada silenciosa em julho em que o celular tocou com anúncios de chances de apostas. Primeiro, ficou eufórico. Aos poucos, engoliu em seco. Perdeu R$ 1 mil. Depois, R$ 2 mil. Em minutos, R$ 5 mil. Era justamente o dinheiro que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>As lembranças misturam-se como em um pesadelo. Kaio*, de 42 anos, lembra-se de uma madrugada silenciosa em julho em que o celular tocou com anúncios de chances de apostas. Primeiro, ficou eufórico. Aos poucos, engoliu em seco. Perdeu R$ 1 mil. Depois, R$ 2 mil. Em minutos, R$ 5 mil. Era justamente o dinheiro que um amigo o emprestou para que ele pagasse dívidas com agiotas por causa de outras apostas em <em>bets.</em><img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Apostadores-de-bet-em-periferias-buscam-ajuda-apos-vida-virar.gif?w=740&#038;ssl=1" style="width:1px; height:1px; display:inline;"/></p>
<p>Ninguém estava acordado em casa. Nem a esposa nem os dois filhos (um de 10 e outro de 4 anos). Eles estavam em sono profundo na casa simples em uma área periférica do Distrito Federal. Kaio anda pela casa. Não era um pesadelo. Mas ele sentiu o chão se abrir. Não ouviu as vozes das pessoas que ele ama ao clarear do dia. Só pensou nas dívidas. Mas pensou em apostar mais para diminuir o prejuízo.</p>
<p>Quando o filho mais velho pediu que o levasse até a casa da avó, que acompanharia o garoto até a escola, Kaio concordou com a cabeça. Ele continuou no celular.</p>
<p>“Pareceu que se passaram poucos minutos. Quando olhei para trás, meu filho não estava mais”. Isso porque havia se passado mais de três horas. “Eu perdi a noção de tudo. Inclusive do tempo”.</p>
<p>Perder a noção de tempo é um dos indicativos da ludopatia, doença que consiste em um transtorno de controle dos impulsos para jogos. Desse tempo que Kaio viu voar, lembrou de quando tudo começou: dos momentos de descanso como motorista de uma prefeitura em uma cidade de Goiás em que foi apresentado às <em>bets</em>. De como se envolveu mais do que poderia e deveria. Entende que o vício começou principalmente depois de apresentar sintomas de depressão com a perda do pai para o câncer.</p>
<h2>Chão frio</h2>
<p>Por causa das dívidas de jogo, teve que vender o carro financiado para pagar as dívidas. Depois, móveis. Depois, a casa da família. Avisou a esposa dois dias antes de terem que desocupar o imóvel. Perdeu a casa e o casamento acabou. “A dignidade também”, diz. Hoje, lamenta dormir sobre o chão frio, em pedaços de papelão, em um dormitório alugado. </p>
<p>Nem o dinheiro do carro ou o da venda da casa foram suficientes para pagar os mais de R$ 200 mil em dívidas. Foi necessário também pedir demissão do emprego e utilizar a rescisão para pagar novas dívidas. Kaio compreendeu que precisaria de ajuda profissional e passou a frequentar um centro de apoio psicossocial (Caps) no Distrito Federal, onde se reúne em grupos para dividir as experiências. </p>
<p>“Eu passei a tomar três remédios por dia. E os grupos [terapêuticos] fazem com que eu não me sinta mais sozinho”, afirmou. Ele diz que esse vício é o pior que já enfrentou.</p>
<p>“Pior do que minha dependência no passado em álcool e outras drogas. Nunca me senti tão perdido na vida. Hoje reconheço que preciso de terapia.”</p>
<p>Atualmente, ele trabalha em uma escola no interior de Goiás no serviço de reposição de alimentos. “Estou recomeçando minha vida. Espero que meus filhos um dia me perdoem.” </p>
<h2>Riscos e tratamentos</h2>
<p>A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti (que trata e estuda o transtorno do controle de impulso) do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em vulnerabilidade, nas classes C e D, são as mais atingidas. Esse público costuma procurar melhorias nas condições de vida, mas se deparam com desinformação e publicidade enganosa por todos os lados.</p>
<p>Pessoas mais vulneráveis, moradoras de comunidades periféricas e que ganham perto de um salário mínimo viram alvos fáceis, avaliam as especialistas consultadas pela reportagem. As pessoas são atacadas por anúncios que induzem a uma falsa ideia de que o jogo serviria como uma complementação de renda.</p>
