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	<title>Reportagem Archives - Clique Notícias Brasil</title>
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	<title>Reportagem Archives - Clique Notícias Brasil</title>
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		<title>Centrão e oposição querem mudar CLT no Senado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2026 19:54:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Em meio à indefinição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sobre a análise da proposta de emenda à constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 no país, nomes do Centrão e bolsonaristas se movimentam para incluir ‘jabutis’ na redação do texto final em prol do empresariado.  A articulação do Centrão e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Em meio à indefinição do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sobre a análise da proposta de emenda à constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 no país, nomes do Centrão e bolsonaristas se movimentam para incluir ‘jabutis’ na redação do texto final em prol do empresariado. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A articulação do Centrão e dos bolsonaristas toma forma em outra PEC, protocolada pelo senador bolsonarista Rogério Marinho (PL-RN) com a assinatura de outros 40 senadores – ou seja, mais da metade da Casa ao todo – e que permite a contratação em um regime de pagamento por horas trabalhadas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na prática, o grupo mira uma mini-reforma trabalhista, similar à das controversas mudanças do governo Michel Temer (MDB) na legislação do país, segundo apurado pela Agência Pública. Neste sentido, declarações do vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), exemplificam o discurso da oposição (e do próprio empresariado) contra o fim da 6×1, defendendo que “empregador e trabalhador tenham uma opção a não ser [a contratação via regime] CLT”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Acho que sou um dos poucos parlamentares que já teve empresa fora [do país], onde havia o [regime de] trabalho por hora, então o trabalhador podia escolher quantas horas quisesse trabalhar… a regra era clara e para a [minha] empresa funcionou muito bem”, afirmou o vice-presidente da CCJ à Pública.</p>
<p>		Senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), vice-presidente da CCJ, defende a discussão de modelos alternativos à CLT, como o trabalho remunerado por hora</p>
<p class="wp-block-paragraph">Com patrimônio declarado em mais de R$ 26 milhões nas eleições de 2024, quando concorreu, sem sucesso, à prefeitura de Goiânia (GO), Cardoso vocaliza a posição do empresariado quanto ao fim da escala 6×1, dada a sua condição de fundador e dono do grupo Cicopal, que atua no ramo alimentício e de ultraprocessados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O senador relatou à Pública que fez pesquisas internas com os funcionários de sua companhia, confirmando a ampla adesão de trabalhadores ao fim da escala 6×1. “A primeira coisa que fiz foi ouvi-los [funcionários], porque são eles que ‘tocam’ a empresa no dia-a-dia. A maioria esmagadora é favorável [ao fim da 6×1], com 87% favorável à escala 5×2, enquanto os outros 13% fizeram observações interessantes – como, por exemplo, questionar quem vai pagar essa ‘conta’”, disse.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, o vice-presidente da CCJ tenta se descolar da PEC de Rogério Marinho, mesmo sendo um dos que assinaram a proposta em apoio ao líder bolsonarista. “Eu vou apresentar uma emenda, creio que outros senadores também vão, porque já tem gente defendendo o [regime de] trabalho por hora. Foi por isso que assinei a PEC do Rogério Marinho: não sou favorável a tudo que está lá, mas assinamos para abrir a discussão”, disse Cardoso.</p>
<h2 class="wp-block-heading">“Quando chegar aqui, eu dou meu ritmo”, diz presidente da CCJ sobre PEC do fim da 6×1 </h2>
<p class="wp-block-paragraph">Levando-se em consideração o trâmite de PECs no Senado, a posição de Vanderlan Cardoso tem um peso relevante, dada a sua condição de vice-presidente da CCJ atualmente.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="426" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1781207676_573_Centrao-e-oposicao-querem-mudar-CLT-no-Senado.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1" alt="Senadores Jaques Wagner (PT-BA), Otto Alencar (PSD-BA) e Vanderlan Cardoso (PSD-GO)" class="wp-image-252734"  /></p>
<p>		Senadores Otto Alencar (PSD-BA) e Vanderlan Cardoso (PSD-GO) divergem sobre propostas relacionadas ao fim da escala 6×1</p>
<p class="wp-block-paragraph">A comissão é responsável por avaliar a constitucionalidade, legalidade e juridicidade de todas as propostas legislativas antes que sejam votadas na Casa, incluindo as duas PECs sobre a mudança da escala trabalhista – tanto a aprovada na Câmara com apoio do governo Lula (PT) e do presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), da Câmara, quanto aquela protocolada pela oposição e pelo Centrão.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas se depender do presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), que integra a base do governo no Senado, o plano oposicionista não dará certo na comissão.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O presidente da CCJ já disse que não pautará a PEC de Rogério Marinho, como relatado pela CNN Brasil, e no início da semana ele não escondeu sua frustração com o adiamento de uma reunião que teria com o presidente do Senado para discutir matérias de interesse do governo Lula, como a PEC do fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública, segundo o portal Metrópoles.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="426" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1781207677_747_Centrao-e-oposicao-querem-mudar-CLT-no-Senado.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1" alt="Senador Otto Alencar (PSD-BA)" class="wp-image-252735"  /></p>
<p>		Presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA) afirma que dará andamento à PEC do fim da escala 6×1 quando a proposta chegar formalmente à comissão</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Já falei algumas vezes e vou repetir: não conversei com o Davi [Alcolumbre] sobre PEC da Segurança, sobre PEC da 6×1, não conversei com ele sobre absolutamente nada”, disse Alencar à Pública e outros veículos ao fim da sessão da CCJ na quarta (10).</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Quando chegar aqui, eu vou indicar um relator para a PEC da Segurança e a PEC da 6×1… se chegar! Ou seja, está tudo do mesmo jeito. Eu não tenho conversado com ele [Alcolumbre], não tenho telefonado… vou repetir: eu respeito o tempo dele e há de se respeitar o meu. Quando [a PEC] chegar aqui, eu dou meu ritmo”, também afirmou o presidente da CCJ nesta quarta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo apurado pela reportagem, o senador Otto Alencar diverge do vice-presidente da CCJ ao se mostrar favorável ao fim da escala 6×1 seja por meio da PEC aprovada recentemente na Câmara, seja por meio de outra proposta similar já aprovada na própria CCJ – a PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT-RS).</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1781207677_290_Centrao-e-oposicao-querem-mudar-CLT-no-Senado.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="Senador Paulo Paim (PT-RS)" class="wp-image-252737"  /></p>
<p>		Autor da PEC 148/2015, o senador Paulo Paim (PT-RS) defende a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 no país</p>
<p class="wp-block-paragraph">O texto relatado pelo senador petista foi aprovado na comissão em dezembro passado e, desde então, pode ser votado a qualquer momento no plenário do Senado – basta que Davi Alcolumbre inclua a proposta na pauta de votações da Casa Alta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, Otto Alencar é contra a PEC alternativa, da oposição, que abre espaço para jornadas de trabalho ainda mais “flexíveis” e para o pagamento de salário apenas por horas trabalhadas. Para o presidente da CCJ, a alternativa retoma o polêmico conceito de “trabalho intermitente”, surgido na reforma trabalhista do governo de Michel Temer (MDB) em 2017.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Impacto da exclusão de pessoas LGBTQIA+ no trabalho no Brasil</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/impacto-da-exclusao-de-pessoas-lgbtqia-no-trabalho-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 07:20:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A exclusão de pessoas LGBTQIA+ do mercado profissional brasileiro provoca perdas anuais estimadas em R$ 94,4 bilhões — o equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O dado faz parte do estudo “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">A exclusão de pessoas LGBTQIA+ do mercado profissional brasileiro provoca perdas anuais estimadas em R$ 94,4 bilhões — o equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O dado faz parte do estudo “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho Brasileiro”, divulgado pelo Banco Mundial.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Além do impacto econômico direto, a pesquisa estima perdas fiscais anuais de R$ 14,6 bilhões em arrecadação e gastos públicos ligados à exclusão dessa população.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O levantamento aponta que pessoas LGBTQIA+ enfrentam taxas mais altas de desemprego, menor participação profissional e experiências frequentes de discriminação no ambiente de trabalho. A taxa de desemprego entre entrevistados LGBTQIA+ foi estimada em 15,2%, praticamente o dobro da média nacional, de 7,7%. Já a taxa de inatividade chegou a 37,4%, acima dos 33,4% registrados na população geral.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Pessoas trans, não binárias e intersexo foram as que mais relataram episódios de discriminação e exclusão profissional, segundo o relatório.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O estudo foi produzido a partir de uma pesquisa inédita realizada em 2025 com pessoas LGBTQIA+ em diferentes regiões do Brasil. O levantamento reuniu informações sobre renda, emprego, participação profissional e experiências de discriminação e estigma. Grupos focais aprofundaram os impactos da exclusão social e econômica.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa foi conduzida pelo Banco Mundial em parceria com organizações como Instituto Matizes, Mais Diversidade, Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento (PADF).</p>
<p>		Pessoas LGBTQIA+ enfrentam taxas mais altas de desemprego, menor participação profissional e experiências frequentes de discriminação no ambiente de trabalho</p>
<p class="wp-block-paragraph">Traduzir discriminação em números concretos pode mudar a forma como o tema é tratado no debate público, diz Ricardo Sales, presidente do Instituto Mais Diversidade. “Estamos falando de um tema de direitos humanos, mas também de uma questão de desenvolvimento econômico. A pesquisa tem potencial para ampliar nosso repertório semântico e argumentativo, além de apontar caminhos para o diálogo com o Estado e as empresas”, afirma.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo os pesquisadores, a discriminação afeta diretamente a permanência e o crescimento profissional da população LGBTQIA+. O relatório sustenta que o estigma reduz a participação no mercado profissional, limita o retorno de investimentos em educação e restringe oportunidades de renda e ascensão profissional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As perdas econômicas atingem de forma mais intensa mulheres lésbicas, bissexuais, trans e intersexo. O estudo calcula perdas anuais de R$ 54,3 bilhões entre mulheres, ante R$ 40,1 bilhões entre homens. A pesquisa também destaca que desigualdades de gênero, raça e território aprofundam os impactos da exclusão no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na leitura de Samuel Araujo, coordenador da pesquisa no Instituto Matizes, os resultados ajudam a desmontar a ideia de que a população LGBTQIA+ vive experiências homogêneas no mundo do trabalho. Pessoas trans, não binárias e intersexo, explica ele, acumulam múltiplas vulnerabilidades sociais e enfrentam barreiras maiores de acesso à educação e ao emprego.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A discriminação, acrescenta o pesquisador, atravessa toda a trajetória profissional. “Muitos trabalhadores ocultam suas identidades por medo de preconceito, o que aumenta o estresse, reduz o sentimento de pertencimento e afeta negativamente produtividade e permanência no emprego”, diz Samuel Araujo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O relatório relaciona a exclusão econômica a barreiras anteriores ao ingresso no mercado profissional. Entre pessoas trans e travestis, aproximadamente 70% não concluíram o ensino médio e apenas 0,02% estão matriculadas no ensino superior, segundo dados citados pela pesquisa.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Os responsáveis pelo estudo defendem que os dados podem orientar políticas públicas e mudanças no setor privado. Ricardo Sales resume o impacto da exclusão em uma frase: “quando o preconceito ganha toda a sociedade perde”. Segundo ele, a exclusão da população LGBTQIA+ reduz consumo, arrecadação e crescimento econômico.</p>
<p>Com o que o Brasil perde com a exclusão de pessoas LGBTI+ no mercado laboral seria possível, numa analogia, custear transporte público gratuito para toda a população</p>
<p>Ricardo Sales</p>
<p>Presidente do Instituto Mais Diversidade</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mapear uma população historicamente invisibilizada nas estatísticas oficiais foi um dos principais desafios da pesquisa. Como não existe um cadastro amostral da população LGBTQIA+ no Brasil, os pesquisadores combinaram entrevistas online e presenciais, além de campanhas em territórios vulneráveis e parcerias com organizações locais.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A estratégia buscou evitar a sub-representação de pessoas em situação de maior vulnerabilidade, especialmente pessoas trans e travestis, moradores de periferias e áreas rurais. Samuel Araujo explica que, por isso, o estudo utilizou pesquisadores das próprias comunidades e ações presenciais em diferentes territórios.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Apesar de avanços legais recentes — como o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo, a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e o direito de pessoas trans alterarem documentos sem necessidade de cirurgia — o estudo aponta que a exclusão permanece presente em diferentes dimensões da vida social e econômica.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa coloca o Brasil em uma agenda internacional do Banco Mundial voltada à medição dos impactos econômicos da discriminação contra pessoas LGBTQIA+ em diferentes países. Metodologias semelhantes já foram aplicadas em pesquisas realizadas na Índia, na Sérvia e na Macedônia do Norte.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mais do que produzir um diagnóstico, o desafio agora é transformar os resultados em políticas concretas, afirma Lucas Bulgarelli, diretor-executivo do Instituto Matizes. Segundo ele, o Brasil avança com iniciativas como o Plano Nacional do Trabalho Digno LGBTQIA+, mas ainda precisa ampliar a produção de dados oficiais, fortalecer políticas públicas e expandir ações de inclusão profissional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“O relatório apresenta um conjunto de recomendações para os setores públicos e privado, que incluem diferentes aspectos como o fortalecimento das políticas em curso, expandir a produção de dados sobre pessoas LGBTI+ nos registros administrativos e pesquisas oficiais”, afirma Bulgarelli.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Por que professores estão adoecendo em São Paulo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 11:04:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Chegava na esquina da escola onde trabalhava e sentia tonturas e dores no estômago. A pressão disparava e minhas pernas se recusavam a dar o próximo passo”, conta uma professora que é moradora do Conjunto Habitacional Sítio Conceição, em Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo. Ela lecionou por 14 anos no ensino infantil [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">“Chegava na esquina da escola onde trabalhava e sentia tonturas e dores no estômago. A pressão disparava e minhas pernas se recusavam a dar o próximo passo”, conta uma professora que é moradora do Conjunto Habitacional Sítio Conceição, em Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ela lecionou por 14 anos no ensino infantil em escolas públicas e particulares e que preferiu não se identificar por medo de represálias. Casos como esse estão longe de ser isolados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Só na Grande São Paulo, foram registrados quase 37 mil casos de afastamento de professores por questões de saúde mental, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados se referem apenas à rede estadual e são o equivalente a 58 profissionais fora das salas de aula por dia, por causa desse desgaste.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As informações são da Diretoria de Perícias Médicas e foram obtidas pelo CPP (Centro do Professorado Paulista), por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação).</p>
<p class="wp-block-paragraph">Correspondentes da Agência Mural de Embu das Artes e Itapecerica da Serra, da Grande São Paulo, Cidade Tiradentes, na zona leste, e Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, ouviram professores da rede pública sobre a situação.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eles relatam jornadas diárias de 10 a 12 horas, baixos salários, violência física e moral, infraestrutura precária e cobrança excessiva por resultados estão entre os principais fatores que contribuem para o adoecimento de educadores nas periferias.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Professores no limite</h2>
<p class="wp-block-paragraph">“Quando eu me aproximava da escola, minha frequência cardíaca disparava”, relata o professor de educação física Sílvio Benedito, 60, morador do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele atua há cerca de 22 anos na escola municipal Edvaldo dos Santos Dantas e foi diagnosticado, em 2024, com ansiedade e depressão, quadro associado à síndrome de burnout, ligada ao esgotamento físico e emocional provocado pelo trabalho.</p>
