O trânsito de Manaus está entre os mais desafiadores do Brasil, marcado por altos índices de acidentes e congestionamentos frequentes em avenidas como Djalma Batista, Torquato Tapajós, Constantino Nery e Autaz Mirim, o que impacta diretamente o dia a dia da população, com longos deslocamentos, atrasos constantes e uma crescente sensação de insegurança.
O cenário é impulsionado pelo avanço acelerado da frota. Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) indicam que, em 2025, a cidade ultrapassou a marca de 1.317.699 veículos registrados – cerca de 80% de toda a frota do Estado. Na prática, isso representa pouco mais de duas pessoas por veículo, um dos índices mais elevados já registrados na capital.
Enquanto carros e motocicletas se multiplicam, a infraestrutura viária não acompanha o ritmo, agravando problemas históricos, sobretudo nos horários de pico e em cruzamentos estratégicos.
Rotina sob pressão
Para quem depende das ruas para trabalhar, o impacto é imediato. O motorista de aplicativo Fabrício Bezerra, de 45 anos, afirma passar cerca de 12 horas por dia no trânsito para alcançar a meta de ganhos.
Segundo ele, o problema vai além do volume de veículos. “Há falta de respeito às normas e pouca educação no trânsito. Isso, somado aos buracos e à má conservação das vias, torna tudo mais perigoso e imprevisível”, relatou.
O congestionamento também afeta diretamente a renda: corridas curtas tornam-se mais caras devido ao tempo gasto, o que reduz a aceitação tanto por motoristas quanto por passageiros.
No transporte coletivo, a realidade não é mais favorável. A vendedora Sabrina Oliveira, de 24 anos, leva cerca de três horas por dia no trajeto entre casa e trabalho, utilizando a linha 450.
“Na volta é ainda pior, enfrento engarrafamentos na Torquato Tapajós, Max Teixeira e no Alvorada. Muitas vezes venho em pé por causa da lotação. Isso desanima um momento que deveria ser de alegria por voltar para casa”, contou.
Ela diz que precisa sair de casa com até três horas de antecedência para evitar atrasos. “Se o ônibus atrasa cinco minutos, já compromete tudo”, completou.
Frota cresce mais que a cidade
Foto: CMM
Nos últimos dez anos, a frota de veículos em Manaus cresceu 119%, enquanto a população aumentou cerca de 27%. Para o engenheiro e especialista em mobilidade urbana Manoel Paiva, o desequilíbrio evidencia falhas no modelo adotado.
“Há um crescimento desproporcional da frota em relação à capacidade viária. Hoje, 93% dos veículos são de transporte individual, mas atendem apenas cerca de 40% da população”, explicou.
Segundo ele, a maioria dos moradores depende do transporte coletivo, que representa uma parcela reduzida da frota, criando um sistema ineficiente e sobrecarregado.
“Temos muitos veículos para poucas vias, que ainda enfrentam problemas de drenagem, pavimentação e sinalização. O resultado são congestionamentos, insegurança, mais acidentes e prejuízos materiais”, destacou.
Foto: Manoel Paiva
O aumento da frota e as falhas estruturais também se manifestam nos índices de violência no trânsito. Dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) apontam que, entre janeiro e o início de março de 2026, 44 pessoas já morreram em acidentes na capital, alta de 37,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em 2024, o Brasil registrou mais de 37 mil mortes no trânsito, média de cerca de 100 por dia. Em Manaus, foram 309 vítimas no mesmo ano, o maior número anual dos últimos 26 anos.
Apesar da implantação da fiscalização eletrônica, como o sistema conhecido como “corujinhas”, a redução de mortes em 2025 foi de apenas 20%. Atropelamentos e colisões seguem entre as ocorrências mais letais.
Para Manoel Paiva, os números indicam falhas em múltiplas frentes. “É preciso ampliar a fiscalização, investir em educação no trânsito e melhorar a engenharia viária. Não existe solução isolada para um problema dessa magnitude”, afirmou.
Ele também avalia que medidas como o rodízio de veículos implementado em cidade como São Paulo, não seriam eficazes na capital. “O rodízio beneficia beneficia quem tem maior número de veículos individuais, mas não traz nenhum benefício ao morador da periferia, aos excluídos, as pessoas de baixa renda, aos deficientes, aos idosos e às pessoas de baixa mobilidade”, concluiu
Intervenções e alternativas
Foto: Seminf
Nos últimos anos, o poder público tem apostado em obras estruturantes para melhorar a fluidez. Entre elas, os complexos viários Rei Pelé, José Fernandes e Márcio de Souza, que reorganizaram o tráfego em áreas críticas.
Intervenções pontuais, como semáforos inteligentes e ajustes na geometria de cruzamentos, também têm contribuído para reduzir o tempo de espera em alguns trechos.
Outros projetos estão em andamento, como o complexo viário Passarão, na Zona Oeste, o alargamento de avenidas como a André Araújo e a interligação da Max Teixeira com a avenida do Futuro.
Como melhorias, especialistas defendem que a solução passa por priorizar o transporte coletivo e diversificar os modais. Entre as medidas apontadas estão a criação de faixas exclusivas para ônibus, ampliação de terminais de integração e investimentos em tecnologia de monitoramento e campanha educativa para motoristas e pedestres.
Outras propostas incluem a criação de infraestrutura adequada para motociclistas e ciclistas, com áreas de espera, ciclovias e ciclofaixas seguras.
Entre buzinas, atrasos e longas filas, o trânsito de Manaus tornou-se uma questão de qualidade de vida e um dos maiores desafios para o futuro da cidade.
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