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	<title>Internacional Archives - Clique Notícias Brasil</title>
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	<title>Internacional Archives - Clique Notícias Brasil</title>
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		<title>Messi, Maradona e a paixão argentina pelo futebol</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/messi-maradona-e-a-paixao-argentina-pelo-futebol/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 08:20:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Estou na esquina de Cabildo e Juramento. Para onde olho, vejo manadas de argentinos ocupando as ruas. É mais uma celebração que se espalha pelo país nesta Copa do Mundo. Eufóricos, fantasiados, com o rosto pintado, eles cantam ao som dos bombos. Alguns, sem camisa, em pleno inverno. Outros sobem nos ombros de amigos, em [&#8230;]</p>
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<p class="has-drop-cap">Estou na esquina de Cabildo e Juramento. Para onde olho, vejo manadas de argentinos ocupando as ruas. É mais uma celebração que se espalha pelo país nesta Copa do Mundo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eufóricos, fantasiados, com o rosto pintado, eles cantam ao som dos bombos. Alguns, sem camisa, em pleno inverno. Outros sobem nos ombros de amigos, em marquises, paradas de ônibus e semáforos. Ao menor sinal, a multidão salta, se abraça, agita camisas celestes e brancas, bebe cerveja e vinho direto da garrafa. Não há partido político, time de futebol, classe social ou desavenças. Nesta loucura momesca, ninguém é de ninguém. Todo mundo é de todo mundo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">— Estou mesmo em Buenos Aires? — me pergunto.</p>
<p class="wp-block-paragraph">É difícil explicar para quem está de fora por que os argentinos comemoram cada vitória como se fosse a final da Copa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">— As pessoas de fora não entenderiam — me diz um pai que levou a família para a rua. — Isso é ser argentino. É ter coragem para jogar até o fim e defender as nossas cores. É o Diego que devolveu o orgulho da nossa camiseta e de ser argentino.</p>
<p class="wp-block-paragraph">De fora, eles parecem apenas loucos. De dentro, é impossível não se emocionar. Aos poucos, eu também me vejo entregue a essa maré celeste e branca que acredita que a maestria de Lio Messi levará à vitória, nem que seja no último minuto.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última do Lio, Argentina, quero ver-te bicampeã… Não me arrependo deste amor, mesmo que doa o coração”, canta a multidão. A música, repetida nos estádios, nas ruas, nos rádios e nas redes, virou um hino.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Os hinos são dramáticos, como quase tudo neste país. Parecem mais um tango do que um samba. Dá a impressão de que o mundo acaba amanhã — ou será na quarta-feira de cinzas?</p>
<p class="wp-block-paragraph">Empurra-empurra. Cheiro de suor e cerveja. Chuva. Fogos de artifício. É o carnaval que a Argentina nunca teve, mas que esta seleção inventou.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Hoje a Inglaterra caiu. Bastou isso para que ninguém quisesse voltar para casa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Um grupo de jovens de dezoito, vinte anos, pula abraçado. Um casal que mal se conhece troca um beijo rápido e desaparece na multidão. Mais adiante, como um estandarte de bloco, um rapaz sem camisa ergue um quadro que tirou da parede de casa. É uma fotografia de Maradona levantando a Copa de 1986. Em segundos, centenas de pessoas começam a segui-lo, cantando em uníssono.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não é um déjà-vu das ladeiras de Olinda?</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não é. Mas poderia ser.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ali entendo que Maradona nunca foi apenas um jogador. Para muitos argentinos, a vitória sobre a Inglaterra em 1986 o transformou em um herói nacional. Virou religião, memória coletiva, um jeito de ser argentino.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A vitória de hoje reacende uma chama que nunca se apagou. Desde a Guerra das Malvinas, jogar contra a Inglaterra nunca foi apenas um jogo. O futebol virou o campo onde ainda é possível vencer. Desta vez, o orgulho argentino entrou em campo calçando as chuteiras de Messi.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Penso que muitos ao meu redor nem eram nascidos quando a guerra aconteceu. Mas isso parece não importar. Os argentinos cultivam a memória dos seus heróis como poucos povos que conheço. Carregam o passado no peito para celebrar o presente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Enquanto volto para casa, ainda escuto os bombos ecoando pelas ruas. E percebo que ninguém comemorava apenas uma vitória. Celebrava-se uma memória, uma dor que se transformou em uma explosão de alegria, um país inteiro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja isso que eu mais admire na Argentina. Quando decide comemorar, ela se transforma em um único corpo. Como em Olinda, desconhecidos se abraçam, cantam juntos, dividem cerveja, chuva e suor. Durante algumas horas, ninguém pergunta quem você é. Basta vestir o celeste e o branco — ou apenas deixar-se levar pela festa — para também fazer parte dela.</p>
<p class="wp-block-paragraph">E, naquela noite, mais uma vez, senti que metade de mim também comemorava como argentina.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>EUA preparam terreno para não reconhecer eleições brasileiras</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/eua-preparam-terreno-para-nao-reconhecer-eleicoes-brasileiras/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 21:46:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph"><em>Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, </em><em>inscreva-se aqui.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">A notícia não é boa e deve ser tratada com a maior seriedade – inclusive pelas autoridades competentes, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O governo de Donald Trump está preparando uma armação para questionar a integridade das urnas brasileiras, de maneira coordenada com Eduardo e Flávio Bolsonaro, e Paulo Figueiredo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A estratégia tem dois objetivos: criar desconfiança aqui no Brasil quanto aos resultados, causando ruído diante da possível derrota de Flávio para Lula; e criar uma base documental e narrativa para embasar uma recusa dos EUA em reconhecer o resultado eleitoral.     </p>
<p class="wp-block-paragraph">No sábado, o jornal Washington Post denunciou que os EUA planejavam enviar dois oficiais indicados por Trump para Brasília para questionar a integridade das urnas, encontrando-se com políticos que questionam a integridade eleitoral e escrevendo um relatório apontando problemas, que não precisaria conter nem um fio de verdade. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Entre os enviados por Trump estaria Samuel Samson, de 27 anos, subsecretário-adjunto de Estado para o Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, designado este ano, que tem liderado uma guerra contra a Europa pelo que os trumpistas vêem como “censura política” e “lawfare” à extrema direita no bloco. No final de maio, Samson liderou uma comitiva que foi a Londres se encontrar com manifestantes anti-aborto e grupos “anti-cultura do cancelamento”.    </p>
<p class="wp-block-paragraph">O plano era virem aqui para criar um fato político. Uma <em>fake news</em> criada desde o Departamento de Estado. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Os pedidos de visto foram negados pelo Itamaraty. Mas três eventos nos últimos dias demonstram que a campanha contra as eleições não vai acabar, e está sendo coordenada pelo governo Trump junto ao verdadeiro QG da campanha de Flávio Bolsonaro, que tem sede no Texas e é liderado por Eduardo e Paulo Figueiredo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 16 de julho, Trump foi à TV americana para atacar as urnas eletrônicas nos EUA. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O que ele disse? “Os americanos foram descaradamente enganados sobre a segurança da nossa infraestrutura eleitoral, incluindo a segurança das máquinas de votação eletrônica.”  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Acusou a China de ter acessado dados de eleitores. Em um discurso de 20 minutos, ele afirmou que relatórios de inteligência suprimidos do público, supostamente, alertariam sobre “vulnerabilidades chocantes de nossa infraestrutura eleitoral”. Na democracia mais antiga do continente, chegou a questionar a habilidade dos EUA de terem “eleições livres e justas”. O objetivo claro era já preparar um golpe contra as eleições de meio de mandato que acontecem em novembro, quando ele pode perder o controle da Câmara e do Senado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas o pronunciamento foi concatenado a uma renovada campanha golpista de Flávio e Eduardo Bolsonaro, lançada a seguir. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Cinco dias depois, Flavio reuniu-se com diplomatas em um evento em Brasília e colocou em dúvida a integridade das urnas eletrônicas, conclamando-os a enviarem observadores eleitorais. Disse que as urnas eletrônicas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa Smartmatic e que um relatório da CIA mostra que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012. O TSE já afirmou repetidas vezes que não usa urnas da empresa ou que ela tenha acesso aos seus dados. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Com a reunião, Flávio repetiu 4 anos depois a reunião de Bolsonaro com diplomatas em 2022, que o tornou inelegível. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, quatro dias depois da fala do irmão, Eduardo Bolsonaro fez uma live escandalosa junto com Fernando Cerimedo – sim, o marqueteiro argentino que publicou um vídeo com um suposto “dossiê” afirmando ter havido fraude nas eleições de 2022. O dossiê foi escrito por Mauro Cid e fazia parte do plano de golpe de Estado, segundo a PF. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Cerimedo foi assessor de Milei e o apresentou a Eduardo, tendo pago uma viagem do 03 à Argentina entre o primeiro e o segundo turno de 2022, como a Pública revelou.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Na live, ambos repetiram todas as mentiras da live golpista de 2022, como a entrada de votos fraudados depois das 5 da tarde, e uma suposta diferença nos logs entre urnas novas e urnas mais antigas, e que somente o Brasil teria urnas eletrônicas. Tudo já desmentido pelo TSE. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A narrativa central criada desde o governo Trump é que, depois do fim da USAID, a extrema direita tem ganhado todas as eleições no continente. Se a esquerda ganha, é porque houve fraude. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Sobre as eleições de 2022, ambos disseram que, juntos, eles “encontraram a fraude”. </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Eduardo</em><em>: Olha aqui… Não é necessário fraudar 100% das urnas, correto, Cerimedo? Se você fraudar apenas uma porcentagem delas, já dá para fazer a fraude acontecer e aquela pessoa que você deseja, seja a vencedora. Correto?</em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Cerimedo:</em><em> Correto. Você necessita de 5% ou 10% das máquinas para trocar o resultado, nada mais. Lembre-se: a fraude estava nas máquinas, mas, no centro de processamento, você pode alterar o log. Então, pode disfarçar o que aconteceu. Mas eles não contavam que nós íamos…</em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Eduardo</em><em>: …Encontrar a fraude.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Durante a live, Eduardo apresentou slides feitos pela “Revista Timeline”, pertencente ao blogueiro Allan dos Santos. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele atacou diretamente o TSE. Afirmou que “em regimes autoritários, quem controla as eleições, controla também os auditores. A centralização tecnológica é precisamente o vetor da fraude, não a sua blindagem”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Seguiu: “O sistema eleitoral digital global carrega uma vulnerabilidade intrínseca, a capacidade silenciosa de comprometer e fraudar centenas de milhões de registros sob demanda da autoridade central. Então, meus caros, isso aqui, como é que você soluciona isso? Se você tiver um voto no papel, você soluciona isso.” </p>
<p class="wp-block-paragraph">A live aconteceu depois de Eduardo ter garantido o Green Card americano e estar seguramente longe da Justiça do Brasil, onde já foi condenado a 4 anos e 3 meses pelo crime de coação no curso do processo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Com ele, a narrativa do golpe segue vivíssima e é parte central da campanha do candidato do PL. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Se engana quem acha que, com a negativa do visto aos delegados do Departamento de Estado, os ataques contra nossas eleições irão parar. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Donald Trump já demonstrou cabalmente que se importa com todas as eleições deste continente e vai intervir tanto quanto possível, como fez na Argentina, em Honduras e na Colômbia. </p>
<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, não vai ser diferente. A visita dos enviados é apenas um dos muitos esforços que visarão abrir as portas para que os EUA rejeitem o resultado democrático das urnas e pressionem outros governos da reunião a fazerem o mesmo – alguém tem alguma dúvida do que fará a Argentina de Milei?</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Curso da Pública analisa extrema direita e eleições em 2026</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/curso-da-publica-analisa-extrema-direita-e-eleicoes-em-2026/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 13:38:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano de 2026 será decisivo para a democracia brasileira. Enquanto o país se prepara para eleger presidente, governadores, senadores e deputados, uma ampla reconfiguração geopolítica e ideológica ganha força na América Latina e promete influenciar diretamente o cenário político nacional. Por isso, a Agência Pública promove, nos dias 25 e 27 de agosto, o [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O ano de 2026 será decisivo para a democracia brasileira. Enquanto o país se prepara para eleger presidente, governadores, senadores e deputados, uma ampla reconfiguração geopolítica e ideológica ganha força na América Latina e promete influenciar diretamente o cenário político nacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Por isso, a Agência Pública promove, nos dias 25 e 27 de agosto, o curso Extrema Direita e Eleições no Brasil formato online e ao vivo. Ministrado pelo cientista político Guilherme Casarões, doutor e mestre em Ciência Política, o curso oferece uma análise aprofundada sobre o avanço da extrema direita no mundo e na América Latina e seus reflexos na política brasileira às vésperas das eleições de 2026. Serão duas aulas, com gravação disponível por 30 dias e emissão de certificado digital.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Impulsionada pelo apoio cada vez mais explícito do governo de Donald Trump, a extrema direita latino-americana vive uma sequência inédita de vitórias eleitorais. O caso mais recente foi o da Colômbia, com a eleição do outsider Abelardo de la Espriella, conhecido como “El Tigre”. Antes dele, candidatos ultraconservadores chegaram ao poder no Peru, Chile, Equador e Paraguai.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Esse movimento se soma às lideranças de Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, frequentemente apontados como referências para a radicalização do discurso político no Brasil. Se antes as eleições nos países vizinhos passavam quase despercebidas pelo noticiário brasileiro, hoje elas são acompanhadas de perto. De Washington a Buenos Aires, representantes da extrema direita já sinalizam que pretendem influenciar a disputa presidencial brasileira de 2026.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Como essas conexões são construídas? Quais interesses estão em jogo? E quais os possíveis impactos para a democracia brasileira?</p>
<p class="wp-block-paragraph">Essas são algumas das questões que orientam o curso Extrema Direita e Eleições no Brasil, promovido pela Agência Pública, a maior agência de jornalismo investigativo independente do Brasil. A iniciativa também íntegra a estratégia da Pública de ampliar a produção de conhecimento e aproximar o público do jornalismo investigativo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na primeira aula, Casarões apresentará um panorama da ascensão da extrema direita global desde o primeiro governo Trump, examinando o fortalecimento dessas forças políticas na América Latina e os mecanismos de influência dos Estados Unidos na região. Também serão discutidas as articulações entre diferentes correntes da direita internacional e seus impactos sobre a política brasileira ao longo da última década.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Já a segunda aula será dedicada às eleições de 2026. O professor analisará as estratégias da extrema direita para a disputa presidencial, os possíveis cenários de segundo turno e o que estará em jogo não apenas na corrida ao Palácio do Planalto, mas também nas eleições para o Congresso Nacional e os governos estaduais. A aula também abordará os riscos concretos à democracia brasileira, incluindo ameaças ao processo eleitoral e às instituições, além de refletir sobre os diferentes cenários possíveis para o período pós-eleitoral.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Se você quer entender, com profundidade e senso crítico, as forças que estão moldando um dos ciclos eleitorais mais importantes da história recente do país, o curso representa uma oportunidade de formação e análise qualificada.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As inscrições podem ser realizadas mediante um PIX de R$ 250 para contato@apublica.org e o preenchimento do formulário de inscrição disponível aqui.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Serviço</h2>
<ul class="wp-block-list">
<li>Curso: Extrema Direita e Eleições no Brasil;</li>
<li>Datas: 25 e 27 de agosto, terça e quinta-feira;</li>
<li>Horário: das 19h às 21h;</li>
<li>Formato: Online/Ao vivo;</li>
<li>Valor: R$ 250 para o pix contato@apublica.org;</li>
<li>Inscrições em apoie.apublica.org/curso</li>
</ul>
<h2 class="wp-block-heading">Informações para a imprensa:</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Agência Pública: Marina Dias | marinadias@apublica.org</p>
<h2 class="wp-block-heading">Sobre a Agência Pública</h2>
<p class="wp-block-paragraph">A Agência Pública foi fundada em 2011 por jornalistas mulheres e tem como missão produzir reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público, sobre as grandes questões do país do ponto de vista da população – visando o fortalecimento do direito à informação, à qualificação do debate democrático e à promoção dos direitos humanos. Em 2022, nossas reportagens foram reproduzidas por cerca de 700 veículos, sob a licença Creative Commons. A Agência Pública é considerada a agência de notícias mais premiada do Brasil, tendo conquistado 90 prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio Vladimir Herzog, Prêmio República e Prêmio Gabo. https://apublica.org</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>PF mira tráfico internacional e lavagem de capitais de até R$ 1 bilhão</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/pf-mira-trafico-internacional-e-lavagem-de-capitais-de-ate-r-1-bilhao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Agência Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 21:56:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[até]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Polícia Federal realizou nesta quinta-feira (23) uma operação para desarticular uma organização criminosa dedicada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de capitais em escala bilionária. Policiais federais e estaduais cumpriram nove dos 13 mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça Federal, além de 44 mandados de busca e apreensão, em quatro estados da federação: [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A Polícia Federal realizou nesta quinta-feira (23) uma operação para desarticular uma organização criminosa dedicada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de capitais em escala bilionária.<img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/07/PF-mira-trafico-internacional-e-lavagem-de-capitais-de-ate.gif?w=740&#038;ssl=1" style="width:1px; height:1px; display:inline;"/></p>
<p>Policiais federais e estaduais cumpriram nove dos 13 mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça Federal, além de 44 mandados de busca e apreensão, em quatro estados da federação: São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Espírito Santo.</p>
<p>A Justiça também determinou o cumprimento de outras medidas cautelares, além do sequestro de ativos e bloqueio de bens de pessoas físicas e jurídicas investigadas até o limite de R$ 1 bilhão.</p>
<p>A Operação Commodity foi desenvolvida no contexto da Missão Redentor II e contou com o apoio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) nos estados de São Paulo (SP) e Minas Gerais (MG).</p>
<h2>Confronto</h2>
<p>Durante o cumprimento de um mandado de prisão, contra um dos investigados, na cidade de Igaratá (SP), no Vale do Paraíba paulista, o alvo que teria ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) resistiu à prisão e reagiu atirando contra os policiais.</p>
<p>Na troca de tiros, o homem foi atingido e recebeu os primeiros socorros, mas não resistiu e morreu na mansão que ocupava. Nenhum policial ficou ferido na ação.</p>
<h2>Tráfico internacional</h2>
<p>As investigações revelaram que o grupo criminoso estruturou uma rede logística com ramificações na América do Sul, Europa e Ásia, focada na exportação marítima de cocaína para o continente europeu.</p>