<p>Acordava já com o peso de saber que chegaria ali e encontraria tudo aquilo que me adoecia. Quando recebi o diagnóstico, fiquei assustado. Imagina: um professor de educação física com depressão</p>
<p>Silvio</p>
<p>Professor na zona sul de SP</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, a professora Talita da Silva Vitoriano Leal, 35, também enfrentou o adoecimento mental ligado ao trabalho.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Docente há 14 anos no município, precisou se afastar por 10 meses para tratar de dois problemas: um pólipo nas cordas vocais (são lesões que surgem nas pregas vocais semelhantes a pequenas bolhas ou tumores não benignos) e o TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada).</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Em 5 de agosto de 2024 perdi a voz, fiquei 45 dias totalmente afônica, não saía nada. Fui de atestado em atestado, no primeiro o médico me deu 10 dias, voltei a trabalhar, mas não consegui retomar as atividades porque a voz não saia”, conta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Talita leciona nas escolas E.E. Dr. Honório Monteiro e EMEF Acácia e relata que a rotina em busca de tratamento não foi fácil, porque precisou fazer vários exames. Em outubro de 2024, ela encaminhou o pedido de readaptação para as secretarias municipal e estadual, mas só conseguiu no município.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="480" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/Por-que-professores-estao-adoecendo-em-Sao-Paulo.jpg?resize=640%2C480&#038;ssl=1" alt="Sala de aula do 2° ano do fundamental II, escola estadual Dr Honório Monteiro localizado no bairro Chácara Sonho Azul" class="wp-image-252572"  /></p>
<p>		Sala de aula do 2° ano do fundamental II, escola estadual Dr Honório Monteiro localizado no bairro Chácara Sonho Azul</p>
<p class="wp-block-paragraph">Talita, ao retornar da licença, não imaginava que o corpo entraria em colapso com o ambiente escolar. “Não sei o que aconteceu, se eu saí correndo, se eu gritei ou passei mal. Só sei que acordei na secretaria, com os meus colegas me chamando, e já ligaram para o meu marido”, diz. Ali manifestou o transtorno de ansiedade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ao retornar ao colégio após sofrer a crise de ansiedade, a educadora detalha que ficou atônita ao faltar o ar, e outros sintomas como crises de choro.</p>
<p>Quando o sinal tocou ao retornar do intervalo, não cheguei nem na porta. Tive uma crise de pânico no meio do corredor</p>
<p>Talita</p>
<p>Educadora em Itapecerica da Serra</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na escola Acácia ela foi readaptada e assumiu as funções administrativas com a mesma carga horária e sem contato direto com alunos mas na escola EE Dr. Honório Monteiro suas funções eram as mesmas e a todo momento seu pesadelo diário em ter que continuar lecionando.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O processo de readaptação de professores é um direito garantido por lei para docentes que enfrentam restrições físicas ou mentais que os impedem de exercer suas funções habituais e assegura-se a manutenção da remuneração carga horária adequada, progressão na carreira e o direito à aposentadoria especial.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sílvio, por sua vez, permaneceu seis meses longe das atividades após ser intimidado por uma pessoa em situação de rua que ocupava a quadra da escola durante uma das aulas. Ao retornar ao trabalho, os professores lembraram de enfrentar crises de ansiedade ainda nos primeiros dias.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“A escola era muito aberta. No fim de semana, muita gente usava o espaço como se fosse um clube. Tinha que recolher de tudo: desde preservativo até espetinho de churrasco”, conta Silvio.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Sempre reclamava, mas diziam que ‘na periferia é assim mesmo’”, relembra. “Eu respondia que trabalho na periferia desde que me conheço por gente e sei que não precisa ser assim.”</p>
<h2 class="wp-block-heading">Plataformas e pressão por desempenho</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Moradora do bairro Jardim Pinheirinho, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, a professora Angela Saraiva, 43, afirma que o comportamento dos alunos não é um problema, o que pesa mesmo é a intensa cobrança do governo do Estado de São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Angela leciona para ensino fundamental 2 na Escola Estadual Maria Antonieta Martins de Almeida e conta que começou a desenvolver ansiedade após a perda dos pais em 2002.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Além de sintomas como insônia e palpitações, ela diz que tem sentido muita dor no corpo, o que, segundo o médico, pode ser fibromialgia.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A saúde mental da educadora foi ainda mais prejudicada com a pressão escolar, que se intensificou com a implementação de plataformas digitais de educação.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Uma delas é o Centro de Mídias SP, implementado em março de 2020. Com o isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19, a iniciativa ofertou aulas remotas por meio de aplicativos e ferramentas de videoconferência com a finalidade de não impactar o desempenho dos alunos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Porém, a Secretaria de Educação descontinuou a plataforma em 2025 e foi substituído pela ferramenta “Sala do Futuro”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Angela afirma que incentiva o uso da plataforma digital em sala de aula, mas que precisa lidar com limitações de aprendizagem e dificuldades técnicas dos alunos fora da escola. “Tem uma boa parte que não faz porque não tem celular, alguns não tem internet em casa.” Mesmo assim, a cobrança tem sido em cima dos educadores.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A outra é a Secretaria Escolar Digital que contém um sistema de indicadores chamado “Farol do Desempenho”. É nele que são avaliados o desempenho dos professores e a gestão escolar, como frequência, formação e metas, em cumprimento do PDI (Plano de Desenvolvimento Individual).</p>
<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Angela, a escola está sempre no indicador vermelho, ou seja, rendimento insatisfatório. Com isso, o governo do estado intensifica a cobrança por melhores resultados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Essa pressão leva a educadora a tirar licenças esporádicas e de curta duração, de no máximo 7 dias. Ela afirma que nem mesmo a falta de recursos básicos é pior do que a forma como ela e os colegas são tratados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Angela cita o chamado “leilão de professores”, um termo usado pelos sindicatos e pela oposição à administração do atual Secretário de Educação, Renato Feder, que tem se concentrado em regras mais rígidas para a renovação dos contratos dos professores.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Resolução SEDUC nº 08/2026 propõe a rescisão contratual de professores da categoria “O” que se ausentam do trabalho por 30 dias ou mais. O decreto também confere ao diretor da escola o poder de decidir sobre a continuidade do vínculo empregatício do professor.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A educadora pontua que a situação é complicada, mas que o fato dela ser efetivada permite que ela possa pegar atestados, enquanto um professor na categoria O não tem a mesma possibilidade. A categoria “O” envolve docentes contratados de forma temporária na rede estadual de ensino.</p>
<p>Não costumo pedir licença médica, mas agora sou obrigada a priorizar a minha saúde</p>
<p class="wp-block-paragraph">Angela espera conseguir a licença não remunerada para não perder a carga horária de ensino e poder realizar outras atividades.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A educadora atua na profissão há 20 anos e afirma que não costumava pedir licença médica, mas agora é obrigada a priorizar a saúde.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ela espera obter licença não remunerada para não perder a carga horária de ensino e ter a oportunidade de realizar outras atividades de forma mais flexível e saudável para sua rotina.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo o Sindicato dos Professores de São Paulo, essa licença tem validade máxima de dois anos, e esse período de ausência não é contabilizado para a suspensão do tempo de serviço nem para qualquer outra finalidade, inclusive legal.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Violência em sala de aula</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Trabalhando 12 horas por dia com crianças com idades de 0 a 6 anos, a professora citada no início desta reportagem, viveu uma situação traumática, em 2024, dentro de uma escola particular na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ela foi agredida por uma aluna que, de acordo com os educadores da instituição, era muito inteligente, mas sofria com problemas familiares. “O dia que apanhei pela primeira vez dessa menina, não esperava uma situação dessa. Foi do nada”, relembra.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A estudante mordeu os colegas e desferiu tapas e socos na profissional pelo fato de dizer não por três vezes para que ela não ficasse em pé durante uma tarefa em sala.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Foi uma sequência de socos no meu rosto”, desabafa. “Enquanto gritava socorro para a minha colega da sala ao lado, os alunos pediram ajuda para a coordenadora”, relembra.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para impedir as agressões, a educadora tomou a atitude de abraçar a aluna. No entanto, a mãe de outro aluno viu a situação e fez uma reclamação para direção achando que a agressão vinha da profissional. “A mãe não viu antes que fui chutada e mordida”, conta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Depois do fato, a educadora conta que a pressão arterial chegou a 23 por 18, fora o desespero diante da possibilidade de perder o emprego. “Vou ser mandada embora por justa causa e por ser mulher preta, posso ser presa porque a menina é branca”, lamenta.</p>
<h2 class="wp-block-heading">O que são CIDs?</h2>
<p class="wp-block-paragraph">CID é a sigla para Classificação Internacional de Doenças, sistema da Organização Mundial da Saúde (OMS) que padroniza diagnósticos médicos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na saúde mental, alguns dos CIDs mais frequentes são:</p>
<ul class="wp-block-list">
<li>CID F41 – transtornos de ansiedade</li>
<li>CID F32 / F33 – depressão</li>
<li>CID Z73.0 – síndrome de burnout (relacionada ao trabalho)</li>
</ul>
<p class="wp-block-paragraph">Diferente de outros transtornos mentais, o burnout não é um diagnóstico clínico isolado, mas um quadro associado às condições de trabalho, que pode envolver sintomas registrados sob diferentes CIDs, como ansiedade e depressão.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Entre a naturalização da agressão e o burnout</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Toda a situação foi flagrada pelas câmeras de segurança do colégio. E mesmo que as imagens provassem a atitude da profissional, o incidente, para a direção, deveria ser mantido em segredo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Eu vou apanhar, ser mordida? Estou me protegendo e protegendo os alunos e mesmo assim estou errada?”, disse ela surpresa à direção. “Sim, você está errada. Por ser uma escola particular e por ter câmeras, são eles [os pais] que pagam o seu salário”, disse a pessoa que estava na direção à época.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ao longo de seis meses, a rotina dela se tornou insustentável. Além de lidar com os alunos, caso algum colega de trabalho faltasse, cobria outras turmas com alunos que tinham comportamentos semelhantes, o que fez a saúde dela piorar.</p>
<p>Cheguei a entregar 15 atestados porque todos os dias eu ia para o pronto-socorro porque sentia dores, ansiedade, não levantava mais da cama e sentia medo de ir sozinha</p>
<p>Educadora de Cidade Tiradentes</p>
<p class="wp-block-paragraph">A ficha da educadora caiu quando a médica que a atendeu deu o diagnóstico de Síndrome de Burnout e a aconselhou que o trabalho estava lhe adoecendo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Não é uma coisa só de pronto-socorro. Você tem que procurar ajuda”, alerta a médica a educadora.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Com o acolhimento e orientações da médica, a professora tomou a decisão de pedir as contas, em junho de 2024, da unidade escolar. “Se eu não pedisse as contas talvez eu não chegaria até o final do ano. E se eu chegasse até o final do ano, eu não chegaria saudável”, conclui.</p>
<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center">Como reconhecer o problema e pedir ajuda?</h2>
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph">Especialista indica os pontos de atenção</p>
<ol class="wp-block-list">
<li>A psicóloga Keissy de Oliveira Silva explica que o adoecimento de professores está diretamente relacionado às condições de trabalho enfrentadas diariamente nas escolas. “Há uma cobrança para que o professor seja sempre resiliente e criativo, mesmo sem condições reais de trabalho. Quando esse desgaste vira rotina, o adoecimento se instala”, afirma.</li>
<li>O primeiro passo é reconhecer que há um problema. Cansaço extremo, insônia, dores frequentes, irritabilidade, dificuldade de concentração, desânimo e sensação constante de esgotamento estão entre os principais sinais de alerta. Segundo ela, o corpo costuma dar sinais antes que a situação se torne insustentável.</li>
<li>Para além da identificação individual, a especialista afirma que a escola também precisa se tornar um espaço de escuta — e não apenas de cobrança. Isso envolve rever práticas que adoecem os profissionais, criar espaços reais de diálogo, oferecer apoio psicológico e construir uma gestão mais humana, capaz de reconhecer limites e distribuir responsabilidades de forma mais justa.</li>
<li>A psicóloga destaca ainda que muitas dessas questões ultrapassam a capacidade de ação das próprias escolas e estão ligadas a problemas estruturais, tanto da rede pública quanto das instituições privadas. “É fundamental que os professores sejam vistos como pessoas, com limites, subjetividades e direitos, e não como responsáveis por todas as falhas do sistema”, afirma. “Quando a comunidade escolar entende o professor como parceiro, e não como adversário, o fortalecimento é coletivo.”</li>
</ol>
<h2 class="wp-block-heading">Governo do estado</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que acompanha os indicadores de saúde dos servidores em parceria com a Diretoria de Perícias Médicas do Estado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo a pasta, 16.216 professores da rede estadual estavam em licença médica em 2025.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A secretaria também afirma que mantém ações voltadas à saúde mental dos educadores, como o programa “Programa Cuidar de Quem Educa”, que é um serviço de teleatendimento em psicologia e psiquiatria. De acordo com a Seduc, já foram realizados 875.424 atendimentos psicológicos e 52.599 teleconsultas psiquiátricas até janeiro de 2026.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O órgão informou ainda que 8.846 docentes estão atualmente readaptados na rede estadual. Os dados referem-se apenas ao sistema estadual de ensino.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A reportagem também procurou as prefeituras de Embu das Artes e Itapecerica da Serra, mas não obteve retorno até a publicação.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>“Era pra ser o morto 123”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 10:39:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Douglas não pensou que fosse tiro, muito menos de fuzil. Parecia um soco muito forte no lado direito do rosto. Mas era bala de calibre 7.62 rasgando seu maxilar após atravessar o vidro do carro. Em entrevista à Agência Pública, as lembranças voltam em flashes: ameaças para que saísse do automóvel com mãos na cabeça, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Douglas não pensou que fosse tiro, muito menos de fuzil. Parecia um soco muito forte no lado direito do rosto. Mas era bala de calibre 7.62 rasgando seu maxilar após atravessar o vidro do carro. Em entrevista à Agência Pública, as lembranças voltam em <em>flashes</em>: ameaças para que saísse do automóvel com mãos na cabeça, a porta que não abria, o zumbido de mais disparos cortando o vento, sua esposa pedindo socorro, vizinhos gritando “é trabalhador”. Lembra também de não conseguir falar, pois sua língua estava em pedaços, e da nuca melada de sangue por causa de um projétil que passou de raspão e que, por um centímetro ou menos, não explodiu sua cabeça.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Era noite de 28 de outubro de 2025, data da maior chacina da história do país. No amanhecer daquele dia, 2,5 mil policiais entraram nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, mataram 117 pessoas e perderam cinco agentes de segurança: no total, foram 122 mortos no massacre, onze a mais que o do Carandiru, em 1992, na cidade de São Paulo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Douglas Christian da Silva, 31 anos, poderia ter sido o morto número 123, como lhe diziam os policiais que o vigiavam no Hospital Geral de Bonsucesso, para onde ele foi levado e ficou 57 dias. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Foi tudo muito rápido: aproximadamente 11 horas após o início da Operação Contenção, Douglas saiu do condomínio onde morava com a esposa e dois filhos, a menos de 5 quilômetros do Complexo do Alemão, para fazer uma entrega. Levou produtos naturais de emagrecimento, que sua mulher vendia, para uma cliente do mesmo bairro, Inhaúma. Pensou que voltaria em poucos minutos, antes que as crianças dormissem, mas foi perseguido por quatro policiais militares do Batalhão Tático de Motociclistas ao se aproximar de casa.</p>
