Notícias
Médicos ignoram regra de transparência e farmacêuticas agradecem
Endocrinologista Ana Paula Xavier, na fábrica da cervejaria Guinness, na Irlanda, onde estava para participar do 30º Congresso Europeu de Obesidade, em Dublin, em 2023
Com a queda da patente da semaglutida em março de 2026, o que muda na expectativa de tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil?
Eu acho que isso é uma evolução, um processo de ampliar o acesso da população com diabetes e obesidade a esses medicamentos, porque vão entrar no mercado – é o termo que o pessoal usa na nossa área – “novos players”, né? Então seriam outras empresas do ramo farmacêutico que vão disputar esse mercado e, consequentemente, quando a gente tem várias disputando o mercado, o preço é uma questão que vai ser o primeiro ponto para atrair os pacientes. Existe uma diferença entre a medicação atual e uma medicação biológica, a semaglutida sintética, que vai entrar no mercado, o que envolve, às vezes, alguns custos de produção, que são mais baixos. Do ponto de vista do médico, nós vamos ter a curiosidade de avaliar se não vamos encontrar diferenças do ponto de vista clínico e de prática, porque eles (os medicamentos) têm essa diferença.
A patente da liraglutida, anterior e mais fraca que a da semaglutida, já caiu no Brasil, e há biossimilares no mercado brasileiro, mas fala-se bem menos sobre essa substância do que sobre as que vieram depois. Por que a senhora acha que a semaglutida (Ozempic) não seguirá o mesmo roteiro de sucesso da tirzepatida (Mounjaro)?
Eu acho que é porque a potência da semaglutida é realmente superior à da liraglutida. Ela atende um grande volume de pacientes porque a gente tem expectativas muito altas quanto à perda de peso. Às vezes, você tem pacientes que perdem 15% do peso. E, como no Brasil a gente tem uma população em que a maior parte não tem obesidade mórbida, e sim uma obesidade mais leve, essa medicação seria suficiente para atender.
Eu acho que o que está tirando um pouco do brilho desse momento é que tenho a entrada desses produtos manipulados e, de origem, vamos dizer assim, duvidosa. Por que você tem produtos de que você não sabe nada, de onde eles surgem, de onde eles vêm? É uma farmácia que manipula. De onde vem essa base? Não passa por fiscalização; gera muita insegurança para nós, médicos. Eficácia tem, mas eu não sei se tem segurança; não sei o que tem ali dentro, nem como foi feito o transporte desse produto. Eu tenho mais de 30 anos de formada e nunca vi nada do tipo durante a patente de uma molécula. Você tem um tanto de marcas chegando do Paraguai e da China, produtos manipulados. Eu nem sabia que podia fazer isso…
Na verdade, nem pode, né?
Coisas que acontecem no Brasil. Existe uma brecha legal. A Anvisa permite a manipulação de alguns produtos sob patente sob a alegação muito exclusiva de “aí eu preciso de uma dose específica para aquele meu paciente porque a dose que seria adequada para ele não existe”. Então, há uma brecha nesse campo para realizar manipulações. Mas o que nós estamos assistindo não é uma dose individualizada, fora do padrão; é uma indústria de produção em massa, nada individualizada, com produtos, infelizmente, sem nenhum tipo de documentação que ofereça segurança. A pessoa pode desenvolver complicações ao longo do uso ou devido ao emagrecimento significativo. E aí a gente está usando uma molécula que a gente não sabe exatamente o que é. Eles alegam que é uma tirzepatida, mas eu não tenho documentação sobre aquilo ali, como tenho ali na farmácia, com todo o rigor.
Ana Paula, como é que a senhora, pessoalmente, utiliza a sua experiência com esses medicamentos e também mantém um distanciamento ético em relação à indústria farmacêutica? Para, de repente, não cair na coisa da propaganda, do estímulo ao uso?
O paciente que chega aqui é um paciente doente. Eu não tenho essa demanda, assim, da pessoa que está vindo aqui puramente por estética, por 2, 3 quilos, não é? Os meus pacientes são pacientes com patologia associada, ou seja, diabéticos ou com alterações coronarianas, que realmente precisam manter controle metabólico. Então, o medicamento não é a questão. Talvez o grande desafio para o médico seja escolher qual medicamento você vai tomar. E o que pesa é a eficácia, a segurança, o custo, o fato de que essa medicação precisa ser mantida a longo prazo… Então, também não adianta a pessoa ter condições financeiras para realizar apenas um mês de tratamento. Eu preciso pensar em uma medicação contínua. Agora, ética é ética. Ou você tem ou você não tem. Eu acho que isso é muito mais uma questão de caráter do indivíduo.