<p>“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso”. </p>
<p>O contexto social eleva a vulnerabilidade das pessoas afetadas pelo transtorno.</p>
<p>“Quando você pensa em um jovem que reside numa comunidade, todo o dinheiro que ele perde, impacta na subsistência da família”. Isso impacta a saúde mental dos pacientes. </p>
<p>Kátia Branco contextualiza que a distorção da realidade provocada pelos estímulos aumenta a impulsividade da pessoa em maior vulnerabilidade social. O endividamento “em cascata” provoca agravamento de sintomas como depressão, ansiedade e ideação suicida. </p>
<p>Ela lamenta ainda o crescimento do número de transmissões esportivas que tratam a aposta como uma brincadeira sem grandes consequências.</p>
<p>“Aumentou a procura no ambulatório e em vários serviços em busca de ajuda para o tratamento”, testemunha. </p>
<p>A pesquisadora defende a necessidade de preparar melhor os psiquiatras que estão na rede pública. Inclusive porque há uma diversidade de perfis de pacientes, incluindo homens, mulheres, adolescentes e idosos. </p>
<h2>“Cassino na palma da mão”</h2>
<p>Segundo a psicóloga Claudia Feres, da secretaria de Saúde do Distrito Federal, o tratamento contra a ludopatia, que é uma doença, leva em conta que se caracteriza por um transtorno de controle dos impulsos. “Aliado agora à tecnologia e a esse mundo das telas, a pessoa tem um cassino na palma da mão para acessar sem sair de casa e a qualquer hora”.  </p>
<p>Ela explica que é importante tratar a doença dentro da lógica da redução de danos tentando fazer com que a pessoa se afaste do celular.</p>
<p>“Há quem comece a usar os joguinhos por desinformação e falta de perspectiva”. </p>
<p>A psicóloga explica que as unidades de saúde contam com equipes multidisciplinares para atender pessoas em diferentes estágios da doença. O ideal, segundo ela, é que a própria pessoa e familiares possam procurar atendimento o quanto antes. Há diferentes sinais para gerar atenção: a pessoa evita se socializar, trocar a madrugada pelo dia e demonstra nervosismo. </p>
<p>“Nos Caps, pessoas chegam com um pedido de socorro desesperado. Nós fazemos o acolhimento e buscamos trazer a família para perto. A ideia é pensar em estratégias que façam sentido”, afirma a psicóloga.</p>
<p>A profissional explica que, ao mesmo tempo em que a pessoa carrega culpa, também leva em conta que o jogo gera um dos únicos prazer que tem.</p>
<p>“O paciente perde, além de tudo, o respeito das pessoas. Vai sendo abandonada pela família e também se abandonando”. Há, então, um contexto social que fragiliza o indivíduo. Por isso, pode ser incorreto atribuir a alguém uma predisposição para a doença. </p>
<p>“Se você singulariza e responsabiliza unicamente um indivíduo, ignora-se que o problema é muito maior. A solução tem que ser no âmbito coletivo e de políticas públicas também”, afirma. </p>
<h2>Controle</h2>
<p>Foi com essa expectativa que outro paciente, que aqui chamaremos de João*, de 32 anos, procurou uma unidade do Caps. Ele, que ficou paraplégico “após uma briga”, faz tratamento semanalmente em um grupo terapêutico e costuma ser acompanhado pela mãe. Eles conseguiram transporte de casa para uma comunidade a 30 quilômetros do Caps que frequenta. </p>
<p>A maior preocupação da mãe no momento é que o filho passou a gastar os poucos recursos da família com jogos <em>online</em> hospedados em <em>sites</em> de <em>bets</em>. “Na verdade, não consigo me controlar. Não sei o quanto já perdi”. A mãe espera que nada interrompa o tratamento dele. </p>
<p>A psiquiatra Kátia Branco, do Hospital das Clínicas da USP, alerta que o apoio da família se torna fundamental para que os pacientes mantenham a medicação em ordem e as sessões de atendimento.  </p>
<h2>Abstinência</h2>
<p>No entanto, há quem ainda resista às terapias mesmo com sinais de dependência. O pedreiro autônomo Ricardo*, de 26 anos, é morador da comunidade do Sol Nascente, a segunda maior favela do Brasil. Ele diz que faz apostas desde 2018 e não contabilizou exatamente o quanto perdeu. “Mais de R$ 100 mil”. </p>