<p>		Após ser alvejado por policiais, Douglas ficou 57 dias internado no Hospital Geral de Bonsucesso</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Disseram que mandaram eu parar, mas não vi e nem ouvi ninguém até escutar os tiros. Atiraram pra matar, miraram na minha cabeça”, afirma, na sala de casa, enquanto sua filha Duda, de 9 anos, estuda no sofá para a prova de geografia. Ele ficou 17 dias em coma. Precisou ser entubado e passar por uma traqueostomia para sobreviver, pois estava engolindo sangue e o mesmo se acumulava nos pulmões. Quando reabriu os olhos e acordou, viu um policial de plantão dentro do quarto. Alguns dias depois, teve um ataque de pânico quando o efeito da sedação começou a passar e, como não estava algemado naquele momento – o que ocorria de vez em quando a pedido da equipe médica, para realização de algum procedimento –, tirou todos os fios de monitoramento e tubos conectados ao seu corpo, entre eles a sonda nasogástrica por onde se alimentava. “Parecia um pesadelo, eu não estava consciente e acabei me jogando no chão”, conta. Carine Ferreira de Andrade, de 30 anos, casada com Douglas há nove, passou semanas sem ver o marido.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele estava sob custódia do Estado.  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Só depois Douglas compreendeu que, na madrugada seguinte a ele ser baleado, os dois policiais que fizeram disparos, Francisco das Chagas Garcia Júnior e Allan Souza Rocha, apresentaram na 44ª Delegacia de Polícia, também em Inhaúma, um revólver calibre 38. Disseram que a arma pertencia a Douglas e que ele próprio indicou onde ela estaria assim que saiu do carro. Imagens a que a Agência Pública teve acesso, filmadas com celular por vizinhos do condomínio, mostram um dos PMs colocando sobre o automóvel todos os objetos que estavam no seu interior. É possível ver os produtos de emagrecimento e uma mochila escolar do caçula do casal, Benjamin, de 6 anos. Não havia revólver, que só foi apresentado na delegacia às 4h22 da manhã – Douglas foi baleado por volta das 21h.   </p>
<p class="wp-block-paragraph">Também não houve exame residuográfico. Ou seja, não há nada, nem foto, nem vídeo, nem exame que conecte a arma ao Douglas.   </p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="398" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_679_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C398&#038;ssl=1" alt="PMs apresentaram revólver atribuído a Douglas horas após a ação; não há foto, vídeo ou exame que o ligue à arma" class="wp-image-252431"  /></p>
<p>		PMs apresentaram revólver atribuído a Douglas horas após a ação; não há foto, vídeo ou exame que o ligue à arma</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Pode observar que um policial até ajuda meu marido a se levantar”, observa Carine à reportagem. “Eles estavam desesperados, sabiam que erraram. Se tivesse uma arma no carro, ela teria aparecido na hora, na frente de todos, e não com o dia quase amanhecendo. Eles só queriam saber de tirar o carro do lugar, não queriam chamar ambulância e nem perícia.” Segundo documento da Polícia Civil anexado ao inquérito, a perícia no automóvel só foi acionada quando os policiais chegaram à delegacia, para onde o veículo já havia sido levado. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A sorte, conta Carine, foi que chegou uma viatura com outros dois policiais que levaram ela e Douglas ao hospital, de onde ele só saiu dois meses depois – pesando 59 quilos, 21 a menos do que seu peso no início da internação. “O policial ainda disse ‘vamos levar ele pro Hospital Geral de Bonsucesso, se for para o Hospital Getúlio Vargas, ele não vai sobreviver’”, recorda. Não apareceram gravações feitas por policiais, embora no Rio seja obrigatório o uso de câmeras corporais. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Apenas um dos policiais o tratava com respeito no leito de cuidados intensivos. “Quando eu urinava na fralda, ligavam o ar condicionado no máximo e me deixavam sem cobertor, para eu sentir frio. Eu chegava a bater o queixo de tanto frio”, diz. </p>
<p>Ouvia eles conversando na troca de plantão. Falavam ‘esse aí era pra ser o morto 123’</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="396" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_813_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C396&#038;ssl=1" alt="Operação Contenção resultou em 121 mortos e é considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro" class="wp-image-252432"  /></p>
<p>		Operação Contenção resultou em 122 mortos e é considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro</p>
<h2 class="wp-block-heading">Acusado de homicídio e porte ilegal de uma arma que nunca foi sua  </h2>
<p class="wp-block-paragraph">O caso de Douglas não é simples. Apesar de ser réu primário, os policiais o acusam de tentativa de homicídio qualificado, desobediência e porte ilegal de arma. Os crimes imputados contrariam evidências de sua inocência identificadas por um grupo de analistas forenses independentes, que elaborou uma reconstrução em 3D fornecida à Agência Pública: a partir de depoimentos, da única perícia feita no carro, das câmeras de vizinhos e do sistema de segurança do condomínio de Douglas. Se for condenado, pode pegar mais de 20 anos de sentença. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando recebeu a reportagem, Douglas tinha uma tornozeleira eletrônica vigiando cada passo. Às 19h do dia da entrevista, como em todos os dias, o aparelho começou a vibrar – era hora de voltar para casa, embora ele ainda tivesse muitas entregas a fazer. Como a família está precisando de dinheiro, arriscou fazer uma última entrega, por ser perto de casa, enquanto a esposa, preocupada, aguardava na janela. “Chegou”, disse aliviada ao vê-lo se aproximar. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“É uma situação inacreditável. Eles quase me matam e depois me processam”, resume o entregador e pequeno empreendedor, que hoje vende sucos e lanches naturais com Carine, aluna da faculdade de nutrição, e também trabalha com delivery em uma loja de pipoca. </p>
</p>
<p class="wp-block-paragraph">Como revela o vídeo da reportagem, os depoimentos dos policiais têm uma série de inconsistências. Eles alegam que Douglas atirou neles primeiro ao ser perseguido, mas as imagens mostram que todos os vidros do carro estavam fechados, e a única marca de projétil na janela do motorista tem altura compatível com o ferimento no rosto de Douglas, segundo o estudo em 3D feito pelos analistas forenses. E a única perícia no automóvel – feita no pátio da delegacia após os policiais tentarem trocar os pneus e chamarem um guincho privado para levá-lo embora, o que pode configurar fraude processual – confirma que os cinco tiros identificados no veículo foram disparados de fora para dentro.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Esse mesmo laudo de dez páginas – afirma que o tiro que atravessou o vidro do motorista, além de ter sido disparado de fora para dentro, foi de frente para trás, ou seja, a moto acelerou para ultrapassar o automóvel e o policial que disparou estava posicionado na frente do carro.</p>
<ul class="wp-block-jetpack-slideshow_swiper-wrapper swiper-wrapper">
<li class="wp-block-jetpack-slideshow_slide swiper-slide"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="658" alt="Laudo pericial contesta versão da polícia" class="wp-block-jetpack-slideshow_image wp-image-252433" data-id="252433" data-aspect-ratio="640 / 658" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_412_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C658&#038;ssl=1"  />Laudo pericial contesta versão da polícia</li>
<li class="wp-block-jetpack-slideshow_slide swiper-slide"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="668" alt="Laudo pericial contesta versão da polícia" class="wp-block-jetpack-slideshow_image wp-image-252434" data-id="252434" data-aspect-ratio="640 / 668" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_91_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C668&#038;ssl=1"  />Laudo pericial contesta versão da polícia</li>
<li class="wp-block-jetpack-slideshow_slide swiper-slide"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="693" alt="Laudo pericial contesta versão da polícia" class="wp-block-jetpack-slideshow_image wp-image-252435" data-id="252435" data-aspect-ratio="640 / 693" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_658_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C693&#038;ssl=1"  />Laudo pericial contesta versão da polícia</li>
<li class="wp-block-jetpack-slideshow_slide swiper-slide"><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="663" alt="Laudo pericial contesta versão da polícia" class="wp-block-jetpack-slideshow_image wp-image-252436" data-id="252436" data-aspect-ratio="640 / 663" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_783_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C663&#038;ssl=1"  />Laudo pericial contesta versão da polícia</li>
</ul>
<p class="wp-block-paragraph">Como não houve perícia interna no veículo e tampouco na cena do crime, a reconstrução 3D gerou um cenário provável, a partir do estudo de trajetórias aproximadas, utilizando um modelo idêntico ao veículo da vítima (um Hyundai HB20) e um modelo humano com a mesma altura de Douglas. Para determinar o caminho inicial do projétil (do atirador ao rosto da vítima) que provavelmente o atingiu, em razão da compatibilidade de alturas entre a marca e o ferimento na mandíbula, os analistas combinaram a foto do vidro perfurado ao modelo 3D do carro, definindo a altura exata do ponto de entrada. E a partir das fotos dos ferimentos, identificaram um segundo ponto, no rosto de Douglas. </p>
<h2 class="wp-block-heading">Sequelas </h2>
<p class="wp-block-paragraph">Além do processo a que responde, Douglas ficou com sequelas graves do tiro que tomou. Para reconstruir o maxilar, os médicos do hospital retiraram 13 centímetros da fíbula de sua perna esquerda e colocaram esse osso na base do maxilar. Com isso, ele perdeu os movimentos dos dedos do pé esquerdo. E com o impacto da batida do carro no meio-fio de seu condomínio, ele sofreu uma lesão no joelho direito que o impede de caminhar corretamente. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Mas ele anda, “e o importante é não ficar parado”, diz, apoiando-se nas paredes ao subir as escadas de sua casa. </p>
<p class="wp-block-paragraph">No dia 11 de março, mais um passo em sua recuperação com a retirada da traqueostomia – procedimento cirúrgico que cria uma pequena abertura na parte frontal do pescoço para alimentação. No mesmo dia, foi liberado para voltar a comer pela boca depois de cinco meses. Nos primeiros dois meses após ser baleado, ficou sem falar e sem ver os filhos enquanto estava no hospital. Ele e a família se comunicavam por cartas e bilhetes. O primeiro que ele escreveu para Carine foi: “São coisas ruins que vêm para o bem. Vai passar, eu creio”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Douglas ficou sob custódia no hospital até 24 de dezembro de 2025, véspera do Natal, quando ganhou alta. Com a ajuda de um advogado, Carine conseguiu uma decisão judicial de prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. Ele não pode sair de casa entre 19h e 6h de segunda a sexta, e em nenhum momento de feriados e fins de semana. Está em casa, com sua família, e há duas semanas voltou a trabalhar fazendo entregas, sempre dentro dos horários estipulados. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Conseguiu uma prótese dentária doada por um dentista, pois perdeu dez dentes com o tiro. Ainda precisa de fisioterapia para as duas pernas e para reaprender a mastigar e engolir – por enquanto, só come comida líquida ou pastosa. Ele chegou a pagar algumas sessões de fisioterapia, mas cada uma custa R$ 100 e, por isso, precisou parar. “Estava pesando no orçamento, ainda mais comigo nessas condições, ainda sem poder trabalhar normalmente”, lamenta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Também precisa de um psicólogo que atenda pelo SUS, pois se sente inseguro ao sair na rua, mas tanto esse profissional quanto um fisioterapeuta precisam ser indicados por um médico da Clínica da Família – eles estão esperando uma consulta há três meses.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Na sexta-feira passada, a polícia me parou durante uma entrega. Tremi igual vara verde. Fiquei com medo, mas mostrei meu celular, meu WhatsApp e o policial viu que sou trabalhador. Foi gentil, me deu boa noite. Mas e se ele não acreditasse?”, indaga. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A Pública perguntou à Polícia Militar sobre a conduta dos policiais, pediu explicações sobre a razão pela qual eles tiraram o carro de Douglas do local em vez de acionarem a perícia e indagou o motivo pelo qual imagens das câmeras corporais não foram apresentadas no processo. A resposta: “De acordo com a Corregedoria-Geral, dois procedimentos apuratórios foram instaurados em relação a esta ocorrência. Ambos foram arquivados”. Quanto às câmeras corporais, que são de uso obrigatório, a corporação nada disse.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, dos 2.500 policiais envolvidos na Operação Contenção, apenas 183 utilizaram câmeras, menos de 8% do efetivo mobilizado. Dessa câmeras, 52 passaram por uma análise preliminar no Ministério Público do Rio de Janeiro, que concluiu que 17,6% dos policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) que atuaram na ação retiraram as câmeras corporais do uniforme. Outros 8% obstruíram intencionalmente as imagens durante a ação. </p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="360" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780915193_417_Era-pra-ser-o-morto-123.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1" alt="Com tornozeleira eletrônica, Douglas cumpre prisão domiciliar. “As pessoas na rua veem a tornozeleira e me olham como se eu fosse um monstro.”&#10;" class="wp-image-252438"  /></p>
<p>		Com tornozeleira eletrônica, Douglas cumpre prisão domiciliar. “As pessoas na rua veem a tornozeleira e me olham como se eu fosse um monstro.”</p>
<h2 class="wp-block-heading">Sem informação e sem defesa </h2>
<p class="wp-block-paragraph">O defensor André Castro, coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, afirma que o bloqueio de informações por parte das autoridades do estado é quase absoluto. Do total de 117 vítimas civis, os defensores estão cuidando de 20 casos – os outros estão sem defesa ou com advogados particulares, como Douglas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Mas a situação de quem está sem defensor e sem advogado não difere muito das outras. Não estamos tendo acesso a nada”, afirma Castro. “Pedimos acesso aos laudos e não recebemos. Pedimos as câmeras dos policiais, nos deram 500 horas de imagens, mas existem mais de 3 mil horas no total. Tem muita imagem dos policiais nas viaturas, na base, preparando a operação – ou seja, recebemos só uma pequena fração e ainda assim não foi aleatória, nada do que é confronto está ali. Uma pessoa pode ter sido executada, outra podia estar atirando na polícia. Precisamos ter elementos que indiquem o que aconteceu.”  </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em um documento anexado aos autos do processo, o advogado de Douglas, Gilberto Santiago Lopes, afirma que “os policiais, em um ato de desespero ao perceberem que erraram ao disparar cinco vezes em direção ao veículo do denunciado, alteraram o local do fato, imputaram à vítima uma arma e ainda retiraram o veículo do local”. Ele pede que sejam disponibilizadas as imagens das câmeras corporais dos policiais e requer a absolvição sumária do cliente. A história de Douglas chamou a atenção da imprensa internacional e foi apresentada de maneira proeminente em um documentário da Al Jazeera, chamado Brazil’s Bloody War in the Favelas (A Guerra Sangrenta do Brasil nas Favelas).     </p>
<p class="wp-block-paragraph">Uma das coisas que dão força a Douglas são seus filhos. Duda, a mais velha, é craque de futebol no time da escolinha. Recentemente foi campeã de um torneio no Centro de Formação Zico. “Mostra a medalha, filha”, pede o pai, e a menina atende, orgulhosa. “Era eu quem a levava aos treinos e jogos. Agora não dá. Quando saio com minha família durante a semana, as pessoas na rua vêem a tornozeleira e me olham como se eu fosse um monstro. Fim de semana fico trancado em casa”, conta. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Quando ele estava no hospital, Duda lhe escreveu um bilhete que Douglas lê e relê ao se sentir triste. “Pai, quando você estiver nos piores momentos, eu, Maria Eduarda, vou te amar da Terra à Lua ida e volta.” Ele agradece a Deus por ter sobrevivido, mas reza todos os dias para ter sua vida de volta.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Caminhos da Reportagem aborda Pink money e o valor da diversidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Agência Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 10:38:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O termo pink money ou dinheiro rosa, em tradução livre, ganhou força nos Estados Unidos na década de 1980 e se refere ao poder de consumo da população LGBTQIAPN+. De acordo com a consultoria Out Now, esse consumo pode chegar a R$ 420 bilhões por ano no Brasil. Ricardo Sales, presidente do Instituto Mais Diversidade, explica [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O termo <em>pink money</em> ou dinheiro rosa, em tradução livre, ganhou força nos Estados Unidos na década de 1980 e se refere ao poder de consumo da população LGBTQIAPN+.<img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/Caminhos-da-Reportagem-aborda-Pink-money-e-o-valor-da.gif?w=740&#038;ssl=1" style="width:1px; height:1px; display:inline;"/></p>
<p>De acordo com a consultoria Out Now, esse consumo pode chegar a R$ 420 bilhões por ano no Brasil. Ricardo Sales, presidente do Instituto Mais Diversidade, explica que, historicamente, esse mercado era associado a nichos específicos de consumo:</p>
<p>&#8220;Nos anos 80 e 90, a gente associava a noção de <em>pink money</em> muito à viagem, lazer, entretenimento e muitas vezes o fazia isso de uma forma até bastante estereotipada.” </p>
<p>Nos anos 1990, o mercado brasileiro esteve muito ligado aos espaços considerados seguros para a comunidade, com bares e casas noturnas. Com isso, a noite paulistana moldou a carreira de figuras icônicas como a <em>drag queen</em> e apresentadora Silvetty Montilla. </p>
<p>“Quando eu comecei, eu falei: ‘eu não quero ser artista de um lugar só’. [&#8230;] Quando eu vi que o dinheiro estava entrando, aí eu decidi ficar só na noite”, explica.</p>
<p>A partir dos anos 2000, o mercado voltado para pessoas LGBT+ começou a crescer no país. “Foi quando a gente sentiu, por exemplo, que a Parada de São Paulo teve um grande crescimento. Por quê? As pessoas estavam mais tranquilas em ficar fora do armário”, afirma Clovis Casemiro, gerente de membros da Associação Mundial de Turismo LGBT+ (IGLTA).</p>