<p>As ações também apontaram que, desde 2021, a organização enviou cerca de 6,5 toneladas de cocaína para diversos países da Europa, bem como mantinha vínculos operacionais com as duas das maiores facções criminosas em atuação no Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).</p>
<p>Para ocultar o entorpecente em contêineres e burlar a fiscalização alfandegária, os criminosos utilizavam como método a camuflagem da droga em sacos de café, cimento e argamassa, além da adulteração química de substâncias. Um exemplo seria a cocaína diluída em garrafas de refrigerante.</p>
<p>Em setembro de 2025, foi apreendida no Porto do Rio de Janeiro cerca de meia tonelada de cocaína escondida em sacas de café. O carregamento seguiria para a Eslovênia, pequeno país da Europa central, que faz fronteira com a Áustria, Hungria, Croácia e Itália.</p>
<h2>Lavagem de dinheiro</h2>
<p>O grupo criminoso movimentou valores bilionários por meio de uma macroestrutura financeira de ocultação patrimonial. O esquema operava sob diferentes tipologias de lavagem de dinheiro, que incluíam empresas “noteiras&#8221;, criadas para emitir notas fiscais falsas e de fachada; “cripto-doleiros&#8221;; bens de luxo e imóveis de alto padrão.</p>
<p>Os investigados responderão, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de organização criminosa transnacional, tráfico internacional de drogas e lavagem de capitais, sem prejuízo de eventuais outros delitos que possam ser revelados no decorrer das apurações.</p>
<p>Fonte: <br /><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-07/pf-mira-trafico-internacional-e-lavagem-de-capitais-de-ate-r-1-bilhao" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Brasil</a></p>
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		<title>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato — “Os agentes”</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-os-agentes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 10:10:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Natalia chega aos Estados Unidos disposta a encontrar uma personagem crucial para a investigação: a agente Leslie Rodrigues Backshies. Numa saga de telefonemas, e-mails, portas fechadas e muitos voos, nossa incansável repórter cruza o país de ponta a ponta e conversa com fontes diretamente envolvidas na relação do FBI com a polícia e a justiça [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Natalia chega aos Estados Unidos disposta a encontrar uma personagem crucial para a investigação: a agente Leslie Rodrigues Backshies. Numa saga de telefonemas, e-mails, portas fechadas e muitos voos, nossa incansável repórter cruza o país de ponta a ponta e conversa com fontes diretamente envolvidas na relação do FBI com a polícia e a justiça brasileiras. Mas uma nova pista surge no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ouça agora o episódio 5!</p>
<h3 class="h5 p-0 fst-sans-serif border-0 text-start text-light my-1 hide-on-inactive" style="">Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato</h3>
<p>
								1							</p>
<p><h4 class="h6 mb-0">Episódio 5: Os agentes</h4>
</p>
<h2 class="wp-block-heading">Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra</h2>
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">EPISÓDIO 05: OS AGENTES</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: ambientação aeroporto voo para NY</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana] [Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu tô embarcando para Nova York, onde espero conseguir ouvir outros personagens desta história – os investigadores americanos que colaboraram com a Lava Jato. Fiz contato com funcionários e ex-funcionários públicos de todo tipo: ex-procuradores do DOJ, o Departamento de Justiça americano; advogados da SEC, o Security and Exchange Commission, ou Comissão de Valores Mobiliários. Existem até nomes que desconfio que sejam da CIA. Mas quem eu realmente quero encontrar são os agentes do FBI. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito Sonoro: ligação</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hello, my name is Natalia Viana. I’m calling for Mr. Patrick Kramer.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora com inspiração em filmes de espionagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">Antes de embarcar, eu tentei contato com vários deles. Nomes que conhecia apenas pelos diálogos vazados, como Patrick Kramer, um superagente, ex-marine, que chegou a ser do serviço de inteligência durante a Guerra do Golfo. Steve Moore, que atuava no consulado de São Paulo, June Drake, uma jovem agente do FBI; David Williams, que também trabalhava no consulado e é muito citado pelos membros da força tarefa da Lava Jato nos diálogos vazados. Mas existe uma agente, em especial, que eu sempre sonhei em entrevistar…</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha</p>
<p class="wp-block-paragraph">Leslie Backschies, quer dizer, Leslie Rodrigues Backshies. Rodrigues com “S” mesmo. Leslie é filha de brasileiros. Eu descobri o “Rodrigues” por acaso durante as investigações, e logo me identifiquei porque também tenho o mesmo sobrenome e, como ela, também escondo esse nome na minha assinatura. Durante anos, a única imagem que consegui de Leslie foi uma foto tirada de longe. Na imagem, dá pra ver uma mulher de meia idade, blusa rosa e calça preta, usando óculos escuros que cobre boa parte do rosto, cabelo castanho preso num rabo de cavalo e um sorriso tímido. O principal motivo do meu interesse é que Leslie se tornou uma figura muito conhecida e reconhecida pelos procuradores de Curitiba. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: vinheta de abertura</p>
<p class="wp-block-paragraph">Meu nome é Natalia Viana, sou jornalista e apresentadora da série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”. No penúltimo episódio desta série vamos investigar quem são e qual foi a atuação de agentes do FBI e procuradores americanos durante a maior operação anticorrupção da história brasileira. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: fim da vinheta </p>
<p class="wp-block-paragraph">Episódio 05: Os agentes</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: pausa</p>
<p class="wp-block-paragraph">[material de arquivo]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Reinaldo Azevedo: Desde 2016 pelo menos, a Lava Jato está operando intimamente com uma senhora chamada Leslie Rodrigues, em português mesmo esse Rodrigues, ou dona Leslie, eu não sei a pronúncia do seu nome, não sei se “Backskies” ou “Backshies”, mas B a c k s c h i e s. Ela é um medalhão do FBI, íntima, o tempo todo atuando em parceria com a Lava Jato ao arrepio do governo brasileiro. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Neste áudio, o jornalista Reinaldo Azevedo fala de Leslie Backschies, cuja carreira demonstra a mudança de foco do FBI. Ela inicialmente trabalhou em contraterrorismo, em 2012, mudou-se para a América do Sul, supervisionando agentes do FBI em vários países, incluindo aqueles lotados na embaixada em Brasília. A foto que mencionei prova que desde essa época ela vinha ao Brasil, o objetivo era firmar parcerias para capacitação de policiais para responder a ameaças terroristas antes da Copa de 2014. Na foto, ela está em frente a um helicóptero junto com outra agente do FBI e policiais da PM de São Paulo. Foi depois disso que a carreira de Leslie deu uma boa guinada, e ela passou a investigar casos de corrupção, e assim chegamos à Lava Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da Trilha sonora </p>
<p class="wp-block-paragraph">O nome da Leslie aparece muito nos diálogos da Vaza Jato. Como nesse entre o procurador Deltan Dallagnol e a ex coordenadora da Força Tarefa em São Paulo, Thaméa Danelon, que estava com viagem marcada para os EUA.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: alerta mensagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
<p class="wp-block-paragraph">18 de maio de 2016, de Thaméa Damelon para Deltan Dallagnol: “Vou tentar tirar uma foto com  a Jennifer Lopes e o cartaz das 10 Medidas. Os agentes do FBI já apoiaram. Mas não pode publicar a foto, ok? Eles não deixaram. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: alerta mensagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Ahhhh Garota! Aí é missão impossível, hein? Até ouvi a musiquinha! Legal a foto! A Leslie está em todas rs”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">“A Leslie está em todas” é uma frase que sempre me deixou curiosa. Sobre as tais 10 Medidas, era um projeto de lei encampado pelos procuradores de Curitiba, que buscavam obter todo apoio político possível – até do FBI. A foto foi tirada em São Paulo, um dia antes da mensagem, em 17 de maio de 2016, quando Thaméa participou, junto com Leslie, de uma palestra para 90 membros do MPF paulista. O evento contou também com a presença de outros agentes ilustres, como George “Ren” McEachern, então diretor do Esquadrão de Corrupção Internacional do FBI em Washington — e chefe da Leslie. A palestra teve como objetivo ensinar o funcionamento da FCPA, acrônimo em inglês, ou FCPA em bom português que é a lei de combate à corrupção que explicamos em detalhe no episódio anterior.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: ambiência cidade de NY</p>
<p class="wp-block-paragraph">E é com essas informações que eu chego em Nova York. Sei que agora Leslie trabalha na sede do FBI que fica aqui. Depois da Lava Jato, ela comandou uma das Unidades de Corrupção Internacional do FBI, em Miami, com foco em investigar casos de corrupção na América do Sul, em especial na Venezuela. É uma das quatro unidades semelhantes, todas abertas desde 2015, não por coincidência, o mesmo ano em que os EUA entraram com tudo na Lava Jato. O primeiro caminho para chegar até Leslie foi o oficial: pedi uma entrevista através da Assessoria de Imprensa do FBI. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Agora, dizem que uma jornalista não precisa saber de nada, apenas precisa saber quem sabe. É por isso que, em Nova York, eu fui atrás de um velho conhecido, o jornalista investigativo Marco Della Stella. Ele é italiano e mora nos Estados Unidos, mas a gente sempre se fala em espanhol. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ligação Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hola Marco.  </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ligação Marco Della Stella] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hola, buen día. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>[</em>Ligação<em> </em>Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Gracias por hablar conmigo tempranito. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>[</em>Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Marco conhece todos os caminhos para obter informações por aqui. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: rebobinar</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sem muito tempo a perder, na minha curta estadia nos EUA, também pedi pro Marco levantar tudo o que conseguisse sobre a Leslie Backschies. Garimpando o nome dela na internet, cheguei a uma entrevista dada para a agência de notícias Associated Press em 2019 sobre a Lava Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Nós vimos muita atividade na América do Sul — Odebrecht, Petrobras. A América do Sul é um lugar onde… Nós vimos corrupção. Temos tido muito trabalho ali Esses casos são muito sensíveis politicamente, não somente nos Estados Unidos mas no exterior. Nós vimos presidentes derrubados no Brasil. Se você está olhando para membros do alto escalão de governos, há muitas sensibilidades.” </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ou seja: Leslie estava consciente dos impactos políticos de investigações anticorrupção. A reportagem afirma que havia reuniões trimestrais entre agentes do FBI e advogados do DOJ para coordenar esses casos “sensíveis”. Com essas novas informações a vontade de falar com  Leslie só crescia.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha sonora.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Até que o FBI cortou minhas expectativas… Dupla negativa: não tenho permissão de entrevistar a agente especial Leslie Backschies, nem de visitar o escritório do FBI em NY. Mas com a ajuda do Marco, eu consegui o telefone, o endereço e o email da agente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: som de chamada telefônica.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Voicemail]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Your call has been forwarded to voicemail, the person you are trying to reach is not available. At the tone, please, record your message</em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>[</em>Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Olá, Leslie, aqui é a Natalia Viana, sou jornalista da Agência Pública de Jornalismo Investigativo do Brasil. Estou tentando falar com você para ver se você topa conversar comigo. Eu mandei e-mail também, se você quiser entrar em contato.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sem resposta na primeira ligação, eu segui tentando.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Voicemail] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>When you have finished recording you may hang out.</em> </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: ligação não atendida</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>[</em>Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Decidi partir para a última cartada: bater na porta do apartamento onde ela mora em NY. Eu tô aqui em NY. É uma viagem longa. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha Sonora + Ambiência do metrô interno, aviso de porta se fechando. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Saindo do metrô, eu caminhei algumas quadras até chegar na rua de Leslie. Estamos aqui na rua dela. É um prédio, é um prédio alto, com grandes janelas de vidro, bem moderno, tem apartamentos cujo aluguel estão no valor de mais ou menos 7 mil dólares, tem uma portaria aqui embaixo. Aqui embaixo também tem um banco, o Bank of America, um supermercado de comidas mais chiques, assim. E… Hi! Tem aqui, isso aqui é uns food trucks, uma lojinha de comida na rua, um carrinho de comida na rua. O prédio ocupa quase todo o quarteirão. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Depois de esperar por um tempo, pedi ao porteiro para interfonar para o apartamento. <em>Hi, hello, I’m looking for the owner of apartment B.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele tentou algumas vezes… e nada… No fim o porteiro aconselhou que eu ligasse diretamente para ela. Algo que como você ouviu, eu já tinha tentado algumas vezes. Dei a volta no quarteirão, esperei um pouco mais e aceitei que não foi dessa vez. Já tava voltando pro meu hotel, pensando que comecei mal a jornada aqui nos Estados Unidos, quando no coração de Manhattan, uma surpresa:</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não imaginava, mas a estação de metro dá diretamente no memorial de 11 de setembro, embora a gente esteja falando muito nessa áudiossérie sobre as consequências da guerra antiterror e da mudança do FBI depois dos atentados às Torres Gêmeas, mas eu nunca tinha visto esse memorial e ele é muito impressionante mesmo. O lugar, no perímetro onde pelo menos uma das torres existia, você tem um buraco enorme, quadrado, com uma fonte de água como se fosse uma cachoeira nos quatro lados, a água caindo e dá pra ouvir o som. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O memorial fica pertinho da casa de Leslie, no meio do caminho pro seu trabalho, o enorme e imponente prédio do FBI em Manhattan. Imagino que esse memorial não a deixe esquecer de todas as vidas perdidas e da sua missão de combater o terrorismo internacional. Não é óbvio, mas existe uma relação entre o atentado de 11 de setembro de 2001 e as investigações anticorrupção contra empresas brasileiras realizadas pelos Estados Unidos durante a Lava Jato. Por isso, talvez a chave esteja justamente em entender como o FBI adotou o contraterrorismo como sua missão número 1. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima interferência </p>
<p class="wp-block-paragraph">E, assim, eu cheguei no livro <em>Inimigos: uma história do FBI</em>, do jornalista Tim Weiner. Lendo, entendi que desde pelo menos 1935 o FBI é uma agência de inteligência e contrainteligência, com foco em caçar espiões e terroristas pelo mundo afora. Grampos ilegais, espionagem de cartas e depois e-mails, infiltrações de agentes em movimentos sociais, cooptação de informantes e agentes duplos são estratégias antigas da agência. Mas quem me contou mais sobre o trabalho do FBI foi justamente um ex-agente que estava na ativa durante o 11 de setembro.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, o sobrenome desse agente você conhece: Youssef. Mas esse outro Youssef, ao contrário do doleiro, atuava do outro lado do balcão. Bassem Youssef é agente especial aposentado do FBI, e foi um dos primeiros árabes a serem contratados para a área de contraterrorismo – ele nasceu no Egito. E não se trata apenas de uma coincidência estarmos atrás de dois Youssef’s: tudo, afinal, tem a ver com a mudança de foco do FBI para a luta antiterrorismo e o renovado interesse pela comunidade árabe. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>We’re starting now. Ah, okay. So, my name is Bassem Youssef. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ah, ok. Então, meu nome é Bassem Youssef, eu fui recrutado para o FBI em 1986. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando entrei no FBI, era, você sabe, um sonho de infância sendo realizado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A entrevista foi realizada em inglês, mas aqui ela foi dublada pelo ator Denis Goyos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O processo de seleção e a verificação de antecedentes demoraram cerca de dois anos, então eu comecei na Academia do FBI em 1988. Eu trabalhei em contraterrorismo, mesmo que o contraterrorismo naquela época não fosse muito popular. O tema da Segurança Nacional não era um grande problema até o 11 de Setembro. Mas eu, em especial, fui colocado para agir em contraterrorismo islâmico radical, por causa do meu idioma, porque eu falo árabe, e essa foi uma das razões pelas quais eu fui recrutado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para encontrar Bassem, peguei um avião por três horas para Fort Myers, na Flórida, onde o encontrei em um clube de golfe luxuoso, mas bastante remoto, protegido por seguranças e arbustos altos, bem cortados. O lugar parece um daqueles em que executivos se reúnem para fechar negócios milionários, sabe? No saguão, mesas de madeira maciça, cadeiras de couro, lustres no teto, papel de parede… Tudo indica que, depois de sair do FBI, o Bassem não ficou por baixo. Ele conta que logo no começo da carreira, ainda nos anos 90, chegou a investigar nos Estados Unidos a ligação de uma rede de terrorismo que agia na Tríplice Fronteira, ou seja o interesse na região vem de décadas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, a área da Tríplice Fronteira obviamente é um ponto estratégico para o Hezbollah, em particular, a organização terrorista Hezbollah, que é um grupo xiita, patrocinado pelo Irã. Mas eles têm bases em diferentes partes do mundo. Irã, obviamente, Líbano, e partes da Síria, e até têm uma boa presença na Arábia Saudita. Mas não era apenas que eles estavam sempre envolvidos em atividades terroristas. Eles estavam de fato envolvidos no que chamamos de RICO, <em>racketeering operation</em>… É uma organização criminosa que envolvia várias atividades, como roubo, prostituição, drogas, jogos de azar. E, por algum motivo, eles se estabeleceram na área da tríplice fronteira. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>They settled in the triborder area. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu quis falar com o Bassem por ele ter sido um dos primeiros agentes do FBI a fazer investigações transnacionais de terrorismo. E também porque ele conhece profundamente um dos pontos cruciais da nossa investigação: a ação dos <em>hawalas</em>. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hawala is an arabic word, actually.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hawala </em>é uma palavra árabe, na verdade significa “troca de valor”. E então as <em>Hawalas</em> ganharam destaque e ficaram sob uma lupa das agências de inteligência, não apenas o FBI e a CIA, mas muitas agências de inteligência em todo o mundo, porque essa era a maneira pela qual terroristas em geral, não apenas o Hezbollah, confiavam nas <em>Hawalas</em> para poderem ficar fora do radar dos principais bancos e instituições financeiras. E é especificamente para comércio no contexto mulçulmano.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef] </p>
<p class="wp-block-paragraph">It is specific for muslim type trade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora com clima de suspense</p>