<p>Começou a apostar pela curiosidade e pelo que ouviu de amigos que poderia ter um acréscimo de renda e ainda se divertir. Essa é uma alegação falsa e perigosa. No começo, ele até conseguiu ganhar uma ou duas vezes. Não passavam de chamarizes para o que viria depois. </p>
<p>Pai de um menino de dois anos de idade, o rapaz viu o relacionamento acabar por causa das dívidas causadas por <em>bets</em>.</p>
<p>“Já fiquei até de madrugada. A abstinência bate tão forte que a gente não consegue ter uma noite de sono normal”, explica.</p>
<p>Ele acredita que abriu os olhos antes de se afundar mais. Afirma que foi criado por mãe solo e que não teve coragem de contar para ela ter perdido dinheiro em apostas. Ele pôde estudar apenas até a oitava série. </p>
<p> “Eu acho que não me considero viciado porque não tive que vender coisas de casa para pagar dívidas”.</p>
<p>Ricardo testemunha que é comum haver convites na comunidade para que grupos se reúnam de forma online para trocar ideias sobre como ser mais efetivo na aposta.</p>
<p>“As pessoas se unem. O mesmo gráfico (do cassino) que roda para um, dependendo da plataforma, roda para todos. Do mesmo jeito que pagou para mim, vai pagar para o próximo”. </p>
<p>Como hoje trabalha de forma autônoma com reformas, sonha um dia poder fazer uma faculdade de engenharia e esquecer dos problemas que já atravessaram sua vida, inclusive ter dificuldade de pagar pensão alimentícia. </p>
<p>Para evitar as tentações por mexer no celular durante a madrugada, ele desliga o telefone e tenta manter o mais longe possível do aparelho.</p>
<h2>Jogo problemático é “questão séria”</h2>
<p>Em nota à Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que diz representar 75% do mercado brasileiro, afirmou que reconhece a importância do debate sobre a prevenção ao jogo problemático e à proteção das pessoas em situação de vulnerabilidade. </p>
<p>“O instituto reforça que as apostas devem ser tratadas sempre como uma forma de entretenimento, nunca como fonte de renda ou alternativa para subsistência”, aponta.</p>
<p>A entidade considera que, desde o início do mercado federal regulado, no início do ano passado, as empresas autorizadas passaram a operar com regramento e controle.</p>
<p>Considera ainda que o “jogo problemático é uma questão séria” e seu enfrentamento exige atuação coordenada entre poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade para a prevenção e no atendimento das pessoas que necessitem de suporte.</p>
<h2>“Regras são rigorosas”, avalia instituto</h2>
<p>Em relação aos anúncios publicitários, os empresários do setor entendem que as ações de comunicação passaram a estar submetidas a regras específicas e rigorosas. “Isso inclui medidas para a proteção de crianças e adolescentes, e a vedação absoluta de mensagens que apresentem as apostas como alternativa de enriquecimento ou solução financeira”. </p>
<p>A entidade garante que mantém diálogo constante com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Ao mesmo tempo, opina que a regulamentação brasileira do setor de apostas é uma “das mais modernas do mundo, com obrigações tributárias e normas operacionais”. </p>
<p>O IBJR acrescenta que o combate às plataformas ilegais, que não estão submetidas às mesmas regras de fiscalização e controle.</p>
<p>“O fortalecimento do ambiente regulado contribui para ampliar a rastreabilidade das operações, a responsabilização dos operadores e os mecanismos de proteção aos apostadores”.</p>
<p>Pessoas entrevistadas pela Agência Brasil não tiveram seus nomes identificados na reportagem em função da situação de vulnerabilidade que enfrentam.</p>
<p> </p>
<p>Fonte: <br /><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-08/apostadores-de-bet-em-periferias-buscam-ajuda-apos-vida-virar-pesadelo" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Brasil</a></p>
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