<p>Dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostram que, em 2025, o evento movimentou cerca de R$ 550 milhões na economia paulistana. Contudo, a dificuldade para captar patrocínios ainda é uma questão:</p>
<p>&#8220;As empresas aqui no Brasil investem pouco em relação ao que elas investem em outros eventos”, enfatiza Nelson Matias Pereira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP).</p>
<h2>Pink washing</h2>
<p>Muitas empresas lucram com os símbolos LGBT+, especialmente em junho, Mês do Orgulho, mas sem promover direitos para essa comunidade. Tal conceito é conhecido como <em>pink washing</em>.</p>
<p>Para combater essa prática, o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ reúne empresas que assinaram a carta <em>Dez Compromissos da Empresa com a Promoção dos Direitos LGBTI+</em>.</p>
<p>O Grupo Heineken é uma delas. A multinacional investe no empoderamento de funcionários LGBT+ e na formação de bares parceiros para o mundo dos negócios:</p>
<p>“A gente apadrinhou esses bares que eram de proprietários LGBT para que a gente fizesse essa jornada, uma trilha de desenvolvimento mesmo, para que esse dinheiro volte e prospere para a comunidade de maneira saudável e segura”, explica Vetusa Pereira, gerente de diversidade, equidade e inclusão do Grupo Heineken.</p>
<p>Outros eventos têm chamado a atenção do público LGBT+, como o Todo Mundo no Rio, que arrastou milhões de pessoas para a praia de Copacabana com os shows de Madonna (2024), Lady Gaga (2025) e Shakira (2026).</p>
<p>            <img data-recalc-dims="1" decoding="async" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/Caminhos-da-Reportagem-aborda-Pink-money-e-o-valor-da.jpg?w=740&#038;ssl=1" alt="São Paulo (SP), 03/06/2026 - Caminhos da Reportagem PINK MONEY - A drag queen Silvetty Montilla se apresenta no show “Segunda Dose com Montilla”, em uma casa noturna de São Paulo..&#13;&#10;Frame TV Brasil" title="Frame TV Brasil"/></p>
<p><h6 class="meta">A drag queen Silvetty Montilla apresenta o show <em>Segunda Dose com Montilla</em>, em uma casa noturna de São Paulo &#8211; Frame TV Brasil</h6>
</p>
<p>De acordo com a Prefeitura do Rio, o evento movimentou cerca de R$ 800 milhões na economia carioca, um retorno financeiro quarenta vezes maior que o investimento no show: “90% do público que frequenta a loja nessas datas são LGBT”, diz Siluana Bezerra, dona de uma loja no Saara, coração do comércio popular carioca, que vende roupas e acessórios para fãs de divas pop.</p>
<p>A rede hoteleira também tem faturado: “A gente acabou de passar por uma expansão que fez com que a gente dobrasse a capacidade até para conseguir pegar mais esse público agora nesse momento”, explica Pedro Barroso, general manager de um hostel que fica a quatro quadras da praia de Copacabana.</p>
<p>Apesar dos avanços, o preconceito ainda traz grandes prejuízos para a economia brasileira. De acordo com um estudo do Banco Mundial, o país perde anualmente mais de R$ 94 bilhões com a exclusão de pessoas LGBT+ do mercado de trabalho.</p>
<h2>População trans</h2>
<p>A população trans é ainda mais afetada pelo desemprego. Em 2023, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, apenas 25% tinham emprego formal, com salários 32% menores que a média nacional. </p>
<p>A assessora parlamentar Andréa Brazil teve dificuldades para permanecer no mercado de trabalho formal. “Eu fui operadora de <em>telemarketing</em> por mais de três anos na minha vida. Eu tomava bronca por causa da minha voz”, explica.</p>
<p>Ter seu próprio negócio foi a forma que Andréa encontrou para ter mais dignidade. Ela abriu um salão de beleza e, logo após, conseguiu realizar o sonho de ser estilista:</p>
<p>“Eu comecei a pensar nos <em>looks</em> que tivessem as bandeiras para que as pessoas se sentissem vestindo, abraçando a causa.”</p>
<p>O empreendimento da Andréa cresceu e se tornou um projeto social, o Capacitrans, que capacita a população LGBT+, especialmente pessoas trans e travestis, em ofícios como maquiagem, corte de cabelo e <em>design</em> de roupas. </p>
<p>O jornalista Francisco Borges, pai solo de seis filhos adotivos, vê essa transformação de perto. Para ele, a sociedade está mais atenta à maneira como empresas e demais instituições trabalham com as pautas do universo LGBT+.</p>
<p>&#8220;Quando eu vou colocar um filho na escola, eu não quero só saber se eles têm Dia da Família, porque isso é o mínimo. Eu quero entender como eles se colocam frente aos personagens históricos, de livros infantis, por exemplo, que tipo de histórias, que tipo de autores eles têm ali?”, explica.</p>
<p>O episódio <em>Pink Money: o Valor da Diversidade</em>, do Caminhos da Reportagem, vai ao ar às 23h desta segunda-feira (8), na TV Brasil.</p>
<p>&gt;&gt; Clique aqui e saiba como sintonizar a TV Brasil</p>
<h2>Ficha técnica</h2>
<p>Produção e reportagem: Thiago Padovan<br />Apoio à produção: Lucas Cruz<br />Apoio operacional à produção: Acácio Barros<br />Reportagem cinematográfica: JM Barboza e Marcelo Padovan<br />Apoio à reportagem cinematográfica: Denis Vianna, Eduardo Guimarães e Rodolpho Rodrigues<br />Auxílio técnico: Rafael Carvalho e Caio Araujo<br />Apoio à imagem: Yuri Ledesma<br />Edição de texto: Márcio Garoni<br />Edição e finalização de imagem: Rodrigo Botosso<br />Assessoria: Maura Martins<br />Arte: André Maciel, Aleixo Leite e Carol Ramos</p>
<p>Fonte: <br /><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-06/caminhos-da-reportagem-aborda-pink-money-e-o-valor-da-diversidade" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Brasil</a></p>
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		<title>TCU apontou ONG de produtora como fachada</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/tcu-apontou-ong-de-produtora-como-fachada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 16:55:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Uma auditoria obtida com exclusividade pela Agência Pública, feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2012, é taxativa ao afirmar que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, é uma entidade “de fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, sob a mesma presidente, assinou um contrato com a gestão [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Uma auditoria obtida com exclusividade pela Agência Pública, feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2012, é taxativa ao afirmar que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, é uma entidade “de fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, sob a mesma presidente, assinou um contrato com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), de R$ 108 milhões para fornecer 5 mil pontos de internet para comunidades vulneráveis na capital paulista.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Karina Ferreira da Gama é também a proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como a Pública revelou em 26 de maio, o contrato da ICB teve um aditamento no final do ano passado, que elevou seu total a mais de R$ 157 milhões, para a instalação e manutenção de 3,2 mil pontos de internet, 64% do volume inicialmente contratado. O aditamento foi feito seis dias depois de o caso ter vindo à tona, em reportagem do <em>Intercept Brasil</em>, e ser alvo de pedidos de investigação. Antes deste aditamento, outros três aditamentos haviam antecipado pagamentos sem que as metas de serviços fossem entregues.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na manhã desta segunda-feira, 1 de junho, a investigação deu um novo passo, com uma operação policial em endereços pessoais de Karina, da produtora do filme e da entidade que preside, além da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Na investigação, são apuradas as suspeitas de fraude na licitação, na execução do serviço contratado e o suposto desvio de dinheiro público, além de confusão patrimonial e desvio de finalidade dos recursos.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Alertas de irregularidades ignorados</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Muitos dos problemas agora revelados nas investigações sobre o contrato do ICB com a gestão Nunes já eram apontados mais de uma década antes em um relatório feito pelo TCU, sobre entidades que haviam recebido recursos do Ministério da Cultura em 2010.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O contrato do ICB que é alvo da auditoria, de R$ 553 mil no valor da época, foi assinado em razão de uma emenda parlamentar do então senador brasiliense Gim Argello (hoje no Avante) para a “realização do festival de música de Brasília, a ser realizado nos dias 03 e 04 de dezembro de 2010 no Teatro Dulcina de Moraes, com o objetivo de promover a difusão cultural através de uma competição musical”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo a assessoria do ministério, não houve liberação do pagamento “em atendimento à recomendação constante do Aviso-Circular Conjunto n. 128/2010/MPOG/CGU-PR de 20/12/2010, e Memorando-Circular n. 33/2010 – AECI/GM MinC de 28/12/2010”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O documento levantava dúvidas sobre a capacidade de realizar o trabalho e o alto grau de terceirização na sua execução. Além disso, o TCU já apontava incertezas quanto à própria idoneidade da entidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica do ICB data de 1990, quando Karina era apenas uma pré-adolescente, segundo ela própria, na Vila Brasilândia, periferia noroeste da capital paulista. Seu nome passou a ser ligado à entidade apenas em 2010, quando o instituto mudou de dirigentes e de atividades e, logo em seguida, assinou seus primeiros contratos com o poder público, então na área de cultura.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Até 30 de março daquele ano, o ICB era registrado como Associação Rodoviários de Brasília e estava classificado no Cadastro Nacional de Atividades Econômicas como uma “Instituição de Longa Permanência para Idosos”. Uma semana após a alteração da razão social, veio a mudança completa do quadro de dirigentes. Entre 2008 e 2010, aponta o TCU, o instituto não tinha folha de pagamento ou quadro de pessoal.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para a celebração de contratos como estes, geralmente é exigido que a entidade tenha, pelo menos, três anos de atividade. A mudança e a forma como foi feita, na avaliação dos auditores, indicam que a entidade possa ter sido “adquirida” ou “preparada formalmente” com a finalidade de assinar parcerias com o poder público.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O ICB é apontado ainda no relatório como uma entidade de fachada, sem existência formal, qualificação técnica e capacidade operacional. Assim como outras entidades descritas da mesma forma, o instituto fazia cotação de preços com as mesmas três empresas de produção de eventos, assessoria e marketing. Boa parte do valor total do convênio foi executada por uma delas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">As irregularidades são apontadas em um contrato cujo valor é consideravelmente menor do que o da gestão Nunes. Na ocasião, o acordo analisado era de R$ 553,5 mil (R$ 1,46 milhão em valor atualizado pelo IGP-M até dezembro de 2025, quando foi assinado o aditamento na prefeitura paulistana). Ou seja, mesmo em valores corrigidos, o contrato equivale a menos de 10% do montante do acordo atual.</p>
<p>		Karina Ferreira da Gama comanda o ICB e a produtora responsável pelo filme Dark Horse</p>
<p class="wp-block-paragraph">Os pontos destacados pelo TCU guardam relação direta com as ressalvas feitas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) antes da assinatura do contrato agora sob investigação, como a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade. Outro aspecto que chama a atenção é a possibilidade de subcontratação de empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Antes da entrada milionária na área de Inovação e Tecnologia da gestão Nunes, o ICB recebia recursos basicamente de emendas parlamentares para eventos literários, de inclusão digital, esportes e empreendedorismo. Em um deles, como a Pública mostrou, os pagamentos continuaram a ser feitos mesmo depois de os funcionários da prefeitura relatarem dificuldade de contato com a entidade.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O ICB e a Go Up fazem parte de uma rede de entidades e empresas ligadas a Karina. Dessa rede também participam a Academia Nacional de Cultura, que recebeu mais de R$ 2,6 milhões em emendas para a produção de uma série conservadora, e a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, que tentou captar R$ 4,9 milhões — quando Mário Frias era secretário nacional de Cultura do governo Bolsonaro — para uma série a respeito de atletas cristãos.</p>
<h2 class="wp-block-heading">O que diz a prefeitura</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Em nota, a prefeitura afirma que “não há qualquer impedimento junto à administração pública para a contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB)”. Diz ainda que, “no momento da celebração do Termo de Colaboração, em 2024, a entidade atendeu integralmente aos requisitos de habilitação previstos no processo de Chamamento Público, que respeitou e seguiu rigorosamente a Lei Federal nº 13.019/2014, marco regulatório das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo a gestão Nunes, “o ICB apresentou toda a documentação necessária para comprovar sua aptidão e regularidade para participar de certames e formalização do contrato”. Afirma também que “os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foram sanados à época e a Corte concordou com o prosseguimento do chamamento”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A gestão municipal garante que “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento do objeto celebrado”.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
<p>The post <a href="https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/tcu-apontou-ong-de-produtora-como-fachada/">TCU apontou ONG de produtora como fachada</a> appeared first on <a href="https://cliquenoticiasbrasil.com.br">Clique Notícias Brasil</a>.</p>
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		<title>vida, morte, reparação e justiça na prisão</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 08:22:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Talvez a melhor descrição das mudanças na vida de Lulu esteja em suas próprias palavras: “Eu reflito sobre minha antiga vida, meu erro, meus direitos e meu futuro adiante”, diz uma de suas anotações. Guianense, negra e mãe de cinco filhos, Tanaka Luanda Lawrence estava presa havia alguns anos na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Talvez a melhor descrição das mudanças na vida de Lulu esteja em suas próprias palavras: “Eu reflito sobre minha antiga vida, meu erro, meus direitos e meu futuro adiante”, diz uma de suas anotações. Guianense, negra e mãe de cinco filhos, Tanaka Luanda Lawrence estava presa havia alguns anos na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), na zona norte de São Paulo, no antigo complexo do Carandiru. A sua trajetória no sistema penitenciário brasileiro é um retrato das engrenagens de negligência operadas nas prisões do país, em um sistema que mói existências e é especialmente cruel contra mulheres.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Entre 2016 e 2019, Tanaka, ou Lulu, como foi carinhosamente apelidada devido ao sobrenome Luanda, chamava de “senhoras” as outras mulheres brasileiras, angolanas, cabo-verdianas e peruanas, a quem descrevia como “bonitas”.</p>
<p class="wp-block-paragraph"> “Adoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o período que passo aqui vale o meu tempo”, anotou em um dos encontros do projeto coletivo <em>Mulheres possíveis — corpo, gênero e encarceramento </em>voltado a reeducandas do sistema penitenciário. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Este projeto traz à tona a mulher, a criança e a artista em mim. É realmente um prazer estar aqui com vocês, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias. Quando nos encontramos, para mim é uma libertação mental da prisão, apesar de eu ainda estar nela”, registrou. Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu “novas habilidades”, que fez “um pouco de exercício” e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor “sobre o corpo feminino” e “sobre o Brasil e sua maneira de sobreviver”. </p>
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“Hoje eu tinha tanto em que pensar”, escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de número 81. &#13;<br />
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“Uma cela é um quarto quadrado de 2&#215;2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que às 6 da tarde deve estar trancada e aberta às 7 ou 8 horas da manhã de um sábado. Tem um vaso sanitário e um banheiro bem pequeno.&#13;<br />
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<p>&#13;<br />
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Tem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Também tem duas janelas bem gradeadas, então, ao menos você pode ter um pouco de ar para respirar. Quanto a mim, prefiro ficar na cela. &#13;<br />
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<p>&#13;<br />
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Por quê? Porque quando eu estou lá dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.”&#13;<br />
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<p>&#8220;Adoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o período que passo aqui vale o meu tempo&#8221;, anotou em um dos encontros do projeto coletivo Mulheres possíveis — corpo, gênero e encarceramento voltado a reeducandas do sistema penitenciário.&#13;</p>
<p>&#8220;Este projeto traz à tona a mulher, a criança e a artista em mim. É realmente um prazer estar aqui com vocês, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias.&#8221;
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<p>&#8220;Quando nos encontramos, para mim é uma libertação mental da prisão, apesar de eu ainda estar nela&#8221;, registrou.</p>
<p>Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu &#8220;novas habilidades&#8221;, que fez &#8220;um pouco de exercício&#8221; e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor &#8220;sobre o corpo feminino&#8221; e &#8220;sobre o Brasil e sua maneira de sobreviver&#8221;.
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<p>&#8220;Hoje eu tinha tanto em que pensar&#8221;, escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de número 81.