<p class="wp-block-paragraph">Você  já ouviu como o termo <em>hawala</em> e essa tradição se conecta a importantes doleiros associados ao início da Lava Jato, como Habib Chater e Alberto Youssef, ambos de ascendência libanesa. Mas existe também outra coisa que eu queria saber de Bassem, entre os anos de 1996 a 2000, ele foi Legal Attaché – o <em>adido legal,</em> na embaixada em Riade na Arábia Saudita. Mas o que faz um adido legal? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>In fact, the FBI legal Attaché…</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, o adido legal do FBI é o representante do diretor do FBI em solo estrangeiro. Assim, dependendo da área de responsabilidade do adido legal, você é basicamente responsável por todos os assuntos, tanto de inteligência quanto criminais, dentro daquele país. E o importante é que o relacionamento é essencial para obter colaboração com as agências estrangeiras com as quais trabalhamos. E basicamente é uma questão de reciprocidade. Queremos compartilhar inteligência, queremos receber inteligência de vocês… Então, essa é a principal responsabilidade do escritório do adido legal: construir confiança com as outras agências.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">…the level of trust with the other intelligence agencies. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Era justamente isso o que eu queria entender, o que faz um adido legal na prática. E conforme a resposta de Bassem Youssef,  o principal é criar relações de confiança. </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Okay. And it ends up being personal relationships. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Absolutely. Absolutely. Yeah.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, essas relações de confiança facilmente se tornam relações pessoais. Eu tinha mais perguntas, queria saber como funciona a articulação entre o FBI e as outras agências que atuam na embaixada. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>So at an embassy, you have</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em uma embaixada você tem uma mini administração. O embaixador representa o presidente ou a Casa Branca. E então você tem o adido legal representando o diretor do FBI. O da CIA, o diretor da CIA. E o embaixador também é o chefe do Departamento de Estado. E há muitas outras agências. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Perguntei como era a coordenação entre as agências, e se existiam reuniões diárias, ou seja, a CIA sabe o que o FBI está investigando?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Há compartilhamento e cooperação dentro dessas agências. Ah, sim, quero dizer, reuniões diárias, dependendo da necessidade. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">…depending on the need.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima interferência </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Repare que ele sempre fala que coordenar inteligência é um dos atributos do FBI. Isso significa que, embora o FBI não possa realizar investigações em solo estrangeiro, a agência comunica tudo o que possa ser de interesse americano ao seu chefe maior, o próprio presidente dos Estados Unidos. No livro <em>Inimigos</em>, que já citei aqui, fica claro que nessas reuniões entre agências, elas trocam informações de inteligência que podem ter motivações políticas. Por exemplo, o FBI foi utilizado na luta anticomunista durante a Guerra Fria, depois atuou espionando líderes do movimento por direitos civis, como Martin Luther King. A ação do FBI, portanto, serve a interesses políticos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha</p>
<p class="wp-block-paragraph">Bassem Youssef também me contou que desde 2001 há um enorme incentivo para que a CIA e o FBI troquem mais informações. Existe até um programa que leva agentes do FBI para trabalhar no escritório da CIA e vice-versa. Aliás, era lá que ele estava quando aconteceram os atentados de 11 de setembro de 2001. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Bassem Youssef]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando o 11 de setembro aconteceu, eu estava a caminho do escritório. Ouvi sobre o ocorrido no rádio. E… E logo em seguida, dois minutos depois, meu pager começou a tocar, dizendo: “Não venha para o trabalho hoje”. Então, isso foi muito estranho. E eu me lembro, havia vários agentes, colegas meus, que também estavam alocados na CIA, ligavam e diziam que todos receberam ordens de voltar ao FBI. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima de suspense</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele não sabia, mas aí foi o começo do fim de sua carreira no FBI. Ele foi colocado na geladeira, e ficou meses sem ser convocado para uma nova missão. A discriminação era evidente, Bassem Youssef era vítima de boatos que o culpabilizavam por ter realizado bem o seu trabalho. Ele até tentou denunciar o preconceito por meio dos canais internos, não teve sucesso e acabou processando a Agência. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O processo contra o FBI por discriminação e perseguição se arrastou ao longo 12 anos, e, durante esse tempo ele desistiu e se aposentou.  A conversa com Bassem me ajudou a entender um grande problema do FBI: em uma instituição enorme, com quase 40 mil funcionários, o maior instinto é o da autopreservação. Quem tenta reclamar, pode acabar sofrendo represálias. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Foi refrescante ouvir a opinião sincera de alguém relevante para a luta antiterrorismo no FBI.  Para ouvir algum agente que atuou durante a Lava Jato, decidi fazer o mesmo caminho: buscar aqueles que já saíram da agência. Nessa procura escrevi para muitos ex-agentes que tinha mapeado. Depois de algum tempo, comecei a receber respostas. Steve Moore, por exemplo, foi solícito: </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: alerta de leitura de mensagem </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Natalia, Thanks for reaching out. </em>Natalia, obrigada por entrar em contato. Embora eu não tenha interesse em participar da série, conversei com um colega que foi o Chefe Interino da Unidade de Corrupção Internacional na Sede do FBI durante aquele período. As informações de contato dele são George “Ren” McEachern.” </p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu já estive com o Ren durante um congresso em 2019, em um elegante hotel em São Paulo. No evento, ele me deu uma entrevista<em> em off,</em> mas depois não quis falar oficialmente. Ren se aposentou pouco depois de chefiar a área da FCPA, a lei anticorrupção americana, e já deu diversas entrevistas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima leve</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em entrevista à Folha em 2018, ele disse, abre aspas: <em>“Curitiba mandou a mensagem de que o Brasil está ficando limpo. Combater a corrupção pode ser doloroso, mas é mais doloroso quando a corrupção persiste, cresce e nunca acaba. Há muitos exemplos no mundo. Já o Brasil parece agora ter um futuro brilhante pela frente.” </em>Fecha aspas.</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hello Mr. George McEachern, this is Natalia Viana. I’ve reached out via email, but I’m here in the United States.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Efeito sonoro: </em>alerta de mensagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Finalmente consegui uma resposta por e-mail, mas Ren McEachern, queria ver a prova dos 9. Enviei para ele várias reportagens em inglês, incluindo uma sobre a relação do FBI com a Lava Jato, datada de 2019. Segui esperando a resposta. E nada. Então, resolvi investir tempo em outro ex-agente, Patrick Kramer, ex-marine do exército e que chegou a ser do serviço de inteligência durante a Guerra do Golfo. Hoje, ele é investigador privado. Educadamente, Patrick me respondeu por e-mail negando a entrevista.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Alerta de leitura de mensagem </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Good day, Ms. Viana, I appreciate your interest in reaching out to me.</em> Agradeço seu interesse em entrar em contato comigo. Não posso falar com você sobre qualquer trabalho que eu possa ter realizado no assunto em questão.”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não foi o fim da linha. Pois no mesmo dia recebi sinal positivo de um personagem importante em toda essa trama: o advogado Lance Jasper. Hoje ele é sócio de um escritório de advocacia em uma das avenidas mais concorridas de Los Angeles – do outro lado do país. Lição número 234 do jornalismo investigativo: se uma fonte topa falar, você tem que ir até onde ela está.   </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">[Efeito sonoro: ambiência voo] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>It’s my pleasure to welcome you today. We have been assured of personal on-time departure of 1.55 with an estimated arrival time of 4.46 </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: avião decolando </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em Los Angeles – ou “ELAI”, como se fala por aqui – a vibe é totalmente diferente. Nada de salões escondidos por trás de muros altos. Aqui quem tem dinheiro faz questão de mostrar, ostentação é a regra. Los Angeles é uma cidade muito instagramável, corpos sarados e bronzeados caminhando pela orla durante o dia e baladas durante toda a noite.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora eletrônica</p>
<p class="wp-block-paragraph">Isso que vocês acabaram de escutar é o som do quarto do meu hotel em Los Angeles. Cheguei num domingo no fim da tarde, a entrevista com Lance seria na segunda cedinho, mas a festa no <em>rooftop</em> não me deixava dormir nem trabalhar. E olha, tinha que me preparar porque essa entrevista deu trabalho. Ele já tinha sido convidado várias vezes para falar sobre a investigação da Petrobras, mas nunca tinha topado. E como bom advogado, estava preocupado em não falar nada que estivesse fora do <em>script</em>.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Secretária] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hi, how are you? Are you here for Lance?</em> </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Depois de esperar alguns minutos na sala, Lance Jasper finalmente apareceu…</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Lance Jasper]<em> </em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Hello! Hi, nice to meet you in person.</em><em> </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nice to meet you. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Lance Jasper]<em> </em></p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Sorry to make you wait, I was on a phone call.</em><em> </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>Don’t worry. </em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Finalmente  vamos ouvir um investigador americano que de fato atuou nos casos contra empresas brasileiras. A entrevista realizada em inglês foi dublada pelo ator Aury Porto.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Lance Jasper]</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>My name is Lance Jasper.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Meu nome é Lance Jasper, sou advogado em Los Angeles e conduzi a investigação da Petrobras e da Lava Jato para a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Atualmente, sou sócio de um escritório de advocacia internacional chamado Aiken Gump, no grupo de investigações e crimes de colarinho branco, e aconselho empresas sobre compliance e investigações de valores mobiliários, para que elas possam focar em seus negócios.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Lance Jasper]</p>
<p class="wp-block-paragraph">…<em>to focus on their business.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora leve, momento explicação </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Lance deixou a carreira pública e hoje trabalha como advogado, defendendo empresas do mesmo tipo de investigações que ele realizava anteriormente. Ele fez o que fazem muitos investigadores americanos, uma dança de cadeiras que por aqui é conhecida como <em>revolving doors</em> ou porta giratória. Empresas investigadas costumam contratar membros do governo que eram justamente quem as investigava. No seu currículo, ele destaca o caso da  Petrobras. Sem citar o nome da empresa: diz apenas que ajudou o governo americano a garantir uma multa recorde de uma petroleira.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">[material de arquivo]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Petrobras decidiu pagar para não ter que enfrentar a Justiça americana, o acordo para encerrar as investigações custou R$853 milhões de dólares, o que incluindo impostos equivale a R$3,6 bilhões de reais para a empresa. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Lance conseguiu esse caso de sucesso, que deu uma boa guinada na sua vida, quando trabalhava na SEC, a <em>Securities and Exchange Commission</em> que é a agência responsável por fiscalizar e investigar irregularidades relacionadas ao mercado financeiro. A Petrobras vende ações na bolsa de valores de Nova York e é por isso que foi investigada. Sabemos que a Petrobras foi investigada tanto pela SEC como pelo Departamento de Justiça. Então, perguntei a Lance qual era a diferença entre os dois órgãos.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A SEC e o DOJ são diferentes em alguns aspectos importantes. Um deles é que a SEC é uma agência civil, então, se algo deu errado, a SEC vai aplicar multas, ou às vezes vai expulsar alguém do setor, caso tenha feito algo errado, mas essas são sanções civis. O Departamento de Justiça é uma agência criminal. Ele acusa pessoas e empresas de crimes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas as duas agências trabalham com aquela lei, a FCPA, a lei anticorrupção que permite que elas possam se meter a julgar e condenar casos de corrupção mundo afora. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quanto à investigação da Petrobras, e falando apenas do ponto de vista da SEC e do que está disponível no registro público, não foi um caso típico do FCPA, porque não se tratava de alguém subornando um funcionário para conseguir um contrato ou acesso a algo. Era um esquema de apadrinhamento político, onde os benefícios para a Petrobras como empresa eram muito menos claros do que se eles estivessem tentando conseguir um contrato ou algo assim. E você pode ver pelos registros públicos da SEC, que para a SEC não era um caso de FCPA. Assim, a perspectiva da SEC era que não era aceitável vender valores mobiliários para investidores na Bolsa de Nova York e dizer que não havia corrupção com políticos brasileiros, quando havia tantas evidências de que existia.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para realizar essa investigação, o Lance Jasper teve durante muito tempo contato direto com procuradores brasileiros e viajou pelo menos duas vezes ao Brasil. Ele estava presente no interrogatório de Nestor Cerveró, no Rio de Janeiro, em 2016, entrevistado no terceiro episódio dessa série. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu me lembro de que foi uma época muito interessante para estar no Brasil, uma época muito intensa. Fiquei em um hotel no Rio durante uma das minhas viagens, que não era longe de Ipanema. E era bem em frente ao lugar onde estava, havia uma grande tenda olímpica que vendia produtos das Olimpíadas. E eu comprei, eu tenho uma filha mais nova com deficiência, e comprei para ela uma boneca das Paralimpíadas que ela ainda tem, achei muito fofa. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas só me lembro de ser um momento muito sério para estar no Brasil e tentei ser respeitoso quanto a isso. Sabe, eu estava lá com um caso que estava investigando, era um caso grande. Mas havia muito mais acontecendo além disso. E às vezes, eu vou admitir, porque às vezes você olha para trás e é meio, é bobo vir de outro país e você não… </p>
<p class="wp-block-paragraph">Aqui está um exemplo que eu vou dar.  Eu me lembro de correr do hotel até a tenda olímpica porque estava preocupado com os mosquitos. Porque estava com medo do Zika. E só penso que, pensando agora, isso é meio bobo. Esse tipo de coisa, tipo, o americano com medo de mosquitos correndo pela praia, sabe? (risos)</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">De fato, o ano de 2016 foi intenso: tivemos Olímpiadas no Brasil, o impeachment de Dilma Rousseff e o surto do zika vírus. Olhando em retrospecto parecia o prenúncio do que estava por vir nos anos seguintes: pandemia, ameaças de golpe de Estado, Donald Trump de volta à Casa Branca. Como eu queria mais informações sobre as visitas do Lance ao Brasil, tentei quebrar um pouco mais o gelo, pegando o gancho de um comentário sobre o cafezinho brasileiro. </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>You mentioned that there was always strong coffee.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper]  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim. Sim. Meus colegas no Brasil brincavam com o café americano. Eles o chamavam de <em>chafé</em> porque é fraco como chá. Então, tomei alguns cafés muito bons e muito fortes durante as entrevistas no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Claro que minha intenção não era comparar o café brasileiro ao americano, eu queria saber como foram essas entrevistas feitas com os delatores brasileiros.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Não. Posso dizer muito pouco sobre as entrevistas especificamente porque foram confidenciais e não públicas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Os detalhes dos interrogatórios e os termos dos acordos permanecem confidenciais até nos Estados Unidos, por isso Lance não tem permissão para dar detalhes. Mas ele falou sobre como foi colaborar com os procuradores de Curitiba. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Acho que foi muito produtivo. Achei meus colegas da força-tarefa profissionais muito inteligentes e bons no que faziam. E eles eram colaborativos. Entendiam que os Estados Unidos tinham interesse nisso porque a Petrobras vendia muitas ações nos Estados Unidos. Esta é apenas a minha perspectiva, não posso falar por eles, mas acho que entenderam que seria do interesse do Brasil ter uma relação colaborativa, em vez de uma conflitiva. Não era uma situação em que os americanos iam aparecer e dizer a eles o que fazer. E eu conheci alguns deles… jantamos em uma churrascaria em Curitiba e estava delicioso. E eu realmente gostei deles também como pessoas. Achei que eram pessoas agradáveis e inteligentes que estavam tentando tornar o país um lugar melhor.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Agora eu pergunto: enquanto a Petrobras é uma estatal de capital aberto, ou seja, com ações na Bolsa de Valores de NY, a Odebrecht era uma empresa familiar… Então, quais os critérios para que ela fosse investigada nos Estados Unidos? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Acho que esse é um bom ponto. Existe uma grande diferença entre uma empresa que vende um monte de valores mobiliários para investidores americanos e uma que não vende. Neste caso, a Odebrecht não foi uma investigação da SEC por esse motivo. Foi uma investigação do Departamento de Justiça. E posso entender isso, porque a questão é que, cara, há realmente uma conexão muito menor com os Estados Unidos, mas o valor do dinheiro e as penalidades e coisas do tipo ainda são realmente grandes, e o impacto ainda é realmente grande. </p>
<p class="wp-block-paragraph">E, assim, a visão dos Estados Unidos, se tocar nos Estados Unidos, será obrigado a cumprir com as leis dos Estados Unidos. E isso incluirá o FCPA, a lei de práticas de corrupção no exterior, que basicamente diz que você não pode ter uma conexão comercial com os Estados Unidos e subornar funcionários estrangeiros como parte do seu negócio.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que ele tá dizendo é que havia de fato uma razão muito mais concreta para se investigar a Petrobras do que a Odebrecht, já que a empreiteira era uma empresa brasileira, de capital fechado, pagando propina com dinheiro brasileiro para políticos brasileiros… ou seja, os atos de corrupção da Odebrecht não tinham tanto a ver com os americanos, a não ser pelo fato de que algumas das reuniões entre os articuladores do esquema ocorreram aqui. Eu ainda tentei arrancar dele a informação sobre como começou a investigação da SEC, perguntei algumas vezes, de jeitos diferentes. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">O que posso dizer publicamente sobre isso é que a SEC e o Departamento de Justiça tinham cada um uma investigação relacionada à Petrobras. Havia também muitas outras investigações relacionadas à Petrobras envolvendo outras empresas como Odebrecht e Braskem. Trabalhamos em paralelo, e às vezes coordenamos, mas tomamos nossas próprias decisões. Não posso divulgar neste caso quem abriu a investigação primeiro, mas posso dizer que, frequentemente, as agências… As agências abrem suas próprias investigações, mas às vezes o Departamento de Justiça encaminha um caso para a SEC ou a SEC encaminha um caso para o Departamento de Justiça.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Aí poderia existir uma dica importante. Como já ouvimos nos outros episódios, as petroleiras americanas estavam pressionando a embaixada a agir contra a lei do pré-sal, então, não seria impossível que a investigação tivesse surgido de um pedido do Departamento de Estado, de um embaixador, ou até de uma dica anônima… Porque uma coisa é certa: existem muitas empresas corruptas no mundo, então como a SEC decide que empresa vai investigar? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">A maioria dos casos que a SEC abre vem do que chamamos de dicas, reclamações e encaminhamentos. Isso pode ser alguém que reclama que foi vítima de fraude, por exemplo. Outro exemplo pode ser que nós recebemos um encaminhamento da entidade que regula os corretores de ações, e eles dizem que observaram uma atividade de mercado estranha e talvez a gente queira investigar. Mas a SEC também monitora os mercados e as notícias e quando vê algo, decide investigar. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nesse jogo de esconde-esconde, a resposta para minha pergunta principal continuava distante: Os EUA estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração? Lance Jasper já ouviu muitas teorias, e tinha uma visão clara sobre o assunto. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">E, assim como nos Estados Unidos, acho que o Brasil tem teorias da conspiração e desinformação circulando por aí. E eu não posso entrar em todos os detalhes por causa da natureza do meu trabalho, mas posso dizer que isso, o esquema de patronagem política, a corrupção na Petrobras, foi uma coisa muito real que aconteceu. Eu vi os documentos. Conheci pessoas-chave. Quero dizer, eu estive cara a cara com pessoas-chave nisso. Foi algo real. E as evidências descobertas pela força-tarefa e que se tornaram públicas através do juiz Moro e dos depoimentos públicos de pessoas como Paulo Roberto Costa, detalham exatamente como isso aconteceu. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim, sabemos, houve corrupção. Mas o que ele está dizendo puxa um fio do que foi falado no decorrer dessa série: há diferentes tipos de corrupção, entre eles a patronagem, que é um modelo de financiamento de todo um sistema. Para o Lance, isso é diferente de uma propina ou suborno, quando um político recebe uma verba para conseguir uma vantagem ou um contrato específico. Justamente por isso existem várias críticas sobre a aplicação da FCPA contra a Petrobras e Odebrecht, perguntei o que ele achava disso.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu acho que entendo a crítica. Acho que se você sair do caso e pensar, bem, isso é uma empresa brasileira, uma empresa nacional de petróleo brasileira… E você poderia ver a história como se os Estados Unidos tivessem vindo aqui. Eles obtiveram um veredicto de quase 2 bilhões de dólares contra essa empresa. E isso teve consequências reais para as pessoas no Brasil. Pessoas que trabalhavam nessa empresa e que, então, perderam seus empregos. E houve outros efeitos disso. Então, eu entendo a crítica nesse sentido. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, se a pergunta é, bem, por que isso é um problema dos Estados Unidos, acho que alguém da área de aplicação da lei diria, bem, isso se tornou problema dos Estados Unidos quando a Petrobras veio e vendeu 10 bilhões de dólares em valores mobiliários, sem falar sobre o que estava acontecendo com a corrupção política, o impacto que estava tendo nos grandes contratos, nas grandes refinarias, essa seria a perspectiva da SEC.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, não é como se os Estados Unidos tivesse vindo e pegado um monte de dinheiro, certo, pra comprar coisas bacanas com isso. Muito do dinheiro ficou no Brasil e muito foi para investidores que foram prejudicados. E acho que a última coisa que eu diria é que não é bom deixar esses grandes escândalos de corrupção continuarem porque isso prejudica as pessoas a longo prazo. Então, minha explicação para aqueles que não gostam do resultado disso, e eu entendo, é que eu espero que a longo prazo seja melhor para o Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Lance Jasper] </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>I hope in the long run, it is better for Brazil.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: pausa</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas será mesmo que a melhor estratégia de combate à corrupção global é permitir que um país com vários interesses econômicos decida qual, como e quando investigar as empresas estrangeiras? Lance Jasper me confidenciou que tem sentimentos conflitantes sobre isso: </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>But you also mentioned before that you had mixed feelings about the jurisdiction, criminal jurisdiction of the U.S. Can you explain that?</em> </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Dublagem Lance Jasper]  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu tenho, porque acho que isso tende a colocar os Estados Unidos em um papel de polícia mundial. E há pontos positivos e negativos nisso, certo? O ponto positivo é que os Estados Unidos estão em uma posição para combater a corrupção globalmente, a lavagem de dinheiro, o tráfico e algumas dessas questões que você gostaria que alguém enfrentasse. E, para o bem ou para o mal, os Estados Unidos têm sido um dos principais players nisso, devido ao seu tamanho. Mas também acho que há preocupação em respeitar outros países e a harmonia com outros países.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima interferência </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tem uma coisa que não se pode negar: Lance, aparentemente, tem uma carreira de sucesso  depois do caso da Petrobras. Imagine um homem de meia idade, loiro, com olhos azuis e um rosto amigável, vestido perfeitamente com um paletó bem cortado. O escritório dele atende grandes clientes, e tudo reflete esse posicionamento de mercado: desde a roupa da recepcionista até as luzes escondidas nas paredes, os quitutes finos e chás que são oferecidos na sala de reunião. É por isso que, cuidadoso, ele pediu para ouvir tudo o que falou na entrevista, algo não muito comum no jornalismo. E eu expliquei para a Amanda e a Alice o caos que foi esse processo:</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que para mim foi bem interessante nessas conversas, é que eles morrem de preocupação de falar com jornalista estrangeiro, e principalmente de divulgar qualquer informação que possa ser classificada, porque senão eles podem ser perseguidos, processados e presos. Ficou muito claro que eles são muito assim, “não, eu preciso cuidar do interesse americano”, o tempo inteiro.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então o Lance, olha só, eu mandei as perguntas antes. Ele me mandou, a gente teve uma conversa inicial, eu anotei as respostas em bullet points, mandei pra ele e falei, olha, é isso que você falou que você vai me falar. Depois ele revisou e isso me mandou. Aí eu fui lá fiz a entrevista, durou uma hora e vinte depois da entrevista eu dei o contratinho pra ele e falei assim, “ah então, mas eu vou revisar essa entrevista antes de assinar” </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Alice] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele quer ouvir?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele queria ouvir antes de assinar. Aí eu falei, eu não vou embora sem essa assinatura desse homem, senão eu vim até aqui, vim até Los Angeles. Aí ele falou assim, “não, eu posso ouvir agora”. Aí eu falei, “então ouça agora”. Aí eu sentei do outro lado da mesa dele. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Alice] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Vou esperar.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele falou, vai almoçar. Eu falei, não vou almoçar. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele ouviu por uma hora e vinte?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele colocou no rapidinho, demorou uns 50 minutos ele ouvindo daí eu fiquei lá na frente, falei, “não saio daqui pra nada, não vou nem ao banheiro”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ainda bem que você não perdeu nada de relevante, foi só preciosismo mesmo. No final, deu certo, entrevista garantida. Ainda assim, eu continuava tentando falar com alguns dos agentes do FBI. Depois de várias tentativas, eis que recebo uma resposta positiva: </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: Alerta de mensagem </p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>“I could talk about my journey from teaching to the FBI back to teaching”</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Quase caí pra trás, enquanto lia a mensagem de uma agente do FBI topando uma entrevista. Seu nome é June Drake. E como todos os demais, tudo o que eu sabia sobre ela até então se resumia às mensagens da Vaza Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima de interferência</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo os diálogos vazados, o adido-adjunto do FBI, David Williams, buscou informações com June para ajudar a quebrar a criptografia do sistema MyWebDay, que reunia contabilidade de propinas da Odebrecht. Lembrando que toda essa comunicação era feita na informalidade, na base da “intel”, longe dos olhos do governo brasileiro. Além disso, quando os procuradores começaram a olhar os escritórios ligados à empresa Mossack Fonseca — aquela dos Panamá Papers — outras mensagens indicavam que a PF estava fazendo a ponte com o FBI para pedir ajuda para apreender bases de dados sobre a empresa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No meio disso tudo, estava a jovem agente do FBI, June Drake. Em de 31 de agosto de 2016, ela fez uma visita ao MPF de Curitiba para pedir informações sobre a Mossack Fonseca e foi apresentada como “substituta” do Patrick Kramer, aquele, que hoje trabalha como investigador privado. Segundo os diálogos, os agentes do FBI não saíram dessa visita com muita coisa e desta vez, foram encaminhados para a área de cooperação internacional da PGR, como manda o figurino. Resolvi encarar a ponte aérea, mais uma vez em direção à Flórida, agora para uma cidadezinha sonolenta chamada Mount Dora.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: ambiência voo </p>
<p class="wp-block-paragraph">G<em>ood morning and welcome aboard, my name is Julianne, I’m going to be your flight leader on today’s flight and I’m assisted by three other safety presentations of our Airbus 321</em> </p>
<p class="wp-block-paragraph">Cheguei tarde da noite, mas estava tão ansiosa pela entrevista que mal dormi. Mount Dora é um paraíso dos aposentados, com seus habitantes simpáticos e a grama sempre verde, o que explica o constante barulho de cortadores de grama por toda parte.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: cortadores de grama </p>
<p class="wp-block-paragraph">Foi nessa cidadezinha que June conseguiu um emprego depois de trabalhar por mais de dez anos no FBI. Aqui, ela tenta se reinventar: virou professora de escola secundária. De fato, poucos dias antes da minha chegada, reparei uma coisa curiosa: a June trocou a foto do seu perfil no LinkedIn, de uma imagem de óculos escuros dentro de um helicóptero, uma referência aos tempos de FBI, para uma foto mais meiga, em tons pasteis, longos cabelos negros solto e um sorriso doce diante de uma pintura colorida escrita: “be love”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Muito obrigada por falar comigo. Eu vou começar pedindo para você se apresentar.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu sou June Drake, ou Juni Draki no português.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">A nova imagem de June se materializava também ao vivo. Uma mulher de trinta e poucos anos, cabelos negros, olhos azuis, óculos redondos e um vestido branco, uma imagem muito distinta do que os filmes americanos nos fizeram imaginar de uma agente do FBI. Nossa entrevista é em português, idioma que June domina com fluência, apesar de eu ter que relembrar algumas palavrinhas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu sou da Flórida, estudei na Universidade da Flórida. Tenho uma licenciatura em antropologia e um mestrado em ciências forenses.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Enquanto trabalhava no FBI, atuou como Assistente Legal Adjunta no Consulado em São Paulo e na embaixada em Brasília. Fora isso, ela estuda português do Brasil há pelo menos 12 anos. Foi pelo seu background em  antropologia que eu quis perguntar pra ela: o Brasil é um país mais corrupto que os demais?  </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não. Acho que não. A corrupção existe em muitas… em muitas sociedades. Existe no México. É muito forte lá, posso dizer. Mas na América Latina, acho que tem uma ligação com governos militar, regimes militares. E isso aconteceu em muitos países. Eu falei com meus alunos hoje, isso aconteceu em Guatemala, El Salvador, Nicarágua. Está acontecendo agora em Venezuela, Brasil, Argentina. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">A resposta me surpreendeu, principalmente por vir de uma ex-agente do FBI. Mas talvez ela tenha razão. Afinal, se olharmos com cuidado para a história que viemos destrinchando nessa série, fica bem claro que a máquina de propinas da Odebrecht nasceu mesmo lá na época da ditadura, com os primeiros grandes contratos com o governo federal, ou seja, quanto maior a censura contra a imprensa, que suprime séries como essa daqui, mais fácil a corrupção se entranhar no governo e na sociedade. </p>
<p class="wp-block-paragraph">E deixa eu só te fazer uma pergunta que os meus ouvintes vão fazer. Você sabe que o governo americano apoiou a maior parte desses regimes autoritários. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim, existe umas coisas. Eu estudei na Escola das Américas, School of Americas. Sim, eu sei um pouco disso. Não muito. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Não sei dizer se June é uma agente típica do FBI. Além de estarmos sentadas em uma sala de aula com desenhos coloridos na parede, está claro que ela é progressista, quer dizer, democrata, segundo a divisão política estadunidense. Ela decidiu ingressar no FBI movida por uma vontade nobre de lidar com casos de violação de direitos humanos. Mas como ela foi parar no Brasil, investigando casos de corrupção?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tive um mentor com quem trabalhei no meu primeiro escritório, Phoenix, Arizona, ele fez um trabalho com a sua igreja no Brasil. Falava muito bem o português. Se tornou agente especial do FBI. Trabalhei com ele no Phoenix e ele se tornou um adido na Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. E ele falou para mim como já falava espanhol muito bem. E já tinha vontade de aprender o português. “Nossa, você deveria estudar o português” e comecei a estudar o português depois disso. E acabei com a oportunidade de trabalhar no Brasil no ano 2016. Precisamente quando começaram os problemas, as questões das investigações da corrupção internacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando ela falou o nome deste agente, levei um choque. Era um dos agentes que eu estava procurando: David Williams. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, David faleceu há… Inesperadamente… Quando ele terminou seu tempo no Brasil, voltou para Phoenix e saiu a fazer cooper e teve um problema do coração e faleceu.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Jura? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando eu trabalhei no Brasil pela segunda vez, recebi notícias de isso e fiquei muito… muito… Nossa. Sim, muito triste.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">E David Williams não foi o único agente que June mencionou. Logo que cheguei, eu perguntei sobre todos os agentes que eu conhecia por nome. Ela fez um retrato vívido, por exemplo, de Patrick Kramer, um homem militar, assim meio ríspido, seco e disciplinado, exatamente como eu tinha imaginado. Ela também avisou que quem ainda está no FBI jamais concederia uma entrevista. E o que você pode falar sobre o trabalho em si que você fez, o seu dia a dia? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">O trabalho é da corrupção internacional nas nossas embaixadas e consulados, maiormente, é fazer ligações com as agências federais do país. Então, eu encaminhei informações para a Polícia Federal, eu assisti reuniões com a Polícia Federal, assisti reuniões com… Federal Foreign Corrupt Practices Act, FCPA. Parte do trabalho é educar e ensinar o que é o FCPA para os grandes negócios e escritórios do Brasil, para que eles tenham em mente quais são as leis internacionais, as leis dos Estados Unidos, onde eles precisam seguir para evitar ficar no alvo dos Estados Unidos</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, June confirmou o que Bassem Youssef já tinha falado: grande parte do trabalho é desenvolver relações com os polícias, procuradores e autoridades locais. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Por que que é necessário, para que serve esse tipo de trabalho? Digo, com as polícias, né? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Serve para encaminhar, para ser a pessoa que faz a ligação entre o caso nos Estados Unidos e o caso no Brasil para ajudar o trabalho dos Estados Unidos e também fazer conexões com o trabalho que estão fazendo no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">E como é que foi a relação com os policiais brasileiros, os policiais federais? Tinha uma parceria boa? Eles entendem o trabalho do FBI? Eles entendem essa troca? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim, eu acho que o trabalho bilateral do FBI com a Polícia Federal do Brasil é temos uma boa amizade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">É curioso que a relação entre agentes do FBI e policiais federais seja tratada em termos de “amizade”, mesmo que, por vezes, essa cooperação seja marcada por interesses nacionais conflitantes. Além disso, a June falou um pouco mais sobre como o contexto político afetava seu trabalho. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando trabalhei a primeira vez no Brasil, isso foi de agosto até novembro de 2016. Então, isso era administração de Obama. Quando se tornou a combinação de Trump com Bolsonaro, eu achei que íamos ter problemas na presidência do Trump nas questões internacionais. Porque ele é uma pessoa de isolamento. Mas uma coisa interessante a um nível microscópico, eu trabalhei casos do terrorismo naquele momento. Estava no escritório de Miami e fiquei numa equipe de terrorismo internacional com foco na América Latina. E sim, como eles tinham um bromance, conseguimos avançar nos casos do terrorismo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tinha mais abertura da Polícia Federal? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Acho que sim.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Bromance”, né, um romance entre “bros”, entre cavalheiros, é como ela chama a proximidade entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Algo, que como você ouviu nessa série, teve como consequência maior presença oficial do FBI por aqui, mais acordos de compartilhamento de informação e até visitas mal explicadas ao FBI em Washington feitas pelo então ministro Sérgio Moro. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima suspense “intimista”</p>
<p class="wp-block-paragraph">À essa altura você deve estar se perguntando o que levou June a nos dar essa entrevista? Como eu já falei, ela não trabalha mais para o FBI e está em meio a uma transição de carreira. A razão por trás dessa mudança é sério: saúde mental. June teve uma fase difícil e não se sentiu apoiada dentro do FBI. Por isso hoje seu objetivo é ajudar outras pessoas a cuidarem de sua saúde emocional e psicológica. Ela até tem um podcast sobre o tema. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O relato de June me faz lembrar da conversa com Bassem Youssef, que evidencia que a pressão dentro do FBI é enorme e há pouco espaço para quem não segue à risca as expectativas. Mesmo decepcionada com o fim abrupto e prematuro do seu trabalho no FBI, June toma todo o cuidado para não falar sobre sua atuação no Brasil.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Você pode explicar quais são as regras do que você não pode falar, só para a gente deixar claro? Você não pode falar sobre casos? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[June Drake] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Não posso falar sobre os casos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: pausa, silêncio</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Antes dessa entrevista, não sabia o que esperar da conversa com June Drake. Encontrei um ser humano, uma pessoa que viveu apenas uma parte dessa história, e que, talvez, se soubesse de todo o impacto da Lava Jato, nem gostasse do resultado. O que me lembra um pouco o que disse Lance Jasper: para entender como funciona a fera, não adianta pensar no governo americano como se fosse uma coisa monolítica. São milhares de pessoas trabalhando de maneira ora consciente, na maior parte inconsciente, pelo interesse nacional. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima reflexivo </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanto cuidado de June, Lancer Jasper e mesmo Bassem Youssef deixam claro que enquanto nossos agentes da PF e procuradores compartilhavam informações,   davam dicas de como contornar limites legais e tiravam fotos com agentes do FBI, os interesses americanos – para eles – pairam acima de tudo, e acima de todos. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Retornando ao Brasil, para os momentos finais desta investigação recebo uma nova pista de um peso-pesado do jornalismo brasileiro, Rubens Valente. Veterano de muitas coberturas de operações anticorrupção, incluindo a Lava Jato. Ele tem fontes de confiança dentro da PF e algumas cartas guardadas na manga:</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ligação Rubens Valente]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Oi, Natalia. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Oi, Rubens, tudo bem, </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Rubens Valente]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Oi, desculpa a correria aqui, eu tava numa entrevista e cheguei aqui num evento da … </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natalia Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Que evento é esse? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Rubens Valente]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É da Polícia Federal, é da perícia, acabaram me chamando aqui pra vir por coincidência.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha da série </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Como Donald Trump quer interferir nas eleições dos EUA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:57:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é comum que o presidente dos Estados Unidos solicite às principais redes de televisão que suspendam a programação no horário nobre para transmitir uma mensagem do Salão Oval da Casa Branca. Quando isso ocorre, é uma ocasião solene, seja para informar à nação de que o presidente decidiu declarar guerra, seja para tentar tranquilizar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Não é comum que o presidente dos Estados Unidos solicite às principais redes de televisão que suspendam a programação no horário nobre para transmitir uma mensagem do Salão Oval da Casa Branca.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando isso ocorre, é uma ocasião solene, seja para informar à nação de que o presidente decidiu declarar guerra, seja para tentar tranquilizar a população enquanto o país enfrenta uma tragédia nacional. Habitualmente, milhões de pessoas sintonizam para ouvir as palavras tranquilizadoras do chefe do Executivo, que explica uma crise nacional e apresenta uma resposta sensata e ponderada.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Certamente não foi esse o caso na noite de quinta-feira, 16 de julho, quando o presidente Trump falou ao país disparando uma sequência interminável de declarações falsas, acusações infundadas e teorias da conspiração recicladas para justificar sua insistente alegação de que realmente venceu a eleição de 2020 e de que o Estado Profundo (<em>Deep State</em>, em inglês) havia escondido a verdade dele e do país até que ele descobrisse recentemente suas maquinações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em certo nível, seu discurso desconexo da nação foi uma diatribe xenófoba contra a República Popular da China, na qual alegou que o país havia interferido nas eleições de 2020. Ele também desferiu mais um ataque infundado contra imigrantes (entendidos como latinoamericanos), sustentando que dezenas de milhares de não cidadãos haviam votado ilegalmente em eleições recentes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No entanto, seu discurso inflamado parece ter tido outros objetivos. Trump lamentou recentemente que, se os Democratas conquistarem o controle da Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de 3 de novembro, iniciarão uma terceira tentativa de impeachment contra o presidente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Assim, nos últimos meses, Trump pressionou os Republicanos a alterar os limites dos distritos eleitorais para favorecer seu partido em disputas acirradas. Ele apoiou candidatos de extrema-direita contra alguns republicanos críticos de suas políticas nas eleições primárias do Partido Republicano, eliminando a possibilidade de que seus oponentes internos enfrentassem seus rivais democratas em novembro.</p>