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“Uma cela é um quarto quadrado de 2&#215;2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que às 6 da tarde deve estar trancada e aberta às 7 ou 8 horas da manhã de um sábado. Tem um vaso sanitário e um banheiro bem pequeno.&#13;
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Tem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Também tem duas janelas bem gradeadas, então, ao menos você pode ter um pouco de ar para respirar.”&#13;
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Quanto a mim, prefiro ficar na cela.&#13;<br />
Por quê? Porque quando eu estou lá dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.”&#13;<br />
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<h2 class="wp-block-heading">A autoridade de um diamante “bruto”</h2>
<p class="wp-block-paragraph">“Ela acabou virando uma referência lá dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras”, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impressão de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande coração, além de ser generosa e acolhedora. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento”, conta Lopes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilhão das estrangeiras da PFC e também relembra as primeiras impressões. Ela conta que levou alguns meses até que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda português, e se aproximaram pelo inglês.</p>
<p>		Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Era uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.” Em 2013, com a progressão ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente após ser solta, em 2015.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilhão das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido “a Tanaka de verdade, não a Tanaka de fachada”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Quando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de não saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria”, conta Sophie. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A ex-colega de cela diz que Lulu “era como um diamante”. “Para ver todas as faces do diamante, é preciso girar a peça. Lulu era assim, tinha autoridade natural”, recorda. “Extremamente generosa, impaciente, às vezes, insegura. Quem não a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e já resolvia o problema”, diz a amiga.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do cárcere. “Ela era minha mãe lá dentro”, diz, acrescentando que havia até planos de as duas abrirem um negócio de costura em sociedade quando estivessem fora da prisão. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Um dos sonhos dela era abrir um negócio de costura comigo e com outra colega, que a gente é costureira, né? Ela também queria comprar uma casa e voltar ao país dela para conhecer os netinhos”, detalha a amiga já em liberdade.</p>
<h2 class="wp-block-heading">A autoridade de um diamante “bruto”</h2>
<p class="wp-block-paragraph">“Ela acabou virando uma referência lá dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras”, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impressão de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande coração, além de ser generosa e acolhedora. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento”, conta Lopes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilhão das estrangeiras da PFC e também relembra as primeiras impressões. Ela conta que levou alguns meses até que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda português, e se aproximaram pelo inglês.</p>
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<p>		Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Era uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.” Em 2013, com a progressão ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente após ser solta, em 2015.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilhão das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido “a Tanaka de verdade, não a Tanaka de fachada”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Quando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de não saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria”, conta Sophie.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A ex-colega de cela diz que Lulu “era como um diamante”. “Para ver todas as faces do diamante, é preciso girar a peça. Lulu era assim, tinha autoridade natural”, recorda. “Extremamente generosa, impaciente, às vezes, insegura. Quem não a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e já resolvia o problema”, diz a amiga.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do cárcere. “Ela era minha mãe lá dentro”, diz, acrescentando que havia até planos de as duas abrirem um negócio de costura em sociedade quando estivessem fora da prisão.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Um dos sonhos dela era abrir um negócio de costura comigo e com outra colega, que a gente é costureira, né? Ela também queria comprar uma casa e voltar ao país dela para conhecer os netinhos”, detalha a amiga já em liberdade.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="878" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302158_660_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C878&#038;ssl=1" alt="Página do livro " mulheres="" poss="" em="" que="" tanaka="" luanda="" participa="" e="" tenta="" definir="" o="" seria="" substantivo="" carta="" class="wp-image-251833"  /></p>
<p>		Página do livro “Mulheres Possíveis” em que Tanaka Luanda participa e tenta definir o que seria o substantivo carta</p>
<h2 class="wp-block-heading">Geografia de uma solidão continental</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Sobre uma foto sua que integra o livro <em>Mulheres possíveis</em>, Tanaka descreveu o substantivo sobre o qual parecia ter se tornado especialista: “Carta — substantivo feminino, conversa prolongada no tempo-espaço, pertence ao grupo de objetos ‘espelho’ cujo conteúdo transborda o continente, pode conter pessoas, lembranças, relatos, conselhos, mistérios, imagens, objetos, fragmentos (de si e do outro), aproximações e rompimentos; une dois pontos no espaço; pressupõe o desapego daquilo que se deixa dentro; objeto de manutenção de vínculo; e registro no papel daquilo que se sente e pensa”. </p>
<p style="margin: 0 0 16px 0;">&#13;<br />
Lulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela distância dos filhos e pelas restrições do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas famílias no exterior.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
As mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com música e dança se sentia conectada à família e à própria alma. “Eu uso música para curar minha alma”.&#13;
</p>
<p style="margin: 0 0 16px 0;">&#13;<br />
Apenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenciário nacional.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
Até então, as reeducandas estrangeiras viviam uma espécie de exílio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma punição que vai muito além da privação de liberdade.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
Sem família no país, a maioria das reeducandas estrangeiras têm dificuldades de acesso ao “jumbo”, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes têm permissão de levar em dias de visita. Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
O jumbo cumpre a função de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco após as 16h e o café da manhã no início da manhã seguinte, muitas vezes impondo longos períodos de jejum forçado.&#13;
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Lulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela distância dos filhos e pelas restrições do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas famílias no exterior.&#13;<br />
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As mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com música e dança se sentia conectada à família e à própria alma. “Eu uso música para curar minha alma”.&#13;<br />
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Apenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenciário nacional.&#13;<br />
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Até então, as reeducandas estrangeiras viviam uma espécie de exílio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma punição que vai muito além da privação de liberdade.&#13;<br />
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<p class="wp-block-paragraph">Sem família no país, a maioria das reeducandas estrangeiras têm dificuldades de acesso ao “jumbo”, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes têm permissão de levar em dias de visita. Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O jumbo cumpre a função de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco após as 16h e o café da manhã no início da manhã seguinte, muitas vezes impondo longos períodos de jejum forçado.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="450" height="600" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpeg?resize=450%2C600&#038;ssl=1" alt="Entre as atividades propostas em oficiais com reeducandas estava a confecção de cartas para que as mulheres pudessem se expressar livremente" class="wp-image-251835"  /></p>
<p>		Entre as atividades propostas em oficiais com reeducandas estava a confecção de cartas para que as mulheres pudessem se expressar livremente</p>
<p class="wp-block-paragraph">A ex-reeducanda cabo-verdiana Tânia* conta que o tamanho dessa solidão depende de uma variável: ter ou não um consulado em funcionamento. “O suporte consular é um privilégio até para as brasileiras dentro da cadeia. Ser uma estrangeira sem apoio consular torna-se mais complicado e difícil”, explica. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo ela, assessores ou secretárias executivas de alguns consulados visitam a unidade prisional para entregar produtos de higiene, comida e roupas; em outros, vão a cada dois ou três meses. Em alguns casos, intermedia o contato com advogados e o repasse de dinheiro da família, depositado na folha prisional. “Eles averiguam o teu processo. Você já sabe que, com o suporte consular por trás, não é muito humilhada”, diz a mulher, hoje em liberdade e de volta ao país africano.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Uma pesquisa realizada pelo World Female Imprisonment List, divulgada em 2023, revelou que o Brasil possui, atualmente, a terceira maior população carcerária feminina do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O país apresentou um crescimento exponencial, ao quadruplicar o número de mulheres encarceradas em 20 anos, chegando a cerca de 33.488 até dezembro de 2025, das quais 34% estão na chamada “prisão provisória”, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Longe do paraíso</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Para Tanaka, a prisão era “o inferno de verdade”. Em uma mensagem mais soturna, ela descreve: “Você não pode nem mesmo falar em paz com outra prisioneira em outro pavilhão, esses guardas gritariam com você como uma criança, ou eles ouviriam o que estamos dizendo e, mais tarde, viriam para dar <em>blitz</em> em sua cela. Ontem à noite eles vieram à minha cela para procurar um telefone, tudo porque eu estava dando à minha colega de país uma mensagem que veio para ela através do meu e-mail – e o que piorou a situação foi a minha maneira de falar [português]”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O registro de Tanaka reforça o que revelam os dados divulgados em 2023 pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), que atua na defesa dos direitos de mulheres migrantes em conflito com a lei, a respeito de a barreira do idioma aprofundar o abismo comunicacional no sistema penitenciário: cerca de 9% das mulheres atendidas entre 2008 e 2018 não falavam espanhol, inglês ou português. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A comunicação e o acesso a direitos básicos, como o acompanhamento de seus processos judiciais, dependem frequentemente de traduções improvisadas feitas por outras reeducandas. Era o que Tanaka fazia para ajudar outras detentas. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Lulu desabafa: “Cara, esse lugar é muito confuso. Agora eles querem tirar seus direitos de falar com uma companheira presa. Eu estava tão brava, mas eu tinha que permitir que eles fizessem o trabalho. Depois eu limpo a bagunça. Nunca fui para a cama depois da 1 da manhã. Tudo começou às 17h41 de sábado à tarde, 21-07, mas enquanto eu estiver na cela 81, os guardas nunca encontrarão nada que me leve ao castigo, em nome do Senhor que eu sirvo. Deixem-me em paz”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo o ITTC, o racismo institucional também atua como uma engrenagem central nesse sistema: entre 351 mulheres migrantes da América Latina e do Caribe, 71% se autodeclararam não brancas, como Tanaka. A análise dos dados da organização demonstra que mulheres negras e indígenas tendem a receber penas mais altas do que mulheres brancas e amarelas, ainda que possuam perfis e experiências semelhantes.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" id="251805" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302160_751_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=740%2C523&#038;ssl=1" alt="Ilustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida" width="740" height="523" class="image-compare__image-before"/><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" id="251806" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302161_403_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=740%2C522&#038;ssl=1" alt="Ilustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida" width="740" height="522" class="image-compare__image-after"/>Ilustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida. Todas as ilustrações desta reportagem são de autoria de Tanaka Luanda</p>
<h2 class="wp-block-heading">Liberdade ao alcance das mãos</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka cumpriu todos os requisitos objetivos e subjetivos, ostentava bom comportamento e possuía registro de trabalho externo. Em 2024, no dia 11 de dezembro, recebeu parecer do Ministério Público favorável à progressão para o regime aberto. No papel, o Estado reconheceu que estaria pronta retornar ao convívio social após 12 anos.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="853" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_524_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C853&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251811"  /></p>
<p>		Tanaka aproveitava as saidinhas temporárias para buscar médicos em busca de solução para sua condição de saúde e sempre voltou ao presídio no prazo esperado</p>
<p class="wp-block-paragraph">Quase dois anos após chegar ao Brasil, Tanaka foi capturada em uma operação da Polícia Federal (PF), no aeroporto de Guarulhos, em 14 de fevereiro de 2012. A ação desmantelou um grupo criminoso que usava “mulas” para transportar cocaína para a Europa. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka começou transportando drogas no próprio corpo. Com o passar do tempo, ganhou confiança dos chefes e passou a preparar outras mulheres para a mesma função. Ocupava um cargo baixo na hierarquia da organização, mas foi condenada por tráfico internacional de entorpecentes, o que lhe rendeu uma pena severa: 24 anos de prisão em regime fechado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Durante mais de uma década encarcerada, trabalhou incansavelmente no sistema — chegou a atuar na montagem de caixas de panetone para uma grande marca alimentícia —, estudou, fez cursos profissionalizantes e manteve um histórico irretocável de bom comportamento. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Aprendeu a falar português e, com essa habilidade somada ao seu carisma, tornou-se uma liderança entre as outras presas estrangeiras. Por isso, aquele parecer do MP era tão desejado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka havia acertado as contas com seu passado. </p>
<h2 class="wp-block-heading">Burocracia íntima e impessoal</h2>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_118_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-252050"  /></p>
<p>		Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progressão de pena concedido em dezembro de 2024, após meses de luta por saúde lidando com um mioma</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka já cumpria pena no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Feminina de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar à sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal contínuo e dores abdominais intensas. Desde o início do cumprimento da pena seu prontuário médico já registrava a presença de um mioma uterino, doença que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que é de três a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas saídas temporárias a que passou a ter direito, Tanaka procurou médicos particulares e comprou os remédios com o próprio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na prisão. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: “Como a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais próxima, a gente não dormia, de tanto que ela gemia”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em janeiro de 2024, durante uma saída temporária de fim de ano, um médico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do útero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Brasília e somente após pressão diplomática, uma cirurgia foi agendada no Sistema Único de Saúde (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Naquela mesma noite, no entanto, funcionários do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia não havia sido realizada, devido a uma “diferença”, não especificada, no exame pré-operatório. Segundo a equipe médica, o contato com o advogado se deu porque ninguém conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao presídio. “Como assim? Você tá achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo número do presídio que eu tenho é o de vocês”, respondeu Lucas Lopes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que se seguiu foi um labirinto burocrático de petições ignoradas e prazos descumpridos. Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz Hélio Narváez, responsável pela execução penal. O magistrado proferiu um despacho padrão que, na especificidade do juridiquês, não dialogava com a urgência do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o presídio responder. O prazo expirou sem qualquer manifestação.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifestação. Apenas 26 dias após o primeiro pedido de urgência, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia oncótica havia apresentado alterações e que um novo exame seria agendado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A defesa, alarmada com a falta de transparência, pediu acesso imediato ao prontuário completo, aos exames detalhados e à lista de medicamentos que seriam fornecidos à detenta. O Ministério Público concordou com a pertinência do pedido. O juiz Narváez, no entanto, mandou arquivar a solicitação. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Este juízo não se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terapêuticas e medicinais a que a pessoa presa é submetida”, decidiu. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decisão de Narváez.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_804_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251815"  /></p>
<p>		Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Agência Pública procurou o juiz Narváez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele não se manifestaria: “Os magistrados têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independência é uma garantia do próprio Estado de Direito. Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma saída temporária, ela comprou novamente, com seus próprios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada há mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padrão: 15 dias para resposta do presídio. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 31 de outubro de 2024, diante do silêncio da unidade prisional e da juntada de um ofício de cobrança enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: “Ciente. Aguarde-se resposta”. O presídio nunca respondeu à determinação judicial.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A cirurgia foi feita com médico particular, apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em São Paulo. Dois dias depois, num sábado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao presídio, recebeu uma recomendação taxativa: “Sinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorrência”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Lulu usou recursos próprios para buscar saúde, o que nem Justiça nem sistema penitenciário lhe garantiram. Após meses de dor, um novo capítulo se desenhava com o regime aberto à vista.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="429" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_291_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C429&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251820"  /></p>
<p>		Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos</p>
<h2 class="wp-block-heading">Burocracia íntima e impessoal </h2>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_118_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-252050"  /></p>
<p>		Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progressão de pena concedido em dezembro de 2024, após meses de luta por saúde lidando com um mioma</p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka já cumpria pena no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Feminina de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar à sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal contínuo e dores abdominais intensas. Desde o início do cumprimento da pena seu prontuário médico já registrava a presença de um mioma uterino, doença que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que é de três a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).</p>
<p class="wp-block-paragraph">Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas saídas temporárias a que passou a ter direito, Tanaka procurou médicos particulares e comprou os remédios com o próprio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na prisão. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: “Como a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais próxima, a gente não dormia, de tanto que ela gemia”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em janeiro de 2024, durante uma saída temporária de fim de ano, um médico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do útero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Brasília e somente após pressão diplomática, uma cirurgia foi agendada no Sistema Único de Saúde (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Naquela mesma noite, no entanto, funcionários do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia não havia sido realizada, devido a uma “diferença”, não especificada, no exame pré-operatório. Segundo a equipe médica, o contato com o advogado se deu porque ninguém conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao presídio. “Como assim? Você tá achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo número do presídio que eu tenho é o de vocês”, respondeu Lucas Lopes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O que se seguiu foi um labirinto burocrático de petições ignoradas e prazos descumpridos. Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz Hélio Narváez, responsável pela execução penal. O magistrado proferiu um despacho padrão que, na especificidade do juridiquês, não dialogava com a urgência do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o presídio responder. O prazo expirou sem qualquer manifestação.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifestação. Apenas 26 dias após o primeiro pedido de urgência, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia oncótica havia apresentado alterações e que um novo exame seria agendado.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A defesa, alarmada com a falta de transparência, pediu acesso imediato ao prontuário completo, aos exames detalhados e à lista de medicamentos que seriam fornecidos à detenta. O Ministério Público concordou com a pertinência do pedido. O juiz Narváez, no entanto, mandou arquivar a solicitação. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Este juízo não se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terapêuticas e medicinais a que a pessoa presa é submetida”, decidiu. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decisão de Narváez.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="427" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_804_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251815"  /></p>
<p>		Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Agência Pública procurou o juiz Narváez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele não se manifestaria: “Os magistrados têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independência é uma garantia do próprio Estado de Direito. Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma saída temporária, ela comprou novamente, com seus próprios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada há mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padrão: 15 dias para resposta do presídio. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 31 de outubro de 2024, diante do silêncio da unidade prisional e da juntada de um ofício de cobrança enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: “Ciente. Aguarde-se resposta”. O presídio nunca respondeu à determinação judicial.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A cirurgia foi feita com médico particular, apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em São Paulo. Dois dias depois, num sábado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao presídio, recebeu uma recomendação taxativa: “Sinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorrência”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Lulu usou recursos próprios para buscar saúde, o que nem Justiça nem sistema penitenciário lhe garantiram. Após meses de dor, um novo capítulo se desenhava com o regime aberto à vista.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="429" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_291_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C429&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251820"  /></p>
<h2 class="wp-block-heading">“Desculpa, obrigado, meninas”</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Era 9 de dezembro de 2024, uma segunda-feira, quando as dores pós-cirúrgicas começaram a se manifestar. Tânia, que dividia a cela com ela, conta ter ouvido as primeiras queixas ainda no almoço. “Perguntei se era dor de barriga ou na cicatriz. Falou que era por dentro”, recorda. No dia seguinte, a guianense foi até a enfermaria; a auxiliar de saúde de plantão entregou remédio para gases, atribuindo o desconforto ao pós-operatório. No mesmo dia 10, o quadro se agravou.</p>
<p class="wp-block-paragraph"> “Ela passou muito mal, mencionando que sentia uma bola de fogo dentro dela, que queimava por dentro, transpirava muito e que a pressão estava muito baixa”, relatou outra presa, testemunha do sofrimento. A solução adotada pela chefia de plantão do presídio, segundo depoimento oficial prestado em uma sindicância interna instaurada pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), foi oferecer um prato de sopa à Lulu, que agonizava.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Os relatos de ao menos quatro colegas de cela, obtidos pela Pública, que acompanharam de perto o calvário pós-cirúrgico de Tanaka, afirmam que houve negligência. “Passaram, acho, só diclofenaco e dipirona. Ela reclamava de dor. Já tinha febre. Falaram para ela que eram gases, que era para ela ficar andando”, diz Tânia, que insistiu com a chefia do plantão por socorro. “A agente respondeu que era frescura, que a cirurgia tinha corrido bem, que a enfermaria já tinha dado remédio para gases”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A agente em questão, segundo o depoimento de Tânia, foi quem mandou que a cozinha preparasse uma sopa para a presa, sob a hipótese de que o problema pudesse ser gastrite. “Só que, quando ela terminou de comer a sopa, vomitou. E a dor só aumentava”. Lulu não foi encaminhada ao hospital, e já sem conseguir andar, foi levada à enfermaria do próprio presídio.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“De terça para quarta, a gente chamando ajuda, falando que ela estava ruim, e ela falando: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer. Eu tô com muita dor’”, recorda Paula. “A gente chamou ajuda para tirar ela dali, porque ela estava sofrendo: vomitava, gritava, arregalava os olhos de tanta dor, e a gente não podia fazer nada.”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Às 22h55, mais de 24 horas após o início das dores intensas relatadas no prontuário, Tanaka deu entrada no Hospital Municipal Tide Setúbal. O detalhe mais perverso é que o hospital fica, literalmente, parede a parede com o presídio, dividindo o mesmo muro na zona leste de São Paulo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Paula relembra a cena emocionada. “Ela só queria ficar comigo, segurando a minha mão. Ela dizia: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer.’ Aí teve uma hora em que ela falava bem assim: ‘Obrigado, meninas, desculpa, obrigado, meninas’”, diz a amiga, que carregou Tanaka até o carro que a levaria, enfim, ao hospital. “Eu falei: ‘Tchau, Tanaka, fica com Deus, tá?’ e nunca mais a vi.”</p>
<p class="wp-block-paragraph">No dia seguinte, 11 de dezembro, alheio à tragédia que se desenrolava na UTI do hospital vizinho ao presídio, o parecer favorável à progressão de Tanaka ao regime aberto foi emitido pelo Ministério Público. À 1h de 12 de dezembro, Lulu morreu, aos 47 anos. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O laudo pericial do Instituto Médico Legal (IML) apontou como causa mortis “sepse generalizada e necrose mesentérica”, uma infecção generalizada letal que tomou conta do seu corpo após a cirurgia pela qual ela e seu advogado tanto batalharam.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A notícia chegou tarde à unidade prisional, que à época tinha na direção Nivia Claudia Firmo Pedro. “Era quase onze horas da manhã quando informaram que Tanaka tinha morrido à meia-noite. Para o senhor ver que eles não tinham nem dignidade para respeitar a nossa dor”, reclama Tânia. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Naquele dia, quatro ou cinco estrangeiras africanas foram à enfermaria com a pressão arterial elevada, transtornadas com a morte da amiga guianense. O luto estava apenas começando. De sua casa, por mensagem de uma amiga em comum, Sophie Marie soube logo cedo da tragédia. “Mandei uma mensagem perguntando como ela estava e a resposta veio: ‘A Lulu morreu, a Lulu morreu’. Eu dei um grito.”</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="878" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_744_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C878&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251824"  /></p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="878" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1780302162_744_vida-morte-reparacao-e-justica-na-prisao.jpg?resize=640%2C878&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251824"  /></p>
<p class="wp-block-paragraph">e</p>
<h2 class="wp-block-heading has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-44155e477a42bde5c1e310b926152652">A dois dias da liberdade</h2>
<p class="has-central-palette-3-color has-text-color has-link-color wp-elements-89d2ea4c1c183819da8c8d545c5689bd wp-block-paragraph">O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de São Paulo até Boa Vista. De lá, a viagem seguiu até a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, país de origem de Lulu. </p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-ee30060d598d646d40bcac45ce16d2e1 wp-block-paragraph">Do outro lado da linha imaginária que divide as duas nações, uma funerária guianesa já a aguardava para a viagem final até a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade logística e financeira, só foi possível porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha. </p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-a9313906829d5674755b80a739175078 wp-block-paragraph">O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esforço, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento. </p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-09a3c47dc1ad9da5f209c465d8b222c5 wp-block-paragraph">A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do presídio. Durante três dias, ela angariou contribuições de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu até o último momento, mas a pressão do consulado guianês viabilizou a viagem de retorno. </p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-775f7e20defea4468545b6cb17393f40 wp-block-paragraph">Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de São Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do presídio.</p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-cc234a02be9b916429049fa60cab9109 wp-block-paragraph">O enterro, realizado a milhares de quilômetros do presídio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para trás no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.</p>
<p class="has-central-palette-3-color has-text-color has-link-color wp-elements-3edec3b0b02c46d1cd2e97779525ec10 wp-block-paragraph">Na Guiana, o caçula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decisão de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, é um promissor tenista da seleção nacional de seu país. O grande desejo da mãe era, ao sair em regime aberto, trabalhar para trazê-lo a São Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente. </p>
<p class="has-central-palette-6-color has-text-color has-link-color wp-elements-966e3f7ac8986f09954196415c7ba67f wp-block-paragraph">O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital público, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos últimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o presídio.</p>
<h2 class="wp-block-heading">A dois dias da liberdade</h2>
<p class="wp-block-paragraph">O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de São Paulo até Boa Vista. De lá, a viagem seguiu até a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, país de origem de Lulu. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Do outro lado da linha imaginária que divide as duas nações, uma funerária guianesa já a aguardava para a viagem final até a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade logística e financeira, só foi possível porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esforço, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento. </p>
<p class="wp-block-paragraph">A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do presídio. Durante três dias, ela angariou contribuições de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu até o último momento, mas a pressão do consulado guianês viabilizou a viagem de retorno. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de São Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do presídio.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O enterro, realizado a milhares de quilômetros do presídio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para trás no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na Guiana, o caçula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decisão de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, é um promissor tenista da seleção nacional de seu país. O grande desejo da mãe era, ao sair em regime aberto, trabalhar para trazê-lo a São Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital público, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos últimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o presídio.</p>
<p style="margin: 0 0 16px 0;">&#13;<br />
Na sindicância administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcionárias ouvidas declararam formalmente que “não houve omissão de socorro”.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
No entanto, a leitura atenta dos próprios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas, que a recomendação médica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores.&#13;
</p>
<p style="margin: 0 0 16px 0;">&#13;<br />
e que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro.&#13;
</p>
<p style="margin: 0;">&#13;<br />
Além disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condição de anonimato questionam a sindicância da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcionárias, que insistiam em diagnosticar a dor pós-cirúrgica como “gases” e as repreendiam pelos apelos de socorro à colega.&#13;
</p>
<p></p>
<p>&#13;<br />
&#13;<br />
&#13;<br />
Tânia afirma que não foi chamada a depor na sindicância e é categórica: “foi omissão de socorro, sim, da parte da chefe de plantão e da penitenciária”. Para ela, a morte de Lulu tem cor. “Continuo a falar: ela morreu por causa do racismo”.&#13;<br />
&#13;<br />
&#13;
</p>
<p></p>
<p>&#13;<br />
&#13;<br />
&#13;<br />
“Aquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar remédio por conta própria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela”, lembra Paula.&#13;<br />
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<p class="wp-block-paragraph">Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) afirmou que Tanaka “recebeu atendimento de saúde contínuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento clínico, ginecológico e realização de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes médicas” e que o PAD instaurado não apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunicação com familiares, com apoio consular quando necessário e que demandas adicionais são “analisadas caso a caso”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“O que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desproteção”, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de violências de Estado da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. “Houve omissão por parte do Estado na assistência à saúde médica e farmacêutica e até na atenção à dignidade da pessoa humana, uma omissão estrutural e institucional. […] E se o Estado falhou ao negar acesso à saúde, a Justiça também falhou. Por que? Porque a Justiça deve fiscalizar o cumprimento da pena”, afirma.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário e que versa sobre o acesso a ao menos um médico à disposição por unidade prisional como condição mínima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de saúde mental. “Quando se fala em falha, pode-se pensar que é um caso isolado, mas o mais provável é que essa realidade esteja mais para regra que para exceção”, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumanização das pessoas encarceradas, “o que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeducação”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O processo de execução penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvará de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certidão de óbito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio após a sua morte evitável, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Ministério Público para apuração dos crimes de omissão de socorro (artigo 135 do Código Penal) e homicídio culposo (artigo 121, §3º, do CP).</p>
<p class="wp-block-paragraph">A petição assinada pelos advogados Lucas Marques Gonçalves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi reúne as contradições entre os depoimentos prestados na sindicância da SAP, os documentos hospitalares e o sumário de alta da cirurgia.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justiça Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execução Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favorável ao pedido da defesa e requereu à autoridade policial a “apuração de eventual crime”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Dias depois, o juiz Hélio Narváez, o mesmo que conduziu o processo de execução penal desde o primeiro pedido de providências por intervenção médica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instauração de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informações sobre os fatos elencados pela defesa à unidade prisional, a mesma instituição que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Desejo e reparação</h2>
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    Na sindicância administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcionárias ouvidas declararam formalmente que “não houve omissão de socorro”. &#13;<br />
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    No entanto, a leitura atenta dos próprios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas&#13;<br />
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    que a recomendação médica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores&#13;<br />
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    e que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro.&#13;<br />
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<p class="wp-block-paragraph">Além disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condição de anonimato questionam a sindicância da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcionárias, que insistiam em diagnosticar a dor pós-cirúrgica como “gases” e as repreendiam pelos apelos de socorro à colega. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Tânia afirma que não foi chamada a depor na sindicância e é categórica: “foi omissão de socorro, sim, da parte da chefe de plantão e da penitenciária”. Para ela, a morte de Lulu tem cor. “Continuo a falar: ela morreu por causa do racismo”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">“Aquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar remédio por conta própria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela”, lembra Paula.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) afirmou que Tanaka “recebeu atendimento de saúde contínuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento clínico, ginecológico e realização de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes médicas” e que o PAD instaurado não apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunicação com familiares, com apoio consular quando necessário e que demandas adicionais são “analisadas caso a caso”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“O que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desproteção”, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de violências de Estado da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. “Houve omissão por parte do Estado na assistência à saúde médica e farmacêutica e até na atenção à dignidade da pessoa humana, uma omissão estrutural e institucional. […] E se o Estado falhou ao negar acesso à saúde, a Justiça também falhou. Por que? Porque a Justiça deve fiscalizar o cumprimento da pena”, afirma.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário e que versa sobre o acesso a ao menos um médico à disposição por unidade prisional como condição mínima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de saúde mental. “Quando se fala em falha, pode-se pensar que é um caso isolado, mas o mais provável é que essa realidade esteja mais para regra que para exceção”, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumanização das pessoas encarceradas, “o que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeducação”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O processo de execução penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvará de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certidão de óbito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio após a sua morte evitável, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Ministério Público para apuração dos crimes de omissão de socorro (artigo 135 do Código Penal) e homicídio culposo (artigo 121, §3º, do CP).</p>