<p>		Postagem de Trump em 16 de julho na qual ele escreve: salve nossas eleições</p>
<h2 class="wp-block-heading">Estado de Emergência, ameaça aos correios e agentes do ICE: o plano de Trump para as eleições</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Agora, ele faz de tudo para preparar o terreno para interferir na próxima disputa eleitoral. Observadores políticos temem que ele planeje confiscar urnas eletrônicas em distritos eleitorais contestados, alegando fraude eleitoral, ou declarar um “Estado de Emergência” para manipular os resultados das eleições. Ele ameaçou obrigar o Serviço Postal dos EUA a recusar o envio de cédulas de votação por correio (uma prática comum em muitos estados), a menos que governadores democratas entreguem as listas de eleitores para que o Departamento de Justiça possa, supostamente, excluir pessoas cadastradas ilegalmente para votar.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Além disso, apesar da legislação federal que proíbe tal prática, ele parece disposto a enviar unidades da Guarda Nacional — controladas por estados dominados por republicanos — ou agentes federais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) a distritos onde seus candidatos correm o risco de perder para os democratas, como forma de intimidar os eleitores e impedi-los de irem às urnas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em vez de um discurso ponderado para conquistar a confiança do país em relação às suas alegações de insegurança eleitoral, as falas paranoicas de Trump apenas sugerem que ele pretende fazer tudo o que estiver ao seu alcance para roubar as eleições de novembro. Culpar a China, culpar os imigrantes, culpar os democratas: é um discurso conhecido. Inevitavelmente, Trump culpa os outros por aquilo que ele mesmo pretende fazer.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No entanto, exceto por sua base leal — que, como o seguiria até o precipício —, ninguém acredita em sua mais recente leva de mentiras. Duas das três principais redes de televisão recusaram-se a transmitir o discurso. Canais de TV a cabo exibem trechos, mas passam a maior parte do tempo desmentindo suas declarações incorretas e mentiras deslavadas. Embora a Fox News tenha transmitido o discurso completo de 25 minutos, seus comentaristas — geralmente prontos para apoiar cada palavra proferida pelo presidente — recusaram-se, posteriormente, a confirmar a veracidade de suas alegações. No dia seguinte, não deram cobertura ao discurso. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ao final de sua diatribe, Trump conclamou os republicanos a apoiar o projeto “Lei para Salvar a América” (<em>Save America Act</em>, em inglês), que deveria ter sido chamada de “Lei para Salvar Trump”, pois foi concebida para privar milhões de eleitores de seu direito ao voto — a maioria dos quais democratas ou independentes, inclinados a votar contra os candidatos apoiados pelo presidente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Embora líderes republicanos no Senado tenham alertado Trump repetidamente de que não possuem votos suficientes para transformar o projeto em lei, ele — como um buldogue teimoso agarrado às calças de um carteiro que tenta entregar correspondência — recusa-se a desistir. </p>
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<p>		Trump diz que as eleições dos EUA são apenas para cidadãos americanos, enquanto culpa imigrantes por sua derrota em 2020</p>
<h2 class="wp-block-heading">O presidente está em pânico, e tem motivos para isso</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Há motivos para Trump estar em pânico, disposto a fazer qualquer coisa — legal ou não — para arrancar uma vitória eleitoral dez dias após o segundo turno das eleições brasileiras. Sua taxa de aprovação está em seu nível mais baixo de todos os tempos: 36% dos entrevistados aprovam e 59% desaprovam sua gestão, um percentual semelhante ao da oposição à guerra no Irã. Sua decisão de retomar os ataques ao Irã provocou uma nova alta nos preços dos combustíveis, elevando ainda mais a inflação e minando sua popularidade. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Especialistas em eleições distinguem dois fenômenos que Trump misturou em um só durante seu festival de mentiras de quase meia hora. O primeiro é apontar um esforço de governos estrangeiros hostis aos Estados Unidos para <em>influenciar </em>os resultados eleitorais; o segundo é falar em uma invasão (<em>hacking</em>) de centenas de sistemas eleitorais para <em>alterar</em> votos ou modificar os resultados reais. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Embora existam tentativas documentadas de potências estrangeiras de influenciar o comportamento de voto dos cidadãos americanos por meio da disseminação de notícias falsas e de campanhas de desinformação nas redes sociais, não há absolutamente nenhuma evidência de que um único voto computado nas eleições de 2020, 2022 ou 2024 tenha sido alterado por quem quer que fosse, seja estrangeiro ou nacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, há evidências convincentes de que a Rússia favoreceu Trump nas eleições de 2016 por meio de uma ampla operação destinada a disseminar informações falsas que beneficiariam o atual presidente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O apelo público de Trump para que a Rússia hackeasse documentos do Partido Democrata resultou na divulgação de informações internas do partido, revelando que sua liderança utilizou a estrutura partidária para favorecer Hillary Clinton em detrimento de Bernie Sanders, o que levou à renúncia da deputada Debbie Wasserman Schultz, chefe do Comitê Nacional do Partido Democrata. O Departamento de Justiça também apresentou acusações contra uma operação clandestina sediada em Moscou, envolvida em tentativas de influenciar o resultado da eleição.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No entanto, após a vitória de Trump em 2016, sua administração não encontrou provas de que um único voto tivesse sido transferido de um candidato para outro. Quando Trump perdeu as eleições de 2020, sua campanha sofreu derrotas em 61 recursos judiciais nos quais alegava que os resultados haviam sido manipulados em seu desfavor. Agora, ele afirma que seus inimigos no “Estado Profundo” — supostamente democratas contrários a Trump — ocultaram essas informações dele durante os primeiros quatro anos de seu governo.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="400" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/07/1784656630_790_Como-Donald-Trump-quer-interferir-nas-eleicoes-dos-EUA.jpg?resize=640%2C400&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-259499"  /></p>
<h2 class="wp-block-heading">Mentiras sobre o sistema de votação dos EUA</h2>
<p class="wp-block-paragraph">A interferência estrangeira nas eleições não é novidade nos Estados Unidos. Como documentei no livro <em>Apesar de vocês: a oposição à ditadura militar nos Estados Unidos</em>, que seria relançado este ano pela Editora da UNESP, o governo americano agiu da mesma forma nas eleições para governador no Brasil em 1962, gastando cerca de 5 milhões de dólares (o equivalente a 30 milhões de dólares hoje) para apoiar opositores do governo de João Goulart, com resultados variados. Sem dúvida, diferentes administrações dos EUA fizeram o mesmo ao redor do mundo, por meio da CIA ou de organizações de fachada.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No entanto, Trump insistiu que a República Popular da China “comprou, roubou ou obteve por meio de hackeamento” dados de eleitores de 18 estados, sem explicar o que fariam com essas informações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A imprecisão dessa acusação esconde o fato de que qualquer pessoa — cidadão americano ou não — pode comprar listas de eleitores na maioria dos estados; trata-se de uma prática comum entre candidatos que buscam alcançar o eleitorado por meio de correspondência ou de contato porta a porta. Qualquer um pode obter facilmente nome, endereço, filiação partidária e, em alguns casos, até mesmo saber se a pessoa votou ou não (embora não em quem votou), pois, normalmente, o eleitor comparece à seção eleitoral, apresenta um documento de identidade, assina um registro de eleitores, recebe uma cédula de papel ou vota eletronicamente e, então, vota em uma cabine reservada. Devido à transparência do processo eleitoral, esses registros de eleitores são documentos públicos que qualquer pessoa pode consultar ao dirigir-se ao órgão governamental local responsável pelas eleições. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Após retornar de uma estadia de seis anos no Brasil, entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, eu morei na Califórnia, onde concorri a uma vaga na Câmara dos Representantes pelo Peace and Freedom Party (Partido da Paz e Liberdade), um partido independente de esquerda fundado em meio às agitações políticas do final dos anos 1960. Cheguei a obter 5% dos votos em 1982. No entanto, em um sistema eleitoral dominado por dois partidos e sem representação proporcional, meus resultados foram, na melhor das hipóteses, bastante simbólicos. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ainda assim, minha campanha eleitoral adquiriu dados de eleitores do meu distrito — que abrangia Hollywood — e entrou em contato com eleitores democratas para verificar se estariam dispostos a dar um voto de protesto à Peace and Freedom Party, em apoio ao nosso programa social-democrata. Imagino que os chineses poderiam tentar fazer o mesmo, mas não tenho certeza de quão eficazes seriam seus esforços. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em seu discurso, Trump alegou que mais de 278 mil não cidadãos (leia-se: latinos sem documentação) votaram em eleições recentes, sem apresentar qualquer prova. Organizações respeitadas que monitoram a segurança eleitoral relatam repetidamente que praticamente não há fraudes cometidas por pessoas inelegíveis para votar. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Mais uma vez, minhas próprias experiências na Califórnia confirmam esses estudos rigorosos. Em alguns estados, é necessário obter um número mínimo de assinaturas de membros do seu partido para se tornar elegível como candidato. Como o Peace and Freedom Party era uma organização política minúscula e pouco expressiva, com membros espalhados pelo distrito, era muito mais eficiente ficar na frente de um supermercado, perguntando às pessoas se gostariam de se filiar ao partido e de assinar uma petição de candidatura, já que qualquer eleitor tinha o direito de cadastrar novos membros. Dessa forma, conseguimos obter as assinaturas necessárias. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ocasionalmente, descobríamos que uma pessoa simpática e bem-intencionada, mas que não era cidadã americana e não compreendia bem as regras eleitorais, queria preencher a ficha de inscrição. Ao percebermos isso, cancelávamos a assinatura e rasgávamos o cartão de filiação. Duvido que qualquer uma das pessoas que afiliamos acidentalmente tenha chegado a votar. Se isso aconteceu, foi com um número ínfimo de pessoas, como apontaram especialistas em suas pesquisas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, o que Trump está tramando? É fácil demais concluir que ele está simplesmente perdendo a sanidade mental. Mas a situação é mais nefasta do que isso. Trump tem um medo enorme de perder as eleições de novembro e de que a Câmara dos Representantes — e talvez o Senado — assumam o poder legislativo para iniciar investigações sérias sobre como ele conseguiu realizar transações financeiras questionáveis no valor de 2,2 bilhões de dólares logo no primeiro ano de seu novo mandato. Ele teme que o Congresso force a divulgação de mais documentos relacionados ao caso Epstein. Entra em pânico só de pensar que seus negócios escusos com aliados do Oriente Médio possam vir à tona. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Por isso, ele está preparando sua base de apoio — incluindo as 1,5 mil pessoas que invadiram o Capitólio e que ele posteriormente perdoou, bem como as milícias nacionalistas brancas que lhe são leais — para atuarem como tropas de choque em defesa de quaisquer medidas autoritárias que ele tente implementar para manter o controle do Congresso. Trump detesta a ideia de ser um perdedor e fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar esse destino.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato — “Os fins e os meios”</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-os-fins-e-os-meios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 10:37:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Será que a ideia de que os EUA estão por trás da Lava-Jato é apenas uma narrativa usada para livrar a cara de criminosos? Enquanto Natalia conversa com a autora de um livro de quase 700 páginas sobre uma das empresas investigadas na operação, Amanda volta a Curitiba em busca de antigas fontes da época [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Será que a ideia de que os EUA estão por trás da Lava-Jato é apenas uma narrativa usada para livrar a cara de criminosos? Enquanto Natalia conversa com a autora de um livro de quase 700 páginas sobre uma das empresas investigadas na operação, Amanda volta a Curitiba em busca de antigas fontes da época da Lava-Jato. Um novo documento chega às mãos de Natalia, que decide pegar um avião com destino a Nova York em busca de uma agente do FBI.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ouça agora o episódio 4!</p>
<h3 class="h5 p-0 fst-sans-serif border-0 text-start text-light my-1 hide-on-inactive" style="">Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato</h3>
<p>
								1							</p>
<p><h4 class="h6 mb-0">Episódio 4: Os fins e os meios</h4>
</p>
<h2 class="wp-block-heading">Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra</h2>
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">EPISÓDIO 04: OS FINS E OS MEIOS</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ficou provado que o Moro é parcial? Acho que dá para dizer que o Moro era parcial no caso do Lula. Divulgou grampo que não estava com autorização, delação do Palocci. Acho que configura sim uma parcialidade. Mas existe um problema de competência? Não existe. O Supremo autorizou a prisão em segunda instância. Depois ele desautorizou. Mas a culpa é do juiz de Curitiba? Não. A culpa não é do juiz de Curitiba.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">A culpa é do Supremo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A culpa é do Supremo, que depois desautorizou. Você teve um ministro do Supremo impedindo a posse de um ministro, que era o Lula. Foi nomeado para ser ministro da Casa Civil. Ele impediu a posse do Lula a partir de um áudio que a Lava Jato divulgou, já com o grampo fechado. E o Gilmar Mendes veio e suspendeu a posse do Lula. A culpa é da Lava Jato? Tem várias culpas aí para você distribuir. Agora dizer que isso é uma perseguição a uma pessoa… Os processos históricos são muito complexos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Totalmente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E isso é uma simplificação grosseira e burra. E interesseira. E ideológica.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora de fundo em clima de suspense, num crescente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Essa voz que escutamos é a da jornalista Malu Gaspar, que conhecemos no episódio anterior. Tem muita gente que acredita que a Lava Jato foi uma grande armação contra o presidente Lula, ou contra a Petrobras. Mas isso não significa que não havia corrupção no governo petista. Muitos acreditam que uma possível interferência americana na operação é uma teoria da conspiração que desvia o foco do principal: a corrupção. Será que a ideia de que os EUA estão por trás da Lava Jato é apenas uma narrativa usada para manipular a opinião pública e livrar a cara de criminosos? </p>
<p class="wp-block-paragraph">Vinheta de abertura</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Meu nome é Natalia Viana, jornalista e apresentadora da série “Confidencial: digitais do FBI na Lava Jato”. Ao lado de Alice Maciel e Amanda Audi, vou tentar descobrir como os EUA estabeleceram formas de investigar e punir casos de corrupção fora de seu território e se há outros interesses escondidos por trás da cruzada anticorrupção internacional. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Episódio 04: “Os Fins e os Meios”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da vinheta de abertura:</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu queria entender em detalhes o quão escandalosa era a corrupção investigada durante a Lava Jato, por isso, fui conversar com a Malu Gaspar, que desenvolveu uma pesquisa extremamente rigorosa sobre a empresa Odebrecht, um dos grandes alvos da operação. Para se ter uma ideia do tamanho, no ano de 2015 a receita era de R$58 bilhões de reais, o grupo tinha presença em 26 países, sendo a mais internacional das multinacionais brasileiras, uma líder na América Latina e com presença em crescimento no continente africano. A empresa tinha até mesmo feito a ampliação do aeroporto internacional de Miami.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, foi uma pesquisa de três anos e meio, em que eu trabalhei com todo tipo de documento e fontes, mas eu acho importante contar que ela foi uma pesquisa feita a partir de um momento em que o caso não estava completamente desvendado, mas ele já tinha avançado a ponto de você ter uma grande quantidade de documentos e delações premiadas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Uma longa pesquisa que resultou em um grande livro, literalmente, são 640 páginas, com o título <em>“A Organização”</em>, publicado pela Companhia das Letras.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A história da Odebrecht, contada em seus bastidores mais íntimos, é um exemplo claro de como algumas empresas trabalham para corromper políticos e como alguns políticos recebem propinas de bom grado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quem acredita que a Lava Jato foi criada pelos Estados Unidos costuma negar que havia corrupção. Inclusive, acho que o seu livro, ele descreve muito bem, né? Havia corrupção. Mas, além de tudo, havia corrupção desde sempre, né? Você pode contar um pouquinho a evolução do esquema de corrupção da Odebrecht?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim, eu acho que essa é uma coisa interessante da história da Odebrecht, que é uma empresa que existe há muitas décadas, e por ser empreiteira, a natureza dela, é um tipo de empresa que lida com o governo, que lida com o setor público. Ela precisa do setor público para sobreviver. E é uma empresa que começou no Nordeste, uma empresa baiana que saiu de uma falência e foi se reerguendo aos poucos, e estava num estado periférico. Ela precisou furar um bloqueio que já havia no Brasil de grandes empreiteiras do Sudeste, e, para isso, ela precisou achar meios, um dos quais a corrupção.</p>
<p class="wp-block-paragraph">E é curioso, quando você estuda a história da Odebrecht lá no começo, ela não era aceita em determinados contratos, como, por exemplo, a hidrelétrica de Itaipu, porque ela era muito pequena. Então, ela fura esse bloqueio, ela vai para São Paulo, e ela começa a se especializar naquilo que as outras empreiteiras sempre fizeram, que era pagar propina. Eles entendem que esse mecanismo de pagar propina, ele não é só um mecanismo de pagamento. Você tem que estabelecer relações de confiança, você tem que paparicar o seu cliente, você tem que pagar as contas do cara, você tem que pagar as campanhas, e você tem que conquistar o cliente, que era o que o Norberto Odebrecht estabelecia como método.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E na Odebrecht o valor máximo era: não importa o que você tenha que fazer, a satisfação do cliente é sempre o maior objetivo. E o cliente não é um CNPJ, uma cidade, um estado, o cliente é sempre uma pessoa, ou seja, um prefeito, um deputado, um governador, o político da vez.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">De modo que a Odebrecht, quando chegou no estado da arte, em que ela tinha um mecanismo super complexo, não só de pagamento, mas de manipulação de todos os agentes públicos dos quais ela dependia, ela tinha um organograma paralelo em relação ao do governo. O que eu quero dizer com isso? O presidente da Odebrecht, o dono, lidava com o presidente da República. Você tinha pessoas que lidavam com governadores. Você tinha gente que lidava só com deputados e senadores em Brasília. Então, o Departamento de Operações Estruturadas foi o paroxismo dessa tecnologia empresarial Odebrecht. Era um departamento que foi formado a partir dessa demanda de um esquema super complexo que você precisava saber como que o dinheiro trafegou, onde que ele foi parar.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Por causa desse sistema tão sofisticado, a Odebrecht conseguiu se safar de várias investigações anteriores, mas não da Lava Jato, e nem da investigação americana. O impacto foi brutal, após quatro anos de investigação o grupo perdeu mais de 80% do quadro de funcionários e entrou com pedido de recuperação judicial. É um fato indiscutível: essas investigações só avançaram por causa da cooperação internacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Lava Jato dependeu da colaboração, em especial, da Suíça, que na época estava buscando “limpar” sua reputação de paraíso fiscal.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro</p>