<p class="wp-block-paragraph">A petição assinada pelos advogados Lucas Marques Gonçalves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi reúne as contradições entre os depoimentos prestados na sindicância da SAP, os documentos hospitalares e o sumário de alta da cirurgia.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justiça Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execução Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favorável ao pedido da defesa e requereu à autoridade policial a “apuração de eventual crime”. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Dias depois, o juiz Hélio Narváez, o mesmo que conduziu o processo de execução penal desde o primeiro pedido de providências por intervenção médica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instauração de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informações sobre os fatos elencados pela defesa à unidade prisional, a mesma instituição que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>ameaças do Senado e as “pegadinhas” do texto aprovado</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/ameacas-do-senado-e-as-pegadinhas-do-texto-aprovado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 15:06:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O fim da escala 6×1, apoiado por 68% dos brasileiros, segundo pesquisa Quaest de 18 de maio, pode estar próximo, mas não está garantido. Mesmo aprovada em dois turnos pelo Plenário da Câmara na noite desta quarta-feira, 27 de maio, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduz a carga horária do trabalhador para 40 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<p class="wp-block-paragraph">O fim da escala 6×1, apoiado por 68% dos brasileiros, segundo pesquisa Quaest de 18 de maio, pode estar próximo, mas não está garantido. Mesmo aprovada em dois turnos pelo Plenário da Câmara na noite desta quarta-feira, 27 de maio, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduz a carga horária do trabalhador para 40 horas semanais, sem corte nos salários, e garante dois dias remunerados de descanso na semana ainda tem desafios para virar lei.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O principal deles, no momento, é a articulação entre representantes do setor empresarial com o Senado Federal. Na Câmara, o parecer do deputado federal Leo Prates (Republicanos-BA), relator da Comissão Especial que discutia o tema na casa legislativa, teve aprovação expressiva. Aprovado pelos membros da comissão por 34 votos favoráveis e 4 contrários, o texto foi colocado para votação no Plenário pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no mesmo dia. A aprovação veio com 472 votos a favor e 22 contra no primeiro turno e 461 a 19 no segundo turno.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Por se tratar de uma Proposta de Emenda à Constituição, o texto terá que ser aprovado também em dois turnos de votação no Senado, com apoio mínimo de três quintos dos parlamentares. Na terça-feira (26), lideranças empresariais se reuniram com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e líderes partidários para discutir a tramitação do tema.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O encontro reforçou a expectativa de que o Senado se torne o principal espaço de pressão por alterações no texto aprovado pela Câmara, especialmente a flexibilização da jornada, a negociação individual e o prazo de transição para adaptação setorial. “Esperamos que o Senado avalie ajustes importantes no texto, sobretudo para garantir uma implementação gradual, sustentável e juridicamente segura, preservando a competitividade dos negócios e os empregos, inclusive das Micro e Pequenas Empresas”, afirma o posicionamento da FecomercioSP enviado à Agência Pública.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A proposta atual já prevê um prazo de transição, considerado pelas entidades empresariais, pequeno. Segundo a PEC, a escala de 5 dias de trabalho com dois dias de descanso remunerado e a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 42 horas semanais, passarão a valer 60 dias após a promulgação da Emenda. Já a redução da jornada de 42 horas para 40 horas semanais, com a manutenção da escala 5×2, ocorre 14 meses após a promulgação e publicação da lei.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A entidade afirma na nota que a proposta está sendo discutida “sem o debate técnico necessário”. “A redução abrupta da jornada, sem medidas de compensação e sem avaliação setorial adequada, pode comprometer a competitividade das empresas e afetar diretamente o emprego formal”, reitera.</p>
<p><h2 class="h5 m-0 fw-bold text-dark text-uppercase">Por que isso importa?</h2>
</p>
<ul class="m-0">
<li>Após a aprovação da PEC em dois turnos pela Câmara Federal, o presidente da Casa, Hugo Motta, afirmou que essa é “a maior mudança para os trabalhadores desde a Constituição de 1988”.</li>
<li>O presidente Lula também se manifestou após a votação e declarou que trabalhará pela aprovação do texto atual no Senado Federal.</li>
</ul>
<h2 class="wp-block-heading">“Pegadinhas” do texto</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Mudanças futuras no texto não são as únicas ameaças à garantia de sossego, pelo menos por dois dias na semana, do trabalhador brasileiro. Isso porque a atual redação da PEC já traz algumas aberturas que podem, no futuro, permitir que essa regra não se aplique a todos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para a diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, embora o texto aprovado da proposta contemple parte importante das reivindicações defendidas pelos movimentos sociais, como a redução da jornada sem corte salarial e a previsão de dois dias de descanso, o texto ainda mantém brechas consideradas preocupantes.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo ela, o dispositivo amplia significativamente o espaço para acordos individuais em temas tradicionalmente protegidos pela legislação trabalhista e pela negociação coletiva. Ainda cria regimes distintos de proteção dentro da própria classe trabalhadora.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A crítica da diretora se dirige, principalmente, à ampliação no texto da PEC da figura do trabalhador “hipersuficiente”, criada pela reforma trabalhista de 2017. “A nossa avaliação é que isso é muito negativo, primeiro porque você divide a classe trabalhadora em estatutos de direito distintos”, diz.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A PEC prevê que trabalhadores com ensino superior e salário mensal acima de duas vezes e meia o teto da Previdência, cerca de R$ 21 mil, poderão negociar individualmente com o patrão regras relacionadas à jornada, como horas extras, pausas e controle de ponto.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Na prática, isso cria uma exceção à redução da jornada defendida pela PEC. Embora o texto fixe oficialmente o limite de 40 horas semanais, segundo Marcolino, parte dos trabalhadores poderá continuar submetida a cargas horárias maiores mesmo após a aprovação da mudança constitucional.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Ainda que sejam trabalhadores com altos salários, eles têm subordinação, são assalariados. Não é porque têm maiores salários e ensino superior que essa assimetria de poder não existe”, argumenta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A flexibilização prevista não se limita apenas à duração da jornada. Pelo texto, negociações individuais também poderão atingir regras relacionadas a pausas para alimentação e descanso, limites de horas extras e formas de compensação da jornada.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A diretora técnica salienta que a regra tem um potencial de fortalecer a discriminação de gênero. Ela afirma que negociações individuais ignoram diferenças históricas que afetam especialmente mulheres em cargos de chefia ou posições estratégicas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“30% desses trabalhadores no Brasil são mulheres”, disse. “E as mulheres na nossa sociedade têm um gap, [uma desigualdade histórica de poder nas relações de trabalho]. Não é porque elas têm ensino superior e ganham R$ 21 mil ou mais, que superaram essa assimetria”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A preocupação envolve também a chamada dupla jornada. Para a diretora, negociações individuais sobre tempo de trabalho podem ampliar pressões para disponibilidade permanente e jornadas mais extensas, sobretudo entre mulheres que acumulam trabalho remunerado e responsabilidades domésticas. “Quando você flexibiliza regras de jornada individualmente, isso não afeta homens e mulheres da mesma forma”, acrescenta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto criticado é a forma como o texto trata os dias de descanso. Embora a proposta tenha ganhado apoio popular associada à escala 5×2, a redação permite que os dois dias de folga sejam concedidos “na média” ao longo do mês, e não necessariamente de maneira consecutiva. “Essa foi uma composição que o relator fez”, explica Marcolino. “O que está no texto é que serão dois dias de descanso semanais, na média, durante um mês”, explica.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A flexibilização surgiu após pressão de empresas que alegaram dificuldade para reorganizar escalas, especialmente em pequenos negócios e setores que funcionam sete dias por semana. A diretora pondera, no entanto, que muitas empresas utilizam a escala 6×1 para operar com menos funcionários e reduzir custos com contratação.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O parecer também cria regras específicas para trabalhadores terceirizados vinculados a contratos com o poder público. Nesses casos, a aplicação da nova jornada poderá depender do aditamento de contratos administrativos já existentes. O argumento apresentado pelo relator é evitar desequilíbrios financeiros em concessões e contratos terceirizados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Para Marcolino, o mecanismo pode atrasar o acesso à redução da jornada justamente de trabalhadores mais precarizados. “Os trabalhadores terceirizados na administração direta, em várias localidades, têm condições de trabalho bastante precarizadas”, ressalta.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Trabalhadores terceirizados ligados a contratos públicos podem se tornar os últimos a acessar as novas regras previstas pela PEC, portanto, porque terão que aguardar os novos contratos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O texto também justifica parte da flexibilização como forma de reduzir a pejotização. A lógica apresentada é que, com maior liberdade contratual, empresas deixariam de contratar trabalhadores como pessoa jurídica para escapar de encargos trabalhistas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Adriana Marcolini contesta essa interpretação. “Os pejotizados não acontecem por iniciativa dos trabalhadores, na grande maioria. Acontecem por iniciativa das empresas”, avalia. Segundo ela, o objetivo continua sendo reduzir custos ligados à folha salarial.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Eduardo Bolsonaro e Go Up tentaram pagar filme via empresa húngara</title>
		<link>https://cliquenoticiasbrasil.com.br/noticias/eduardo-bolsonaro-e-go-up-tentaram-pagar-filme-via-empresa-hungara/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 18:58:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama buscaram uma empresa com braços na Hungria e na Holanda para mover fundos para o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, segundo documentos obtidos e analisados pela Agência Pública. A empresa Go Up chegou a formular uma minuta de contrato com a empresa Freeway Cam B.V [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama buscaram uma empresa com braços na Hungria e na Holanda para mover fundos para o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, segundo documentos obtidos e analisados pela Agência Pública.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A empresa Go Up chegou a formular uma minuta de contrato com a empresa Freeway Cam B.V para que essa servisse como “escrow agent” do filme Dark Horse. Um agente ou conta escrow (ou “conta de custódia”) funciona como uma terceira parte que retém fundos temporariamente em uma negociação e libera o pagamento de acordo com autorização da parte pagante. Geralmente, trata-se de um banco ou instituição financeira, mas na indústria do cinema existem empresas que se especializam em fazer este serviço, pelos altos valores e complexa mecânica de financiamento.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo apuração da Pública junto a fontes que acompanharam as negociações, os produtores da obra buscavam uma maneira de permitir que investidores do filme permanecessem anônimos.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A minuta do contrato, datado de 7 de fevereiro de 2024, tem como partes Eduardo Bolsonaro, descrito como “financiador” do filme e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, como produtora, além da Freeway Cam BV, uma empresa de origem holandesa cujo endereço principal é Budapeste, na Hungria. Trata-se de um adendo a outro contrato de produção, assinado em 30 de janeiro do mesmo ano, autorizando a Freeway a realizar pagamentos ao diretor e roteirista do filme, Cyrus Nowrasteh.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O contrato foi elaborado quando o filme, agora chamado de Dark Horse (“O Azarão”, em tradução livre) ainda tinha o título provisório de “Capitão do Povo”, e não tem assinaturas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A existência do documento foi revelada pelo The Intercept, em reportagem que afirmava que Eduardo teria poder de decisão sobre as verbas para o filme.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Fundada pelo holandês Gadi Wildstrom, a empresa opera na Hungria sob o nome Freeway Entertainment e tem como especialidade “exploração internacional de propriedade intelectual, gestão de ativos de entretenimento e direitos autorais, bem como a coleta, administração e distribuição transparentes, imparciais e seguras das receitas de royalties.”</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo postagens no Linkedin, ela atende diversas produções cinematográficas nomeadas a prêmios como Bafta e Golden Globes. Como outras empresas, a Freeway Entertainment aposta no vibrante mercado do audiovisual na Hungria.</p>
<p>		Trecho do contrato obtido pela Agência Pública que indica que Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama buscaram uma empresa com braços na Hungria e na Holanda</p>
<h2 class="wp-block-heading">Eduardo teria assumido risco de perder investimento</h2>
<p class="wp-block-paragraph">O contrato estabelece que Eduardo “se compromete a financiar parcialmente a produção cinematográfica intitulada ‘Capitão do Povo’, sob a gestão da produtora Go Up Entertainment” e autoriza a Go Up a dar instruções sobre os pagamentos a serem feitos para Cyrus Nowrasteh. Eduardo assumiria, segundo a minuta, risco de perder o investimento se o resto dos fundos para produzir o filme não fossem captados.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O documento traz ainda um diagrama sobre como os contratos de pagamento deveriam ser realizados, até 1 de março de 2024, a partir das autorizações feitas por Eduardo Bolsonaro.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="553" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/1779908289_262_Eduardo-Bolsonaro-e-Go-Up-tentaram-pagar-filme-via-empresa.jpg?resize=640%2C553&#038;ssl=1" alt="Diagrama que ilustra pagamentos são autorizados pelo " financiador="" eduardo="" bolsonaro="" e="" go="" up="" antes="" dos="" contratos="" de="" pagamento="" serem="" fechados="" class="wp-image-251755"  /></p>
<p>		Diagrama ilustra que os pagamentos são autorizados pelo “financiador” Eduardo Bolsonaro antes dos contratos de pagamento serem fechados</p>
<p class="wp-block-paragraph">Outro documento obtido pela Pública indica que a Go Up Entertainment buscou outra entidade ligada ao mesmo grupo, o Freeway Entertainment, para realizar um pagamento no valor de US$ 57,5 mil para o diretor do filme. Trata-se de uma ordem de pagamento, no papel timbrado da Go UP Entertainment. Nela, Karina Ferreira da Gama instrui um agente da empresa de nome “David” a emitir o pagamento a Cyrus Nowrasteh por meio da empresa New Path Pictures Inc, sediada na Califórnia. “Estamos num momento em que estamos prontos para dar seguimento ao pagamento à New Path Pictures Inc. pelos inestimáveis serviços de desenvolvimento de roteiro prestados por Cyrus Nowrasteh”, escreveu ela.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O destinatário da ordem é a Stichting Freeway Custody, uma fundação registrada na Holanda que administra o dinheiro da Freeway Cam B.V.</p>
<p class="wp-block-paragraph">O pedido de pagamento teria sido enviado em 5 de fevereiro de 2023.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Co-CEO da Freeway confirmou contatos mas diz que “declinou”</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Procurado pela Pública, Martijn Meerstadt, co-CEO da Freeway e diretor corporativo da Stichting Freeway Custody, negou ter qualquer relação com Dark Horse, mas confirmou os contatos. “Verifiquei internamente e fui informado que, embora tenhamos sido contatados para prover soluções de partilha de receitas e relatórios para essa produção, nós declinamos da oportunidade. Não temos envolvimento com este projeto e não há nada mais que eu possa declarar”.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="397" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/1779908289_638_Eduardo-Bolsonaro-e-Go-Up-tentaram-pagar-filme-via-empresa.jpg?resize=640%2C397&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251753"  /></p>
<p>		Ordem de pagamento enviada pela Go UP para “David”, um agente trabalhando em nome da fundação Stichting Freeway Custody, ligado ao grupo Freeway Entertainment.</p>
<h2 class="wp-block-heading">Especialistas citam “sinal de alerta” em transação financeira</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Especialistas ouvidos pela Pública sinalizam que a arquitetura do pagamento por meio de outras empresas é um sinal de alerta sobre a transparência das transações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Casey Michel, um reconhecido especialista em paraísos fiscais e sigilo bancário, autor do livro “United States of Oligarchy” (Estados Unidos da Oligarquia, em português), afirmou que “essa não é uma transação de negócios tradicional”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">“Parece um arranjo financeiro montado para propositadamente esconder as origens dos fundos e a identidade do financiador”, disse.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Já Monte Friesner, um operador que chegou a ser condenado por lavar dinheiro e depois trabalhou para a CIA e montou sua própria empresa para orientar corporações sobre como mover verbas em contas offshore, afirma que o uso de uma fundação na Holanda, um paraíso conhecido para sigilo corporativo e bancário, é mesmo um “sinal de alerta”. “A pessoa que enviou o dinheiro não queria deixar um rastro documental, seja por motivos de taxação, porque o dinheiro era sujo, ou porque não queriam que ninguém soubesse que estava envolvida”, afirma Friesner.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo revelações recentes do The Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro fez aportes de R$ 61 milhões para Dark Horse por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos, o Havengate Development Fund LP, com sede no Texas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Eduardo Bolsonaro foi contactado por WhatsApp, mas não respondeu até a publicação. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada se houver um posicionamento.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em um vídeo postado nas redes sociais, Eduardo disse ter investido US$ 50 mil no filme Dark Horse para garantir a contratação do diretor – quantia inferior à que teria sido paga a Cyrus apenas na ordem de pagamento de 2023. O ex-deputado disse, ainda, que recebeu o dinheiro de volta da produtora e que a verba não passou pelo fundo de investimentos Havengate Development Fund LP, onde foram depositados os do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso por fraude.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A Polícia Federal (PF) está investigando se os valores enviados por Vorcaro para o financiamento de Dark Horse foram usados para bancar a vida de Eduardo nos EUA.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Nas suas redes sociais, o ex-deputado afirmou que não teve qualquer papel de gestão no filme. “Nós não somos donos do filme, mas sim os mais de uma dezena de investidores”, escreveu. Disse, ainda, que seu status migratório não permitiria que ele recebesse dinheiro do fundo apoiado por Vorcaro: “o próprio governo americano me puniria”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Karina Gama foi contactada por WhatsApp e não retornou até a publicação. O agente David Zanoni, consultor da Freeway para os Estados Unidos que trabalha a partir do México, foi procurado por telefone, pelo Linkedin e por e-mail e não retornou os contatos. </p>