<p class="wp-block-paragraph">E também encarava uma forte pressão do governo dos EUA com a aprovação de uma lei que obrigava todos os americanos com conta no exterior a declarar esses valores – para pagar mais impostos, claro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eles queriam esses impostos, eles são a maior potência do planeta, eles criaram esse <em>Foreign Account Tax Compliance Act</em>, que é, se você é um cidadão americano e tem valores, recursos depositados no exterior, não interessa se em paraíso fiscal ou não, você tem que informar os Estados Unidos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E, para azar da Odebrecht, uma de suas contas estava em nome de um laranja americano. Foi assim que a empresa acabou caindo na mira das autoridades suíças, que foram fundamentais para a evolução das investigações aqui no Brasil, pelos procuradores de Curitiba. Os procuradores suíços também foram grandes parceiros de cooperação internacional durante a Lava Jato.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima de suspense</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ouvimos no episódio anterior que houve uma “cooperação selvagem” entre autoridades brasileiras e estrangeiras e um dos casos mais emblemáticos veio justamente da Suíça. Depois de uma visita na Europa, em novembro de 2014, Deltan Dallagnol trouxe um pendrive com dados bancários de Paulo Roberto Costa, entregue por procuradores suíços. Algo que como já ouvimos contraria as regras de cooperação. Na época, o procurador Vladimir Aras, da PGR, alertou Deltan sobre a possível ilegalidade e o então procurador concluiu: </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro – leitura de mensagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">É natural tomar algumas decisões de risco calculado em grandes investigações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas quando entendemos que a colaboração internacional na Lava Jato nasceu na Suíça e houve um esforço dos procuradores de lá em ajudar os colegas brasileiros, de fato a história da influência americana começa a soar como uma grande conspiração. Porque afinal, a Suíça não tem nenhum interesse em destruir empresas ou políticos brasileiros.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Malu Gaspar]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu acho que os Estados Unidos entram no contexto da Lava Jato dentro desse mesmo oba-oba que houve no Brasil, muito motivado, inclusive, pelo espírito de determinadas pessoas que iam lá e falavam que era uma operação revolucionária, que estavam abalando o Brasil. Havia um amplo apoio popular, porque as pessoas estavam cansadas de corrupção. Era aquele espírito do basta, do chega, do parou, não sei o quê. E os americanos estavam lá com as contingências políticas deles e entraram na dança. Eu vejo assim. Ah, é muito pouco? Talvez. Mas não apareceu nenhuma prova até hoje de que a CIA inoculou um vírus na Lava Jato ou de que o FBI fez pelos brasileiros algumas coisas que eles não pudessem fazer sozinhos. Entendeu?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na autobiografia do procurador geral na época, o Rodrigo Janot, ele conta como eram os bastidores da Lava Jato em Brasília, onde estavam os processos dos investigados que tinham foro privilegiado. Eis um trecho do livro:</p>
<p class="wp-block-paragraph">Alerta de leitura</p>
<p class="wp-block-paragraph">“A vida de investigadores não tem aquele glamour todo que a gente costuma ver nos filmes americanos, em que, quase sempre, o certo vence o errado e os heróis voltam para casa enquanto a cidade dorme tranquila e agradecida”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora em clima de tensão</p>
<p class="wp-block-paragraph">Janot conta que ele e sua equipe trabalhavam uma média de doze a catorze horas por dia, com demandas não poucas vezes, avançando pelos fins de semana e feriados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Numa equipe de 11 pessoas, cuja idade média girava em torno dos 40 anos, houve casos de isquemia, AVC, e cardiopatia grave, entre outros sérios problemas de saúde. Casamentos foram desfeitos. O que ele conta não é muito diferente do que policiais que atuaram na investigação e mesmo assessores de imprensa relatam. A Lava Jato gerou quase um burnout coletivo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha sonora</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não sei se você já ficou obcecado por uma ideia ou um trabalho – bom, eu já fiquei. E era obviamente o caso destes jovens procuradores. Eles queriam limpar o país de vez da corrupção que sempre assolou nossas terras desde o descobrimento. E aí, diante de tanto esforço pode ser que os deslizes na cooperação tenham sido talvez um “mal necessário”, em nome de um bem maior. Será que a relação com os americanos funcionava numa chave “ruim com eles, pior sem eles”? Ou seja: pelo combate à corrupção tão arraigada no nosso sistema, os fins justificam os meios? Alguns podiam pensar assim, mas mesmo dentro do MPF, o uso de métodos informais e outros “atalhos” para cooperar com agentes estrangeiros não era uma unanimidade. Os investigadores brasileiros não formavam um bloco único e homogêneo, existiam divergências. Por isso, desde o comecinho desta série, estamos tentando ouvi-los, mas isso não tem sido uma tarefa fácil. Com a palavra, Amanda Audi:</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tá sendo um exercício de humildade, assim essa apuração, viu? Porque é só <em>ghosting, </em>está difícil. Essa semana, aproveitando que eu vou pro Paraná, né, eu tentei entrar em contato com todo mundo de novo, mais procuradores, mais gente da PF, aquele povo do segundo escalão que eu tinha feito a lista lá, todo mundo. Ninguém respondeu, cara, ninguém, é um absurdo isso, ninguém nem atende, ninguém nada, parece que tá rolando um… Sei lá.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Amanda já morou em Curitiba e cobriu a Lava Jato, por isso ficou responsável por tentar entrar em contato com procuradores e delegados que ainda atuam por lá.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro – material captado na chamada de embarque</p>
<p class="wp-block-paragraph">Olá clientes voo Azul 4557 para Curitiba, por favor organizar fila de embarque no portão número 02.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Amanda e Stela aterrissam em Curitiba para tentar alguma entrevista com ex -integrantes da Força Tarefa que ainda estão trabalhando na capital paranaense. O método é aquele mesmo: bater na porta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gente tá indo lá pra Justiça Federal onde é a 13ª Vara, ainda funciona lá, é onde atuava o Sergio Moro na época da Lava Jato, aí depois foi a Gabriela Hardt, depois o Appio. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em Curitiba, a primeira parada foi a Justiça Federal, onde durante a Lava Jato ficava a concentração de apoiadores da operação, carregando placas e cartazes, às vezes até apareciam imagens do juiz Sergio Moro vestido de Super-Homem, um verdadeiro herói nacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu tô até tirando uma foto aqui porque… muitas lembranças. Esse prédio com essa araucária aí na frente. A gente acabou de chegar aqui na… Na Justiça Federal, no prédio da 13ª Vara Federal de Curitiba. É onde atuava Sergio Moro na época da Lava Jato. A gente tá aqui na frente e estamos vendo a pracinha que fica na frente do prédio. Era aqui que lá atrás, acho que desde 2014 até o final tinha um povo que acampava aqui. É, nessa pracinha. E ficava direto aqui. Às vezes se revezava com outras pessoas e tal. Mas era uma galera que botava barraca aí, estendia umas bandeiras do Brasil. Sempre tinham os ambulantes vendendo bandeira do Brasil, camiseta do Brasil, com a cara do Sergio Moro. Com, sei lá, o Pichuleco, né? Que era aquele Lula vestido de presidiário. E o povo ficava aqui na frente. Porque eles tinham uma pira muito grande de ver o Sergio Moro sair pra almoçar. Quando ele chegava e saía, né? Porque às vezes ele vinha de bicicleta. E ele saía também pra almoçar com marmita. E o povo achava isso maravilhoso. Porque é um juiz muito simples. Apesar de ser juiz federal. Ele é… Gente como a gente e tal. Tinha sempre essa conversa aqui no acampamento. Então ele saía por aqui e não falava com ninguém. O pessoal batia palma pra ele, tentava falar com ele. Ele não falava. Era uma coisa assim… Era a persona dele, né? Ele ficava quietinho.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nessa pracinha, perto de uma grande araucária, símbolo do estado do Paraná, que o futuro político do Brasil ia se construindo. Os jornalistas esperavam junto com os manifestantes, a entrada ou saída de alguma figura importante. Às vezes uma mini coletiva de imprensa acontecia de improviso ali mesmo na frente do prédio. O lugar era sempre muito movimentado, no dia em que o ex-presidente Lula prestou depoimento, por exemplo, a polícia montou uma verdadeira operação de guerra.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas ô, eles fecharam essas ruas tudo ao redor aqui. É… Então ficou completamente vazio, só os jornalistas podiam entrar. Tinha que se cadastrar antes, era uma operação de guerra mesmo. Cheio de policial pra lá e pra cá. E sobrevoando aqui, uns helicópteros. Acho que era da polícia. Enfim, uma puta operação de segurança. Se não me engano, fechou acho que umas duas, três quadras pra lá; duas, três quadras pra cá. Era bem grande, como se fosse a Copa do Mundo, assim, que fechava o perímetro dos estádios. E aqui na frente um monte de atirador. Atirador em cima do prédio da Justiça ali. E a gente aqui esperando por qualquer… Qualquer movimentação, qualquer coisa. Lembro que na hora que veio o carrinho – os carros do Lula, né, com sua segurança, sua equipe foi extremamente rápido. Eles entraram, entraram aqui dentro. Não deu nem pra ver. Não falaram com ninguém.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Hoje, a pracinha antes agitada voltou à tranquilidade habitual curitibana, e a comunicação quase em tempo real entre autoridades e a imprensa agora virou silêncio institucional. Com muita insistência, Amanda e Stela chegaram a ser recebidas pela assessora de imprensa da Justiça Federal e conheceram o prédio por dentro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gente é jornalista. Então, queria ver se seria possível falar com o juiz responsável pela 13º Vara agora, não sei se ele está aqui.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas, mesmo com toda a atenção dispensada pelo pessoal da comunicação, nada de entrevista. A verdade é que muita gente saiu da Vara. Então, partiram para o próximo destino.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gente está aqui na frente do Ministério Público Federal, na Rua Marechal Deodoro, no centro de Curitiba. Esse prédio aqui, na época, como tinha essa força-tarefa que demandava muito esforço, vieram vários procuradores de fora para cá, eles tinham muito material para analisar, muitos papéis, muita coisa. Eles alugaram uma sala nesse prédio da frente, que eu estou vendo aqui agora, que abriu um banco ali, um Itaú? Mas quando a gente vinha falar com os procuradores, essas coisas assim, era nesse outro prédio, que agora eu acho que não tem mais nada com o fim da força-tarefa. Vamos entrar lá e tentar falar com alguém.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu vim falar com a Caroline da comunicação, meu nome é Amanda. Eu tenho o WhatsApp dela aqui. Mandei uma mensagem, vamos ver. Deixa eu te perguntar, você sabe se o Orlando Martello trabalha nesse prédio? E o Januário Paludo? Não conhece ou não trabalha? Não entendi. Diogo Castor? Como que eu posso encontrar ele?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A recepcionista tenta entrar em contato com a assessora de comunicação do MPF em Curitiba, Amanda e Stela sabiam que a assessora estava no prédio, mas ainda assim não tiveram resposta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É que eu falei pra ela que a gente vinha pra cá… Vamos esperar um pouquinho? Ver se ela responde aqui. A gente vai sentar ali, tá?</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: passagem de tempo</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A pessoa responsável pela comunicação do MPF em Curitiba não atendeu de imediato, porque estava em reunião, mas, finalmente, quando respondeu, disse que não podia fazer muito.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É como eu estava te falando, não é nenhuma novidade. Eu estou pedindo isso já faz semanas. É porque eu estou em Curitiba hoje, por isso seria importante falar com qualquer pessoa que seja. É por isso que eu estou pedindo essa celeridade para pelo menos não sair daqui de mãos abanando, até porque eu acho que é do interesse de vocês falar também sobre isso. Não é nenhuma pergunta ruim para o Ministério Público. É bom. É para explicar uma questão que faz parte da operação. Não tem segredo nenhum. Mas, enfim…</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas você pode imaginar qual foi a resposta final, né? Negativa. Ninguém do Ministério Público, ainda atuante em Curitiba, estava disposto a falar sobre o assunto. Mas ainda existe uma última possibilidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Stela Diogo]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Onde estamos? Onde chegamos, né, na verdade?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Chegamos na Polícia Federal de Curitiba, que fica no bairro Santa Cândida. E como é distante, assim, e é um pouco mais tranquilo, de trânsito e tudo mais, aqui ficava o acampamento dos apoiadores do Lula. Eles ficavam nessa ruazinha aqui, na ruazinha ali de baixo. E tinha alguns momentos, assim, todos os dias de manhã eles falavam lá o “bom dia, presidente”. Daí de noite tinha o “boa noite, presidente”, também e tal. Porque ele ficava numa cela aqui, que ficava ali nos fundos, assim, mais ou menos, desse prédio que a gente está vendo da PF aqui. Ele ficou um bom tempo nessa salinha, assim. Então, se o povo gritava muito alto, ele conseguia ouvir (risos).</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Desde a reeleição de Dilma em 2014 o Brasil estava dividido, e durante a Lava Jato a polarização se intensificou ainda mais. Era como se Curitiba fosse um microcosmo do que era o Brasil. Os apoiadores de Moro ficavam na frente do prédio da Justiça Federal, e os apoiadores de Lula se concentravam na pracinha diante da Superintendência da Polícia Federal, onde ele ficou preso por um ano e sete meses.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E daí, do meu lado, quando eu era jornalista aqui… Vinha pra cá toda vez que tinha operação… Operação da… Da Lava Jato com… Principalmente com presos, assim, para ver se falava com advogados. Se tirava… Conseguia tirar alguma foto da pessoa chegando. Mas eu lembro que quando a gente ficava o dia inteiro esperando. E às vezes acontecia, assim, de ficar horas e horas aqui no sol, assim. Na chuva, no frio. A gente andava um monte ali pra baixo. Até encontrar um lugar que vendia um PF pra poder ficar o resto do tempo aqui na PF (risos).</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Se a vida dos investigadores não têm o glamour dos filmes americanos, a das jornalistas muito menos. Durante a Lava Jato, o jeito era fazer plantão na porta da delegacia, embaixo de sol e chuva, agora a dificuldade é conseguir alguma autoridade disposta a dar uma entrevista. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Você sabe me informar, por favor, se o Igor Romário de Paula tá no prédio aqui hoje? A gente é jornalista. Queria ver se ele pode dar uma palavrinha com a gente. É sobre Lava Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima de suspense</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O clima na recepção da Polícia Federal parece bem mais favorável…</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ai seria muito bom se ele atendesse a gente.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Stela Diogo] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Você acha que vai? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tomara. Eu achei que, pelo menos, elas não negaram logo de cara, que eu esperava que fosse acontecer. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Minutos depois, a assessora de imprensa da PF vai até à recepção e avisa que o delegado está em diligência e sugere que Amanda envie outro e-mail, porque eles responderiam por escrito. Mas desde o início dessa investigação, já encaminhamos várias solicitações de informação para a PF sem obter nenhuma resposta. Basicamente, fomos enroladas, mais uma vez. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gente está colecionando <em>ghostings </em>(risos).</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: silêncio</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Após vários vácuos seguidos ficou evidente que existe um freio institucional barrando a relação de autoridades com a imprensa quando o assunto é Lava Jato. Um contraste gritante com o auge da operação, quando procuradores e delegados davam entrevistas a rodo e as informações chegavam facilmente por vias oficiais e extra oficiais aos jornalistas. Eram famosos os vazamentos de informações partindo da própria Lava Jato. Dá pra entender que estamos vivendo uma ressaca pós investigação, mas não vamos conseguir chegar à verdade sem saber como pensam aqueles que foram protagonistas dessa história – os procuradores.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora </p>
<p class="wp-block-paragraph">Enquanto buscamos alguma voz de dentro do MPF, eu continuei pesquisando para entender como os EUA podem processar e multar empresas estrangeiras por atos de corrupção. Um dos especialistas que se debruçou sobre o tema mora bem longe de Curitiba, em Paris. É o cientista político Gaspard Estrada, que escreveu uma longa reportagem no jornal <em>Le Monde</em> sobre as relações internacionais da Lava Jato. Ele é francês, mas fala português fluente com um leve sotaque que você vai perceber durante a nossa entrevista. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Ricardo Terto]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu sou Gaspard Estrada, sou cientista político, especializado na América Latina, trabalho, pesquiso, principalmente, eu faço pesquisa sobre campanhas eleitorais na América Latina, comunicação política. E, como vocês sabem, as campanhas eleitorais na América Latina, há muito tempo, né? Mas desde que apareceu a Operação Lava Jato, foram muito associadas a escândalos de corrupção, caixa 2, não é uma coisa nova, né? Ou seja, esse assunto… E também não é uma exclusividade da América Latina. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E ele conta que não apenas o caixa 2, mas a propina era normalizada na França até recentemente. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Até o ano 2000, quando uma empresa francesa dava propina para um governo particular no exterior, particular, não governo, particular, a empresa podia descontar essa propina dos seus impostos na França, tá? Então, é uma coisa até que era normal, tá? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Isso mesmo, até os anos 2000, propinas pagas por empresas francesas no exterior poderiam ser descontadas no imposto de renda. É óbvio, mas não custa dizer, corrupção não tem nacionalidade. Para entender como a corrupção internacional entrou na agenda geopolítica, chegando até a Lava Jato, Gaspard fez uma cuidadosa pesquisa:</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O objetivo da matéria é explicar como que a gente chegou até 2014. Por isso que a matéria começa em 2003. Porque quando se cria a ENCCLA, que é a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção à Lavagem de Dinheiro, que é quando o modus operandi da operação quer compartilhar de maneira informal, portanto, ilegal, informações entre vários órgãos do governo, que é a Receita, que é a COAF, que é o Ministério Público, todo esse esqueminha aí começa lá em 2003, só que com totalmente outra ideia, né? Não é ir atrás de gente com objetivos políticos, era um objetivo muito positivo, naquele momento que era, de fato, lutar contra a lavagem de dinheiro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora “leve”, momento explicativo</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para que a Lava Jato existisse foi preciso que um conjunto de leis viesse primeiro. O Brasil desde 2003 promoveu mudanças institucionais e legislativas para facilitar a investigação de crime organizado e lavagem de dinheiro. Mas tudo isso também é consequência de um debate maior, porque os EUA passaram a empurrar a agenda anticorrupção globalmente com uma variedade de leis, em especial a FCPA, F<em>oreign Corrupt Practices Act </em>ou FCPA em inglês. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu vou fazer uma pergunta bem básica. O que é <em>FCPA</em>? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Olha, o <em>FCPA</em>, ela é uma lei que foi votada nos anos 70, né, no começo, ela tinha como objetivo punir empresas americanas que fizessem atos de corrupção sobre agentes públicos. O que aconteceu é que nos anos 90, após a queda do Muro de Berlim, há uma nova realidade geopolítica internacional. E aí, basicamente, o que a administração democrata faz é mudar o objetivo da <em>FCPA</em>. Em vez de você realmente punir as empresas americanas por fazer atos de corrupção, aí vira uma arma de política externa. É mais punir as empresas estrangeiras por atos de corrupção que usem qualquer tipo de relacionamento com os Estados Unidos, seja um e-mail da Google, quer dizer que o servidor esteja nos Estados Unidos, que seja usar o dólar como um instrumento de transação, qualquer coisa que esteja vinculada aos Estados Unidos, dá uma jurisdição para os Estados Unidos punir empresas, seja na Indonésia ou no Brasil, onde for, quer dizer isso dá um caráter extraterritorial a uma lei de direito americano.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ou seja: existe uma lei americana que permite que qualquer empresa estrangeira seja investigada nos EUA por atos de corrupção, basta que uma transação seja feita em dólar, ou que parte do dinheiro tenha passado por uma conta americana. Isso permitiu que, na prática, os EUA tenham jurisdição mundial para aplicação dessa lei. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então a ideia da FCPA é que todo mundo esteja em igualdade. Esse é o discurso do Departamento da Justiça, tem discursos de várias autoridades sobre isso, agora eu acho que é um discurso muito, por um lado, que, de fato reconhece que a Justiça está sendo usada para fins de política externa, porque na verdade é um argumento geopolítico que não tem nada a ver com processos judiciais. E por outro lado, é também uma maneira de querer mostrar que o Judiciário, de novo, como que os Estados Unidos têm que pautar o mundo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É claro que nem todos os países aceitaram participar desse esforço anticorrupção, e eventualmente cair nas garras da <em>FCPA</em>, mas no caso brasileiro houve uma convergência de interesses. Vamos lembrar, estávamos vivendo a época pós escândalo do mensalão e, em 2013, manifestações populares começaram a abraçar a pauta contra corrupção. Nesse clima que Dilma aprovou em 2013, a Lei Anticorrupção e também a Lei de Organizações Criminosas, que potencializou a delação premiada que seria central para que a Lava Jato fosse deflagrada com força total menos de um ano depois. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Isso também acho que é uma coisa que às vezes a gente meio que esquece, mas o governo da Dilma de 2011 até 2012, 2013, ela queria fazer uma imagem própria sobre a corrupção. Tinha alguns dispositivos que eram muito perigosos, Não tanto pela ideia de aprimorar a luta contra a corrupção, mas porque o Judiciário brasileiro é influenciável na política. Então, você misturar esse tipo de leis com o Judiciário, com esse funcionamento institucional, isso pode dar problema, né? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para o Gaspard Estrada, isso não significa que o governo americano tenha sentado em uma mesa e decidido ferrar as empresas brasileiras. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Entrevista Gaspard Estrada]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Algumas pessoas que eu entrevistei, mas que pediram para ficar não citar a fonte do governo americano. que me falaram “olha nessa ideia de<em> leveling o playing field</em>”, que essa ideia de equilibrar as regras do jogo para evitar que as empresas americanas não estejam em desvantagem com relação a outras empresas. É por causa de atos de corrupção, é nessa, é a partir disso, desse argumento, que o DOJ, para equilibrar o jogo, usa esse argumento, usa essa arma para, em base a delações, atacar empresas brasileiras, inclusive ameaçá-las de falência. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Houve uma ameaça do DOJ sobre a Odebrecht, que se a Odebrecht não entregasse os nomes, não assinasse a delação premiada, aí a filial americana, ou seja, todas, na verdade, todas as subsidiárias da Odebrecht seriam banidas do sistema americano de pagamentos. Então, seria basicamente levar ela à falência. Portanto, aí é um mecanismo muito claro de pressão e de coação. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Seguindo a lógica de Gaspard Estrada, então todo esse esforço americano teria mesmo dado certo. A Odebrecht, em conjunto com sua subsidiária Braskem, levou a maior multa até hoje via <em>FCPA</em>: 3,5 bilhões de dólares. E a guerra comercial não era assim um segredo, como disse o próprio ex-procurador da República, Rodrigo Janot, em outro trecho de sua biografia:</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: alerta para a leitura</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Obviamente, os americanos não queriam o êxito da Lava Jato porque eram bonzinhos, mas porque tinham interesse em abrir o mercado da América Latina para suas empresas. Para que eles pudessem competir aqui, seria necessário diminuir o nível de corrupção e de cartelização do mercado de obras públicas. Em várias conversas informais com autoridades americanas, eu sempre ouvia a seguinte pergunta: “Por que a Odebrecht pode construir o aeroporto de Miami e a gente não pode construir um aeroporto ou uma estrada no Brasil?” </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: página virando</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, não é mera teoria conspiratória dizer que a Odebrecht seria um alvo interessante dentro dessa lógica de guerra comercial. Para tentar confirmar essas suspeitas e finalmente ter uma voz de dentro do MPF, foi a minha vez de pegar a estrada. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: ambiência de aeroporto</p>
<p class="wp-block-paragraph">Estou entrando em um avião para Brasília para encontrar um procurador que foi fundamental durante a Lava Jato e também apareceu muito nos áudios vazados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da ambiência</p>
<p class="wp-block-paragraph">Como sempre, para tentar “cavar” uma fonte em Brasília, o primeiro passo é tomar um cafezinho…</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ambiência de cafeteria</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Atendente]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Oi, querida, descobri/desculpe ô.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Vou querer essa prensa francesa, pode ser com leite? </p>
<p class="wp-block-paragraph">O primeiro papo rendeu bem, fiquei sabendo de muita coisa interessante sobre a cooperação internacional. Houve, por exemplo, pressão vinda direto da embaixada americana para que a Lava Jato investigasse agentes do governo venezuelano de Hugo Chávez envolvidos em propinas com a Odebrecht. Como o Ministério Público venezuelano é controlado pelo governo autoritário, os gringos queriam que nosso MPF fizesse esse trabalho… </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: interferência </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, minha fonte falou, que na cooperação internacional os interesses geopolíticos se alinham à luta contra a corrupção. Agora, eu posso falar o milagre, mas não o nome do santo. Porque depois de mais de um mês e muitas idas e vindas – chegamos até a marcar uma data, a fonte pediu desculpas, mas decidiu não gravar uma entrevista.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro</p>
<p class="wp-block-paragraph">Voltei para São Paulo frustrada, mas com mais evidências de que por trás da tal lei que permite aos EUA investigar e punir empresas estrangeiras por atos de corrupção podem existir interesses econômicos e políticos. Além do francês Gaspard Estrada, o tema também chamou atenção de muitos acadêmicos aqui no Brasil. Foi assim que me deparei com uma joia, um estudo feito por duas pesquisadoras. Duas Marias, Maria Paula Bertran, professora de Direito da USP, especialista em direito empresarial e Maria Virgínia Mesquita Nasser, acadêmica e advogada atuante na área de infraestrutura.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Virgínia]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E daí escrevemos esse <em>paper</em>, que chegou até você. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Paula] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Acho que a nossa boa mistura veio da capacidade da Virginia ver o que acontecia e do universo fundamentalmente acadêmico de quem eu vinha. E aí formamos uma boa dupla.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que mais me interessou no trabalho dessa dupla é que ele é recheado de dados. Elas analisaram os números, as multas, e quais são as empresas penalizadas desde o início da aplicação da <em>FCPA</em>. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Paula] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em relação ao volume, eu te trago um dado muito interessante do… <em>Corporate Prosecution Registry</em>, dos autores Garrett e Ashley, que mostram como as multas para empresas de países estrangeiros correspondem a cerca de 60% de todos os recursos, ao passo que o número de casos é 15%. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, as multas são muito maiores para empresas estrangeiras. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Paula] </p>
<p class="wp-block-paragraph">Uma outra estatística sugere que essa magnitude é de 7 para 28. Então, enquanto para americana é 7 para estrangeiras é 28. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É uma análise simples, numérica, mas profundamente reveladora. Mas vocês também argumentam uma coisa que eu achei super interessante, que assim, a Petrobras era o exemplo de empresa que entraria na mira da FCPA. Por quê? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Virginia]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Gás e petróleo, setor muito estratégico, grande, tinha acabado de descobrir o pré-sal, em franca expansão, com a possibilidade de desenvolver o setor a jusante e a montante, teve Sete Brasil, a contratação de sondas, todas as grandes construtoras, cada uma estava num consórcio de construção de sonda, trazendo tecnologia de fora, era uma empresa que tava lá crescendo, robustecendo, num país que estava virando uma potência regional, exportando construção pesada para países da África.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo demonstram os dados, essa era a combinação perfeita de fatores, porque as duas empresas brasileiras investigadas e multadas pelos EUA tinham influência regional, ou seja, sua penalização poderia ter impacto para além do Brasil. Agora, elas chamaram atenção para um ponto importante: enquanto por aqui o financiamento de campanha eleitoral por empresas privadas é considerado corrupção, nos EUA não é bem assim. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Maria Virginia]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O FCPA, ele criminaliza a corrupção de funcionários públicos e estrangeiros. Mas, nos Estados Unidos, você tem leis eleitorais específicas que variam, inclusive, de estado para estado, dizendo se você pode ou não pode fazer doações eleitorais, os valores, em que contexto, em que contexto é corrupção e em que contexto não é. E tem uma decisão da Suprema Corte que, inclusive, escancara a possibilidade de doação eleitoral por empresa, que não é uma doação eleitoral, é uma doação para o Comitê de Ação Política. Quando a gente lê as delações e os depoimentos colhidos no âmbito da Operação Lava Jato, tem muita coisa ali que você lê e fala, isso não é nada diferente ou isso é muito igual a uma doação Super <em>PAC</em>.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Entenderam o tamanho da contradição? A FCPA pode penalizar empresas estrangeiras por fazerem aquilo que no próprio Estados Unidos é considerado legal. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: pausa</p>
<p class="wp-block-paragraph">Depois de todo esse juridiquês deu pra entender um pouco mais os interesses em jogo. Também ouvimos no episódio anterior como os procuradores brasileiros admitiam nas mensagens obtidas pela Vaza Jato que ameaçar delatores com “investigações em curso nos Estados Unidos” poderia ser uma estratégia de pressão. Além disso, a simultaneidade da investigação no Brasil e nos Estados Unidos, reforçava a importância da Lava Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora clima de suspense</p>
<p class="wp-block-paragraph">O medo de retaliações dentro do MPF, onde muitos procuradores e procuradoras estão sendo investigados por condutas consideradas abusivas durante a Lava Jato, é grande. Quando desistiu de dar entrevista, a fonte com quem conversei em Brasília me falou que: “quem bota a cabeça pra fora da areia, a cabeça vira prego”. Pois é, muita gente está com medo de virar prego. Mas isso nunca foi impedimento para o jornalismo investigativo: sempre tem alguém disposto a falar. Finalmente, depois de viajar mais de 400 quilômetros até o Sul do país, Amanda encontrou essa pessoa aqui do lado:</p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: transição </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então a gente está na sala da doutora Janice Ascari, aqui no Ministério Público Federal, em São Paulo, é no 14º andar, sala 143?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">143. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Apesar de estar num andar alto, ainda tem o barulho da rua aqui em São Paulo, não tem jeito, né? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não tem jeito. Agora há pouco estavam vendendo pamonha aí. [25:29] </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Chega até aqui.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É, chega aqui, eu ouvi.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Janice Ascari é procuradora do Ministério Público Federal e chegou a coordenar a Força Tarefa da Lava Jato em São Paulo. Antes disso, foi assessora do então procurador geral da República, Rodrigo Janot. A viagem de Amanda a Curitiba e nossas frustradas tentativas de conversar com procuradores demonstram que hoje o clima é de cautela.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Não, é porque foi o seguinte. Os que eram mesmo da Força-Tarefa de Curitiba, o rebote foi tanto, foi tanto, que eles preferem não passar por isso. Entendeu? Os procuradores da equipe. Porque foi assim um rebote muito grande, assim, para todos, para todos. E nós não podemos ter esse receio de trabalhar. Nós temos que fazer o nosso trabalho. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora momento “explicação”</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Dez anos depois do início da Lava Jato, a operação é alvo de uma série de procedimentos investigativos internos. O ex-juiz Sergio Moro, hoje senador, responde a inquérito autorizado pelo STF sobre a condução de delações. O Conselho Nacional do Ministério Público e o Conselho Nacional de Justiça também investigam outros envolvidos por faltas disciplinares ou interferência na condução do processo. Dallagnol, ex-chefe da Força Tarefa de Curitiba, teve seu mandato de deputado federal cassado pelo TSE por responder a 15 processos disciplinares. O ex procurador fala que o momento é de vingança.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[arquivo – Deltan Dallagnol no <em>Roda Viva</em>]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O sistema quer vingança, o sistema no Brasil ele não se contentou com impunidade. Você teve um imenso caso de corrupção, atores que investigaram e aplicaram a lei e o que esse sistema fez em seguida? Os atores da lei, os donos da lei, porque no Brasil nós temos donos do poder, o que eles fizeram? Eles mudaram a lei e as regras do jogo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Voltando à entrevista, a Amanda foi direto ao ponto: o que a Janice sabe sobre a cooperação com os americanos?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Entrevista. Janice Ascari [07:00] (…) Na questão dos Estados Unidos aqui. Eu sei que é uma coisa meio grandiosa. É que eu não tenho informação. Realmente, [07:16] eu sei que houve uma cooperação internacional, mas com a participação da própria Procuradoria-Geral da República, que nós temos uma Secretaria de Cooperação Internacional, [07:28] e com o DRCI, que é o Departamento de Recuperação de Ativos do Ministério da Justiça. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, eu sei que houve várias cooperações e tal, mas, assim, dessa época da Lava Jato, eu– nós aqui na Lava Jato usamos a cooperação internacional, mas agora no finalzinho, no caso do José Serra. E solicitamos as informações, as informações vieram, tudo certo, tudo ok, né? E é a parte que eu acompanhei de perto. Mas essa parte deles com os Estados Unidos, inclusive com outros países, aí eu realmente não tenho informação segura para dar porque não participei disso.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O fato é que os casos que passaram por Janice não exigiram tanta troca entre países, mas como uma procuradora experiente ela talvez tenha algo a dizer sobre um possível envolvimento de agências americanas no embrião da Operação Lava Jato. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gente pegou uma linha ali que a gente está tentando investigar e tal, que é assim, o Youssef e os outros doleiros, a Nelma também, a Chater, enfim, eles operavam também numa região meio de fronteira. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na Tríplice Fronteira. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E que talvez por isso, agentes dos Estados Unidos, do FBI, da CIA, talvez tinham conhecimento dessas operações e por isso estavam colaborando ativamente com os procuradores aqui. Queria ver se a senhora ouviu falar sobre isso, se enfim, tem algo nesse sentido. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Olha, agentes de inteligência tem em qualquer lugar. Tem em qualquer lugar. E essa mesma cooperação internacional que é interesse de vocês jornalistas, do Ministério Público Federal com seus congêneres nos Estados Unidos, em outros países, tem na polícia também. Então a polícia tem uma rede de informações e de uma maneira muito mais– menos burocrática do que a nossa. Porque a nossa, nós precisamos abrir um processo, o processo é numerado, a gente tem que fazer referência. Não, a polícia passa a mão no telefone e liga para o delegado do outro país e eles passam informações de inteligência. Então, quer dizer, isso não é novidade. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que ela explicou é que policiais compartilham e recebem informações de policiais de outros países, incluindo os Estados Unidos, e também de países vizinhos, como Argentina e Paraguai, nossa conhecida “intel”, lembra? Mas essa troca banal de informações pode em certa medida influenciar e direcionar as investigações que ocorrem aqui no Brasil? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E é bom que isso fique claro, não teria o poder, e isso eu falo, assim, com o meu, vamos usar uma expressão da moda, do meu lugar de fala de 32 anos de Ministério Público, jamais o nosso trabalho seria pautado por uma agência internacional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Boa, pode explicar um pouquinho melhor por quê?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nós vamos utilizar a informação de acordo com a nossa independência funcional que é garantida pela Constituição Federal. Então, por isso que eu falo que não teria, assim, esse poder coercitivo que muitas vezes a imprensa acha que essas agências têm.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Janice fala com uma grande convicção e com a experiência de quem trabalha há 3 décadas no Ministério Público. Será possível que toda essa história de “manipulação”, de que os agentes americanos estavam por trás da Lava Jato, seja mesmo só teoria da conspiração?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">E se não for coercitivo, mas, por exemplo, os agentes ficam sabendo de algo que está acontecendo ali e eles, sei lá, informam isso para vocês. Isso pode acontecer? </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Isso acontece todos os dias, então eles informam, na verdade, não para o Ministério Público, eles informam na verdade em primeiro plano para a polícia e a polícia nos informa. Porque eles estão em contato com os órgãos policiais. E aí eu vou compartilhar com a equipe de investigação que pode envolver a Polícia Federal ou não. A realidade aqui, o cotidiano, é esse. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Então, nesse caso, se isso tivesse acontecido, que a gente, enfim, não tem certeza, mas se por acaso agentes de fora viram uma atividade ilegal na fronteira, que estava acontecendo com agentes brasileiros, com esses doleiros, enfim, eles poderiam ter avisado a polícia, no caso, sobre isso, e daí se iniciaria uma investigação a partir desse toque, sei lá, entre aspas, dessa dica que eles deram. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Janice Ascari]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sim, eventualmente sim. Eventualmente sim. Porque, normalmente, o que acontece? Essas informações chegam para a polícia e a polícia instala um inquérito. E o inquérito tem que, necessariamente, passar pelo Ministério Público. Tanto federal quanto estadual, cada um na sua esfera. E, assim, o arroz com feijão nosso é esse.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Estamos cada vez mais entendendo o arroz com feijão dos procuradores e policiais, mas ainda assim estamos longe de ter alguma evidência de que os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato. Por isso apelamos para um recurso muito utilizado por jornalistas, a Lei de Acesso à Informação, a LAI. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora momento “explicação”</p>
<p class="wp-block-paragraph">A LAI garante que você ou qualquer cidadão possa solicitar informações públicas de órgãos governamentais. O objetivo é promover a transparência e o controle social das atividades exercidas pelo governo com dinheiro público. As únicas coisas que não podemos perguntar são informações sigilosas, que envolvam a segurança nacional ou dados pessoais. Para você entender melhor, o pedido de informação é feito no site de cada órgão público, em um formulário, onde escrevemos nossa pergunta sobre o que queremos saber. Não é nada complicado. Mas quanto mais específico, melhor. Por exemplo: com as datas das visitas de delegações americanas em mãos, pedimos para o Ministério da Justiça e o MPF todos os registros de reuniões entre americanos e autoridades brasileiras… Além disso, fizemos uma batelada de pedidos, mais de 50 para diferentes órgãos públicos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fim da trilha </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu fiz 15 pedidos de informação, nenhum deles teve uma resposta satisfatória. Eu fiz para o MPF e para PF, focando nos dados de viagens ao exterior e de agentes de fora para cá, em reuniões, encontros, qualquer tipo de encontro que houve entre esses agentes públicos daqui com os de fora. A resposta de todos eles é muito parecida, na verdade. O MPF diz que não tem um sistema que centralize informações, então depende de cada agente passar essa informação. </p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">É direito de todo cidadão ter acesso à informação, mas isso não significa que eles vão te responder. Às vezes nem o órgão público tem a resposta, outras vezes eles te enrolam mesmo. A Amanda disparou pedidos de informação sobre viagens oficiais aos EUA de procuradores cujos nomes ficaram famosos na época, como Dallagnol, Paulo Galvão, Marcelo Miller, Orlando Martello. Para nossa surpresa alguém respondeu. Agora, você conseguiu uma resposta do Orlando Martello via LAI?</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Amanda Audi]</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que é bem curioso, né? Eles falaram que não têm essa obrigação de responder, mas ele quis responder. E daí a resposta que eu tive foi essa aqui.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora “leve”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Este membro não manteve qualquer registro ou informações das viagens oficiais realizadas, de modo que a interessada deve eventualmente dirigir-se à administração do MPF para obtê-la. A título de colaboração, no entanto, esclarece-se que esse signatário, talvez no ano de 2016, sem certeza, entre parênteses, para reunião apenas com procuradores do Departamento de Justiça americano, não tendo tido contato com qualquer agente do FBI ou da CIA. Esclarece-se ainda que este membro não conhece, nunca manteve contato ou tratativa de qualquer natureza, formal ou informal, com qualquer membro de inteligência de país estrangeiro, mas apenas com procuradores e policiais federais em razão dos pedidos de cooperação executados na forma da legislação. Essa foi a resposta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">[Natália Viana]</p>
<p class="wp-block-paragraph">Se Orlando Martello não se relacionou com ninguém do FBI, o fato é que agentes vieram para o Brasil, e mais vezes do que a gente imaginava. E eu descobri isso a partir de mais um documento inédito que chegou às minhas mãos através de uma fonte. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Efeito sonoro: alerta recebimento de mensagem</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eu recebi de uma fonte uma lista bem extensiva proveniente da Embaixada brasileira em Washington de todos os vistos que foram dados para americanos que vieram para o Brasil a pedido do governo americano. Então, ali tem os nomes de 2015 a 2017. Então, ali tem os nomes de agentes da FBI, tem nomes de gente da CIA, têm nomes de procuradores que vieram para fazer investigação, tem nomes de procuradores que vieram em Curitiba, tem nome de agente da DEA, tem nome de gente que veio fazer reunião com militar. É um monte de coisa, é uma emaranhada enorme. Mas o mais interessante é que tem algumas coisas novas ali. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A primeira coisa é que tem nomes de procuradores além daqueles que saíram na reportagem. Então, na nossa reportagem a gente disse que vieram 17 procuradores, mas tem pelo menos mais dois que vieram e que a descrição do pedido de visto deles é que iriam para Curitiba naquela mesma época, em 2015. Então, na verdade, já temos nomes novos de gente que participou dessa operação em Curitiba. Além disso, tem uma entrada da nossa querida… Tem uma entrada da Leslie Backschies, né? Da agente do FBI em 2017, em julho de 2017. E aí ela vem, e ela vem para a embaixada americana em Brasília e depois, numa época bem específica, e junto com ela vêm vários outros agentes do FBI. Para uma… Para uma reunião me parece muito específica, só que como a Leslie, esse tempo todo ela trabalhou na Lava Jato, eu acredito que essa reunião aí, em julho de 2017, deve ter sido também para coordenar ações da Lava Jato.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trilha sonora com bipes</p>
<p class="wp-block-paragraph">Leslie Backschies. Ela foi fundamental na condução das investigações das empresas brasileiras e saiu do caso com a moral lá em cima. Como eu sei disso? Um repórter da Pública flagrou o ex-chefe dela em um evento lá em Nova York, em 2018, dizendo que ela fez “um trabalho tremendo” e “crítico para o FBI”. Mas eu descobri que ela vinha ao Brasil pelo menos desde 2012… além de ter sido parte daquela comitiva com 17 americanos que visitou Curitiba. O novo documento que chegou às minhas mãos revela que Leslie veio ao Brasil também em 2016, numa viagem até agora nunca relatada pela imprensa. O que ela fazia aqui? Só existe uma maneira de encontrar essa resposta…</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ambiência aeroporto + chamada para voo com destino a Nova York</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
<p>The post <a href="https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-os-fins-e-os-meios/">Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato — “Os fins e os meios”</a> appeared first on <a href="https://cliquenoticiasbrasil.com.br">Clique Notícias Brasil</a>.</p>
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		<title>Discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA foi só pra bolsonarista ver</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/discurso-de-flavio-bolsonaro-nos-eua-foi-so-pra-bolsonarista-ver/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jul 2026 16:04:05 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph"><em>Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, </em><em>inscreva-se aqui</em><em>.</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Se você quer ouvir um depoimento independente de uma pessoa bem informada em relação às audiências sobre o tarifaço nos Estados Unidos, sugiro que veja a entrevista do canal Meio com o economista e professor da FGV, Gustavo Pessoa, que participou das audiências públicas no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Pessoa estuda risco sistêmico e sua exposição na audiência foi sobre o pix, como <em>case</em> de sucesso e infraestrutura vital para o sistema financeiro brasileiro, concentrando 60% das transações bancárias no país.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O economista falou no primeiro dia de audiências para uma mesa diretora composta por representantes do USTR, do Departamento da Agricultura, do Departamento Comercial, do Departamento de Estado e do Tesouro, composição que variava de acordo com o tema discutido em blocos. Segundo ele, todas as audiências a que assistiu foram eminentemente técnicas, com exceção daquela em que Flávio Bolsonaro compareceu na companhia do irmão Eduardo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Ali você percebia um tom mais político, os assessores [do Flávio] não paravam de filmar e tirar fotos, tanto que eles foram repreendidos pelo presidente da sessão, porque isso é estritamente proibido ali. E o discurso dele foi político, colocando a culpa no Lula, falando que o filho do Lula estava envolvido no escândalo do INSS, falando que o Pix foi implementado no governo Bolsonaro. Então, com exceção do discurso do Flávio, tudo estava seguindo de uma forma bem técnica”, relatou o economista ao Meio.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Pelo relato do economista fica evidente que Flávio Bolsonaro estava fazendo pedidos eleitorais ao foro errado e se expressando de maneira confusa – a única pergunta que lhe foi dirigida foi feita pelo representante do USTR, que, segundo o professor, teve dificuldade de entender o discurso de Flávio e pediu que ele falasse um pouco mais sobre como o tarifaço estava favorecendo o governo Lula. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“A resposta dele foi difícil de entender, ele foi pego de surpresa ali, não teve tempo de se preparar, então o inglês dele dava umas certas travadas, mas ele quis dizer que esse governo de esquerda estava entregando o Brasil à China por isso pedia uma oportunidade para que as tarifas não fossem aplicadas, senão o Lula iria ganhar e empurrar o Brasil para a China”, contou Pessoa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O curioso é que antes da viagem de Flávio, ele teria sido aconselhado a não repetir o tom eleitoral que havia dado à carta enviada anteriormente ao USTR, para furar a bolha junto aos eleitores indecisos, que seriam suscetíveis ao argumento de que ele estava defendendo o país e não os seus próprios interesses como candidato. Uma reação tardia ao efeito causado pelo último tarifaço, que beneficiou o presidente Lula, exatamente por sua postura em defesa da soberania nacional e dos canais diplomáticos para negociações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Flávio passou vergonha tropeçando na língua e se dirigindo a pessoas erradas sem sequer cumprir a missão de trazer bom material publicitário. Se alguns setores empresariais brasileiros podem ter se beneficiado do apoio de pares americanos que serão impactados com as tarifas sobre produtos que compram do Brasil como foi exposto em algumas audiências técnicas, tudo indica que a fala de Flávio terá zero resultado prático, apenas reforçando sua imagem de submissão aos Estados Unidos, com um pedido quase explícito de interferência nas eleições brasileiras.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quanto ao tarifaço, como todos sabem, depende exclusivamente da vontade de Donald Trump – a própria abertura da investigação sobre o Brasil pelo USTR foi política – no momento bastante ocupado em nova ofensiva contra o Irã.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trump é um aliado ainda mais volúvel do que o amor de Flávio pelo Brasil. Uma coisa é se gabar de ter convencido Trump de qualificar as facções brasileiras como terroristas, um pedido que só ajuda o presidente dos Estados Unidos a fazer o que pretendia. Outra coisa são decisões sobre o tarifaço, praticamente o único expediente, além da guerra, utilizado por Trump nas relações com o resto do mundo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O governo brasileiro acertou em não participar dessa farsa, mantendo-se firme nas negociações oficiais e diplomáticas com os Estados Unidos. Aliás, Flávio poderia aprender outra coisa com o Lula, a falar português em eventos internacionais, ou levar um tradutor – não tem nada mais humilhante do que fingir falar um idioma publicamente por pura subserviência.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Na guerra tarifária, Trump apela até para desmatamento</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/na-guerra-tarifaria-trump-apela-ate-para-desmatamento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 11:14:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>EP 68 Na guerra tarifária, Trump apela até para desmatamento 9 de julho de 2026 · Flávio Bolsonaro, Donald Trump e a preocupação com as florestas brasileiras Depois de enviar uma carta ao governo americano pedindo o adiamento da decisão sobre tarifas para depois das eleições, nesta semana Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos para [&#8230;]</p>
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<h2 class="h4 fw-bold">
									EP 68<br />
											Na guerra tarifária, Trump apela até para desmatamento							</h2>
<p class="podcast-summary">
<p>					9 de julho de 2026<br />
					·</p>
<p>				Flávio Bolsonaro, Donald Trump e a preocupação com as florestas brasileiras</p>
<p class="wp-block-paragraph">Depois de enviar uma carta ao governo americano pedindo o adiamento da decisão sobre tarifas para depois das eleições, nesta semana Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos para insistir que o tarifaço pode beneficiar seu adversário nas eleições, o presidente Lula. Na carta enviada ao Escritório Comercial dos Estados Unidos, no entanto, Flávio se alinha a Trump em um aspecto, no mínimo, surpreendente: a preocupação com o desmatamento ilegal no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Entre outros pontos, o relatório do Escritório Comercial dos Estados Unidos alega que o desmatamento ilegal beneficiaria o agro brasileiro, permitindo uma produção mais barata. O argumento é contestado pelo governo Lula e pelo setor, e causa espanto a preocupação do governo Trump, conhecido pelo desmonte de políticas ambientais e climáticas, com as florestas brasileiras.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O Bom dia, fim do mundo da semana, destrincha o relatório do Escritório Comercial e a carta enviada por Flávio, que em alguns trechos parecem ainda mais insólitos do que o roteiro de “Dark Horse”. Ouça agora.</p>
<p class="wp-block-paragraph">E MAIS:</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na Trombeta constatamos que, de onde nada se espera, é de onde nada vem.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>planos na Europa passam por teste radical</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/planos-na-europa-passam-por-teste-radical/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 07:05:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A França se prepara para ondas de calor impulsionadas pelas mudanças climáticas há mais de duas décadas. Em 2003, mais de 14.800 pessoas morreram quando as temperaturas ficaram acima de 35 graus durante duas semanas no verão. As mortes levaram formuladores de políticas públicas franceses a criar um dos programas de resiliência ao calor mais [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">A França se prepara para ondas de calor impulsionadas pelas mudanças climáticas há mais de duas décadas. Em 2003, mais de 14.800 pessoas morreram quando as temperaturas ficaram acima de 35 graus durante duas semanas no verão. As mortes levaram formuladores de políticas públicas franceses a criar um dos programas de resiliência ao calor mais abrangentes do mundo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No ano seguinte, o governo francês apresentou um plano nacional de calor que incluía um sistema de alerta de quatro níveis. Quando as temperaturas sobem e atingem o nível máximo da escala, as autoridades estabelecem um centro de crise para coordenar uma resposta nacional. Autoridades locais são obrigadas a implementar seus planos de calor, que incluem acesso a espaços refrigerados e à água, além de monitoramento de moradores mais vulneráveis ao calor. As agências meteorológica e de saúde da França acompanham conjuntamente as previsões do tempo e os riscos à saúde, alertando os moradores quando surgem condições perigosas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nos anos seguintes, a França adotou medidas adicionais para se adaptar a verões mais quentes: cidades plantaram árvores para reduzir o efeito de ilha de calor, construíram passagens e ciclovias sombreadas e transformaram espaços públicos em centros de resfriamento que podem ser usados por moradores sem ar-condicionado nos dias mais quentes (apenas cerca de 25% das residências francesas possuem ar-condicionado). Em Paris, formuladores de políticas públicas fizeram simulações, ensaiando um futuro com temperaturas de 50 graus.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Essas estratégias agora estão sendo submetidas a um de seus maiores testes. No final de junho, cidades em toda a Europa registraram temperaturas extremas e muitas quebraram recordes históricos de calor. Mais de doze países, incluindo a França, emitiram alertas de calor na penúltima semana de junho, orientando a população a permanecer em ambientes fechados nas horas mais quentes do dia, manter as casas frescas fechando persianas e cortinas e evitar atividades físicas intensas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Foi a segunda onda de calor no continente em apenas dois meses. Ambas começaram antes mesmo do início oficial do verão. Em Paris, as temperaturas ultrapassaram os 39 graus, e a média de temperatura em toda a França atingiu, na última semana de junho, o nível mais alto já registrado.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Mais de 40 pessoas que buscavam alívio das altas temperaturas morreram afogadas enquanto nadavam na França, muitas delas adolescentes. Autoridades espanholas também alertaram para mortes relacionadas ao calor: uma agência local de monitoramento estimou que mais de 200 mortes na penúltima semana de junho possam ser atribuídas às altas temperaturas. Idosos, crianças e pessoas em situação de rua estão entre as populações mais vulneráveis.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Pesquisadores descobriram que, à medida que as mudanças climáticas impulsionam o aquecimento global, as cidades terão de lidar cada vez mais com verões mais longos e temperaturas mais elevadas. A Europa, o continente que mais aquece no mundo, está em muitos aspectos na linha de frente desse desafio. Durante grande parte de 2024, as temperaturas ficaram 1,5 grau acima das médias pré-industriais. Mantida a trajetória atual, as temperaturas na Europa podem aumentar 3,1 graus até o fim do século.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“As cidades em todo o mundo, mesmo aquelas que fazem o melhor que podem, ainda estão se preparando para o calor de hoje”, afirmou Ladd Keith, professor de Planejamento e diretor da Iniciativa de Resiliência ao Calor da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos (EUA). “Elas não estão fazendo um trabalho realmente eficaz de se planejar de forma agressiva para o calor que vamos enfrentar amanhã.”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Durante anos, o calor extremo recebeu muito menos atenção e recursos do que desastres como furacões e incêndios florestais. Mas, à medida que as ondas de calor se tornaram mais intensas — com consequências cada vez mais mortais —, formuladores de políticas públicas passaram a tratá-las com maior urgência. As primeiras gerações de planos de calor focavam principalmente na proteção da saúde pública e na resposta emergencial. Já os planos mais recentes adotaram uma abordagem mais ampla, incluindo iniciativas de arborização urbana e redução do calor residual gerado por veículos e aparelhos de ar-condicionado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As cidades tendem a ser entre 3 e 5,5 graus mais quentes do que as áreas ao redor, tanto por causa do calor produzido por carros e indústrias pesadas, quanto pelo calor retido pelo asfalto e outros materiais sintéticos. Os centros urbanos vêm enfrentando esse fenômeno, conhecido como ilhas de calor, com o plantio de árvores, criação de parques e de outros investimentos em infraestrutura verde. Esses esforços exigem que diferentes setores do pode público, como incluindo urbanistas, autoridades de saúde e equipes de resposta a desastres, trabalhem em conjunto.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Algumas cidades chegaram até mesmo a contratar os chamados “chefes de calor” (“chief heat officers”) para assumir a responsabilidade pela gestão do problema, ou então atribuíram explicitamente às suas equipes de resiliência climática a tarefa de liderar os esforços de adaptação. Em 2021, o condado de Miami-Dade, na Flórida (EUA), contratou a primeira autoridade do mundo dedicada exclusivamente a essa função. Segundo Keith, que estuda como governos vêm respondendo ao aumento das temperaturas, existem cerca de 15 cargos semelhantes em outros países, como Grécia e Austrália.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Keith afirmou que o estado do Arizona, em particular, está à frente na resposta ao calor extremo. Cerca de mil pessoas morreram por doenças relacionadas ao calor em 2023, mais do que em qualquer outro estado dos EUA. Mas, nos anos seguintes, esses números diminuíram, mesmo com ondas de calor ainda mais severas. Entre as medidas adotadas, o governador passou a decretar oficialmente emergências por calor durante episódios extremos. O estado também nomeou uma autoridade responsável pelo calor (“chief heat officer”) e um coordenador estadual de centros de resfriamento. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Cidades como Tucson, uma das maiores do estado, também adotaram seus próprios planos de ação. Nos meses mais amenos, autoridades se reúnem para discutir as lições aprendidas no verão anterior.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Muitos esforços construídos ao longo da última década convergiram naquele ano de crise. Estamos enfrentando o calor do verão de uma forma muito mais coordenada do que antes”, disse Keith.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Essas iniciativas tendem a se tornar ainda mais importantes à medida que regiões historicamente de clima temperado, como partes da Europa, enfrentam ondas de calor mais intensas e frequentes. Climatologistas preveem que o verão de 2027 provavelmente será o mais quente da história, em parte devido a um “super El Niño”, o fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico que exerce enorme influência sobre os padrões climáticos globais.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Isso está totalmente alinhado com o que esperamos das mudanças climáticas. Quaisquer lições que aprendermos com este evento específico precisam ser rapidamente incorporadas e colocadas em prática”, conclui Keith. </p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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