<p class="wp-block-paragraph">O diretor Cyrus Nowrasteh foi contactado por e-mail e não respondeu até a publicação. O espaço segue aberto.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="360" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/1779908289_941_Eduardo-Bolsonaro-e-Go-Up-tentaram-pagar-filme-via-empresa.jpg?resize=640%2C360&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251771"  /></p>
<p>		Cyrus Nowrasteh (à direita), Mário Frias (ao centro) e o ator que interpreta Bolsonaro (à esquerda) em cena do filme Dark Horse</p>
<h2 class="wp-block-heading">Freeway Entertainment e TMF Group</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Estabelecida desde 2001 na Holanda, o grupo Freeway Entertainment tem uma trajetória de apoiar financeiramente empreendimentos cinematográficos. Seu consultor para os Estados Unidos, David Zannoni, opera desde Quintana Roo, estado onde fica a cidade turística de Cancún, no Caribe mexicano.</p>
<p class="wp-block-paragraph">David foi procurado por telefone pela reportagem, mas não foi localizado. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Além de atuar na Hungria, a Freeway Entertainment chegou a ter um CNPJ no Brasil e ser registrada na Agência Nacional do Cinema (Ancine). O nome da empresa no Brasil era Freeway Entertainment KFT, mas a descrição da área de atuação é diferente dos serviços prestados pela matriz: estava registrada em maio de 2008 como empresa especializada no “comércio atacadista de livros, jornais e outras publicações”. O registro foi suspenso em outubro de 2021.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo levantamento da Pública, a empresa no Brasil chegou a participar da produção do filme Cão Sem Dono, com direção de Beto Brant e Renato Ciasca, lançado em 2007.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A maioria das ações do grupo Freeway Entertainment e da empresa Freeway Cam B.V. (60%), pertence ao grupo TMF Group BV, uma multinacional holandesa que trabalha com soluções financeiras e oferece abertura de contas offshore. De acordo com seu relatório anual de 2025, o grupo TMF controla nove subsidiárias no Brasil e foi multado diversas vezes pelos reguladores holandeses e pelo Banco Central da Holanda por falhas no processo de “due diligence”, ou seja, checagem sobre a idoneidade dos seus clientes, e por falhas na prevenção à lavagem de dinheiro. A TMF também apareceu nos Paradise Papers, onde foi revelado que ela controla um trust constituído em Malta.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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		<title>Líder neonazista da Escandinávia vive livre no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação CNB]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 14:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Clique Notícias Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cnb]]></category>
		<category><![CDATA[Manaus]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Criar uma colônia de supremacistas brancos e nazistas em Santa Catarina e, a partir de uma rede online, instigar ataques terroristas, tendo como alvos judeus e negros. Estes eram os objetivos de Vincent Alexander Pacheco Weidlich. Filho de mãe brasileira e pai alemão, nascido nos Estados Unidos, o homem de 36 anos foi preso pela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="wp-block-paragraph">Criar uma colônia de supremacistas brancos e nazistas em Santa Catarina e, a partir de uma rede online, instigar ataques terroristas, tendo como alvos judeus e negros. Estes eram os objetivos de Vincent Alexander Pacheco Weidlich. Filho de mãe brasileira e pai alemão, nascido nos Estados Unidos, o homem de 36 anos foi preso pela Polícia Federal em Blumenau (SC), no fim de 2024, e condenado, em setembro de 2025, pela Justiça Federal, sob a acusação de terrorismo e incitação ao genocídio por meio da veiculação de material relacionado ao nazismo e ao discurso de ódio. Mas, menos de um ano depois, foi solto e segue em liberdade, em São Paulo. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Naquele ano, a partir de uma denúncia no TikTok, a Polícia Federal interceptou publicações na rede social e grupos nas plataformas de mensagem Telegram e Signal em que ele convocava atos terroristas para o dia 16 de outubro – mesma data em que Adolf Hitler faz seu primeiro discurso público em uma reunião política e em que dez dos principais líderes nazistas foram executados após os Julgamentos de Nuremberg. </p>
<p class="wp-block-paragraph">De acordo com os documentos processuais aos quais a Agência Pública teve acesso, os alvos dos atentados convocados por Weidlich seriam grandes bancos, corporações de mídia e diversas empresas, além de sinagogas e mesquitas, “com vistas a propagar terror social e generalizado”, conforme destacou um dos documentos do processo judicial. Tudo isso teria como pano de fundo uma suposta revolução neonazista. “Vamos fazer deste um dia inesquecível”, afirmava ele nos grupos de mensagem. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Os grupos mantidos pelo neonazista reuniam pelo menos 140 pessoas de vários estados brasileiros e até de outros países, como Alemanha, Suécia, Rússia e Estados Unidos. Ele se apresentava como um facilitador, oferecendo meios para aquisição de armas e também arquivos ensinando como fazer bombas. Segundo as investigações da PF, Weidlich operava ao menos dois perfis no TikTok para divulgar seus planos de criar a colônia neonazista e cooptar membros para grupos no Signal e no Telegram. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Os dados levantados pela polícia apontam conexões diretas de números de celular e de IPs vinculados a Weidlich com a criação de ao menos dois perfis no TikTok, entre agosto e setembro de 2024, em que ele publicava supostas receitas de um possível explosivo caseiro com a mistura de diversos produtos químicos – um dos números cadastrados estava registrado justamente no endereço que ele apresentou à Justiça Federal em 2023 como sua residência, para justificar seu pedido de nacionalidade brasileira. </p>
<p class="wp-block-paragraph">Um dos grupos, no Telegram, segundo o processo, era intitulado “Black Sun Rising Militia”. O Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao movimento neonazista e ornava a sede da SS (Schutzstaffel/Esquadrão de Proteção), organização paramilitar e polícia política do regime nazista. Todos os grupos foram extintos após a prisão dele, segundo a polícia.</p>
<p>		<em>Publicação na rede social Instagram do perfil “Black Sun Rising Militia”; o Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao movimento neonazista</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">A PF fez buscas em um endereço ligado a Weidlich em São Paulo e encontrou uma máscara de gás, além de diversos materiais químicos que, de acordo com as investigações, poderiam ser utilizados para fazer bombas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Segundo os documentos, após a detenção em Santa Catarina, Weidlich passou pouco mais de um ano recolhido, entre um Centro de Detenção Prisional e o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Doutor Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Em 5 de fevereiro deste ano, ele foi liberado pela Justiça de São Paulo, após cumprir período de internação em um hospital psiquiátrico. “Em outras palavras, embora tenha cometido o crime, a falta de culpabilidade exclui a reprovabilidade da conduta”, registrou o juiz federal Marcelo Duarte da Silva. No dia 20 de fevereiro, já em liberdade, ele requisitou liberação de viagem para deixar o Brasil. Além do passaporte alemão, Weidlich também tem documentos norte-americanos e, desde 2023, a cidadania brasileira, que foi concedida também pela Justiça Federal.</p>
<p><h2 class="h5 m-0 fw-bold text-dark text-uppercase">Por que isso importa?</h2>
</p>
<ul class="m-0">
<li>Weidlich mantinha grupos e perfis em plataformas como Signal e TikTok, com participantes de vários estados brasileiros e de outros países, onde convocava atos terroristas em bancos, sinagogas e mesquitas;</li>
<li>Apontado como um dos principais articuladores do movimento neonazista da Escandinávia, ele foi preso em Blumenau (SC), mas solto pouco tempo depois por alegação de insanidade mental. Agora, vive em São Paulo, onde aguarda liberação para sair do Brasil.</li>
</ul>
<h2 class="wp-block-heading">Colônia supremacista</h2>
<p class="wp-block-paragraph">No dia 21 de fevereiro de 2024, Weidlich lançou a seguinte proposta em um grupo do Telegram: “E se começarmos uma espécie de cidade nossa, como conseguir empregos/comprar terras/casas em uma cidade específica que já existe? Eu tive uma ideia parecida antes de começar uma micronação dentro da Noruega, mas isso não funcionou por causa dos ‘judeus’, pelo menos por enquanto. E Blumenau no Brasil?”. A ideia seria direcionada a “ultratradicionalistas, nacional-socialistas, nórdicos, germânicos e eslavos do oeste” – em suma, códigos para supremacistas brancos e neonazistas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">No Google Maps, um perfil vinculado a ele chegou a criar um local no bairro Velha, em Blumenau, que seria uma espécie de ponto de organização do projeto da colônia supremacista, com a oferta de serviços de aquisição de visto de trabalho e investimento imobiliário. Poucos dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Weidlich informava nas redes sociais que estava abandonando os planos de Blumenau por um local na Rússia, nas imediações de Moscou, segundo as investigações.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A mensagem de “boas-vindas” do grupo no Telegram era direta: “Recém-chegados. O objetivo de nossa milícia é matar todos os judeus do mundo, enviar todos os negros e peles de merda de volta para onde vieram (ou matá-los se eles se recusarem). O caminho para o nosso objetivo inclui aumentar nossos números e nos armar com fogo, bombas, balas, etc., e obter mais exposição por meio do ativismo comunitário e clubes ativos, outros grupos nacional-socialistas e muito mais. Também estaremos intervindo para preencher os vácuos de poder que se abrirão em muitas de nossas nações, quando os governos entrarem em colapso”, destacava o trecho inicial, que se seguia. “Sim. Eu sou claramente um terrorista, isso deveria ser óbvio pelo nome do grupo, bem como pela mensagem de boas-vindas”.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Aparentemente temeroso de uma exposição por meio do Telegram e do Signal, Weidlich chegou a montar um grupo menor, com cerca de 40 membros, intitulado “Pátria do Passado”, no Signal. Nele estaria o núcleo principal da rede neonazista, que seria formado por empresários e por lideranças do partido “A Pátria”, agremiação alemã de extrema direita tida como a sucessora do partido nazista, apontam os documento do processo. O objetivo do grupo não seria ações terroristas, mas sim a criação da colônia “ariana” no sul do Brasil. Todo o plano de criação da comunidade, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly, sediada nos EUA.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A reportagem fez contato com o TikTok e o Signal para saber como os grupos neonazistas foram mantidos ativos sem nenhuma intervenção das plataformas, mas não conseguiu retorno até a publicação. Também tentamos contato com a Weebly sobre a manutenção das informações da comunidade neonazista, mas não tivemos retorno até a publicação.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="290" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/1779893753_639_Lider-neonazista-da-Escandinavia-vive-livre-no-Brasil.jpg?resize=640%2C290&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251635"  /></p>
<p>		O plano de criação da comunidade neonazista, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly, sediada nos EUA</p>
<h2 class="wp-block-heading">Conexões brasileiras</h2>
<p class="wp-block-paragraph">A primeira passagem de Weidlich no Brasil foi em 2007. Aqui, ele fez trabalhos como DJ e conseguiu o registro do seu CPF. No ano anterior, a mãe dele estabeleceu negócios e residência no Rio Grande do Norte. A empresa São Jorge Empreendimentos teve sede inicial em uma residência de alto padrão nos arredores do campus central da Universidade Federal do RN, com direito a piscina e guarita de segurança.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ele viveu na Inglaterra e em Kongsberg, na Noruega, onde passou cerca de dois anos. A cidade de 27 mil habitantes abriga o grupo Kongsberg, importante produtor de armas e sistemas de defesa do país. Uma investigação conduzida pela jornalista sueca My Vingren, publicada em 2023, aponta que ele mudou-se para a cidade justamente pela presença da empresa e que tentou abordar diversos membros da companhia, além de ter alugado a casa de um diretor do grupo.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Vingren identificou Weidlich como o principal articulador do movimento neonazista escandinavo na época, através de um grupo chamado Federação Nórdica, que disseminava conteúdos racistas, LGBTfóbicos e xenofóbicos. A história foi transformada no documentário “Hacking Hate”, dirigido por Simon Klose, que venceu o prêmio de sua categoria no Festival de Tribeca, em Nova York, já na sua estreia mundial, em junho de 2024.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="640" height="425" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/1779893753_371_Lider-neonazista-da-Escandinavia-vive-livre-no-Brasil.jpg?resize=640%2C425&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251627"  /></p>
<p>		Após ter sua atuação na extrema direita escandinava exposta, Weidlich apagou rastros digitais e fechou redes sociais</p>
<p class="wp-block-paragraph">De acordo com a reportagem de Vingren, nos grupos da chamada Federação Nórdica ele falava constantemente sobre a importância do apoio militar aos grupos de extrema direita, que seria mais central até do que apoio político. “Primeiro tentamos votar pela mudança. Se isso não funcionar, então é uma tomada militar”, escreveu Weidlich. Após a exposição de sua atuação como mobilizador da extrema direita na Escandinávia, Weidlich passou a apagar seus rastros digitais. Contas em redes sociais foram deletadas ou fechadas.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Mesmo depois do documentário, Weidlich não foi preso. Ele deixou a região já perto do fim do primeiro semestre de 2022. Passou por Moscou e São Petersburgo, na Rússia, e Istambul, na Turquia, sempre frequentando locais de luxo. Isso tudo a poucos meses após a invasão russa à Ucrânia. Na época, sua companheira era russa. Ela esteve no Brasil até novembro de 2024, retornando ao seu país após a prisão de Weidlich, como apontam registros da Justiça Federal.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ainda em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Norte. Imagens publicadas em redes sociais dele e da pessoa que seria sua namorada, mostram registros nas praias do estado nordestino, incluindo a estadia em um dos mais caros hotéis da praia da Pipa, destino famoso da região, compras em shopping, visita a cafés e cabeleireiros da capital.</p>
<p><img data-recalc-dims="1" loading="lazy" decoding="async" width="365" height="658" data-wp-class--hide="state.isContentHidden" data-wp-class--show="state.isContentVisible" data-wp-init="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--click="actions.showLightbox" data-wp-on--load="callbacks.setButtonStyles" data-wp-on--pointerdown="actions.preloadImage" data-wp-on--pointerenter="actions.preloadImageWithDelay" data-wp-on--pointerleave="actions.cancelPreload" data-wp-on-window--resize="callbacks.setButtonStyles" src="https://i0.wp.com/cliquenoticiasbrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/05/Lider-neonazista-da-Escandinavia-vive-livre-no-Brasil.png?resize=365%2C658&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-251604"  /></p>
<p>		<em>Em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, no Rio Grande do Norte. Redes sociais mostram passeios, compras e hospedagem em hotel de luxo na praia da Pipa</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">Para além das redes sociais, naquele período, Weidlich também estabelecia-se como sócio de sua mãe na São Jorge Empreendimentos, que permanece em atividade. A empresa, no início de 2025, concluiu a infraestrutura de um condomínio de casas localizado a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional de Natal, no que é o único registro de empreendimento da empresa no Rio Grande do Norte em 17 anos. A área, no entanto, até a publicação desta reportagem não dava sinais de ocupação ou construção de casas, nem muito menos anúncio de vendas dos lotes. Segundo os documentos de registro, o terreno tem mais de 69 mil m² e o loteamento terá 200 terrenos de 200 m².</p>
<p class="wp-block-paragraph">Outros rastros mostram a conexão permanente de Weidlich no Brasil, mais especificamente em São Paulo, nos meses seguintes à sua passagem pelo Rio Grande do Norte. Novamente, registros nas redes sociais dele indicam diversos passeios e estadias em hotéis na capital e no interior paulista, bem como visitas a Gramado, no Rio Grande do Sul. Em março de 2023, por intermédio de um advogado, ele apresentou à Justiça Federal em São Paulo uma petição pela opção de nacionalidade brasileira.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A alegação central era de que não ter a nacionalidade estava causando constrangimento e impedindo a vida plena dele no país, incluindo nisso abertura de conta bancária, e que a “vida civil” estaria dependente da mãe. Na condição de filho de brasileira e apresentando o contrato de aluguel de um apartamento com valor mensal superior aos R$ 6 mil, ele conseguiu que seu pedido fosse atendido cinco meses após a abertura do processo.</p>
<h2 class="wp-block-heading">A vida no Brasil</h2>
<p class="wp-block-paragraph">Assim que voltou ao Brasil, em meados de 2022, também por meio de um perfil no TikTok, Weidlich postava vídeos e mensagens em português sobre o Grupo Wagner, algumas delas tratando de convocação para atuar na organização paramilitar russa. O Grupo Wagner notabilizou-se mundialmente a partir da invasão à Ucrânia como um importante braço armado de Vladimir Putin, mas que antes atuava em missões na Síria e em países da África utilizando, para além dos fuzis e pistolas, táticas de desinformação e desestabilização social e política. O time de mercenários também é conhecido por frequentemente contar com neonazistas em suas fileiras – o próprio nome do grupo é em homenagem ao músico alemão Richard Wagner, antissemita e compositor de ópera favorito de Hitler.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A presença em Blumenau também dá pistas das intenções de Weidlich. A cidade catarinense, que já passou por diversas operações policiais de combate a células neonazistas, foi a primeira visitada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) em 2024 dentro do trabalho da relatoria especial criada pelo órgão para o enfrentamento ao neonazismo no Brasil.</p>
<p class="wp-block-paragraph">A missão é chefiada pelo advogado Carlos Nicodemos. “Quando assumi essa relatoria não tinha ideia do tamanho do problema. São inúmeros casos. A crescente presença do neonazismo na nossa sociedade precisa ser enfrentada de forma sistemática. No caso de Blumenau, encontramos dificuldade até com as autoridades, que, em tese, investigariam os crimes, mas questionavam a existência do problema. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas já tenho claro que precisamos de mudanças de postura, de legislação, e o neonazismo deve ser combatido a nível federal”, disse ele, que representa os movimentos sociais dentro do CNDH.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Ainda segundo Nicodemos, o fato de Vincent Weidlich já estar solto após pouco tempo da operação policial que o prendeu reforça a necessidade da mudança de olhar institucional para a questão do neonazismo no Brasil. “A sentença retrata o cenário nacional quanto à ausência de uma política nacional para o efetivo enfrentamento ao tema. A ausência de uma institucionalidade normativa objetiva leva o Judiciário à busca de ajustes normativos penais atípicos. É deste contexto que nascem decisões judiciais como nesse caso, que atacam a questão normativamente, mas se furtam, se omitem no campo das políticas públicas”, completou o relator.</p>
<p class="wp-block-paragraph">Procurada por e-mail e por telefone, a defesa de Vincent Weidlich não deu retorno à reportagem até o fechamento da matéria. Procuradoria do MPF e delegacia da PF em São Paulo alegaram sigilo no caso e não quiseram comentar.</p>
<p><em>Com informações da <strong><a href="https://apublica.org/" target="_blank" rel="noopener noreferrer nofollow">Agência Pública</a></strong></em></p>
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