Pergunto por que, em Minas Gerais, a gente tem um caso muito significativo, diferente do resto do país, porque a gente tem aquela questão da declaração obrigatória com a Secretaria de Saúde, o DeclaraSus, que é justamente para falar sobre a relação das indústrias com os médicos. Por exemplo, quando a gente entra na base de dados, há contratações dessas empresas, Novo Nordisk e Eli Lilly, de uma série de profissionais, a maioria deles, endocrinologistas, o tipo de coisa que não fica tão transparente para o paciente, ou que poderia colocar em xeque a opinião do profissional de saúde. Por exemplo, eu chequei aqui: o seu nome aparece como o que mais recebeu benefícios da Novo desde 2017, em contratação, hospedagem, estudo de caso clínico…
Não, são aulas. São aulas que a gente faz pelo Brasil. É de todos porque eles têm três produtos. E eu divulgo, vou dizer assim, o que apresento aos médicos. É um comprimido de semaglutida, chamado Rybelsus, sobre o qual não se fala muito na mídia. Tem o Victoza, depois, veio o Ozempic e, depois, o Wegovy. E a empresa faz uma escolha entre duas opções. Primeiro, quem tem muito volume de prescrições. Eu sempre gostei muito de tratar a obesidade. Então, eu sempre tive volume de prescrição. Se existisse um dado, por exemplo, sibutramina, seria a única opção; você acharia meu nome lá.
Como é que surge esse convite para dar aula? Aí tem uma característica do profissional. Você tem que ter um pouco do perfil de saber falar bem, de não ficar com vergonha em público. São pessoas diferentes que fazem convites para o médico. Ah, tem um gerente lá em Manaus, ele precisa de uma aula. Quando é que eles chamam a gente? Eles chamam quando, exatamente, veem que o volume de vendas naquele lugar está baixo. Tem eventos em congresso também, patrocinados, né? O congresso, todos os congressos médicos, o que você falou da questão da ética? É muito complicado isso. Como funciona isso no congresso médico? Eu tenho que pagar pelo auditório. Se eu for trazer um palestrante internacional, tenho que custear o transporte dele e assim por diante. Então, as empresas que são fabricantes de medicamentos, se aquele congresso tem um público de médicos prescritores de seus produtos, é interessante para elas patrocinarem aquele congresso. Então, é uma via de mão dupla. Eu vou falar sobre o seu produto e você vai viabilizar esse encontro científico.
Mas uma coisa que aí, eu falo aqui, entra também a ética e o estado profissional. A empresa, quando você está contratada por ela, lhe fornece o material que pode apresentar. Todo o material que pode ser apresentado no evento consiste em artigos científicos. Eu não posso falar nada sobre a minha opinião. Se eu for perguntar sobre a minha experiência para alguém lá, eu posso falar “eu faço assim, eu faço assim”, mas eu tenho que apresentar aquilo que está na bula, dentro das indicações da bula. Por exemplo, quando eu dava aula sobre Ozempic, ele não estava aprovado para o tratamento da obesidade. Eu usava no meu consultório, off-label, para o tratamento da obesidade, porque já havia publicações internacionais que respaldavam essa conduta. A empresa não pode falar nada sobre obesidade num evento médico, senão o que consta na bula da Anvisa; senão, vai pagar multa também. E eles cobram isso muito do profissional.
Mas do jeito que a senhora falou, por exemplo, que a senhora fazia esse uso off-label antes de ele ser aprovado, quando você apresenta isso em outros estados para outros profissionais e acaba respondendo sobre sua experiência pessoal, isso não seria uma forma de influenciar seus colegas?
Se alguém me perguntar uma opinião pessoal, eu tenho que falar “olha, gente, isso não está na bula, isso não tem respaldo, mas eu tenho o costume de fazer de tal forma”. Por exemplo, como é que eu vou contornar os efeitos colaterais? Prisão de ventre é efeito colateral comum a esses dois medicamentos. Na bula não fala que deve usar o remédio A, B, C ou D, mas aí eu posso, se for me perguntar, “ah, gente, eu tenho feito assim e assim. É uma opinião, mas o que é apresentado durante a aula é só o que está na documentação científica e o que está na bula. Não pode passar nada ali em cima. Quando a gente está fazendo uma discussão científica, a gente fala sempre em nível de evidência, né? O nível de evidência ocorre quando você tem um artigo publicado, mas sua experiência clínica não alcança esse nível. Na medicina, nem tudo vai estar no papel, algumas coisas vão estar realmente na experiência de como cada um vai encontrando um caminho para, às vezes, gerar melhor tolerância, melhor adaptação ao tratamento, mas isso não é considerado errado ou antiético do ponto de vista médico.
Aqui consta, desde 2017, que a senhora recebeu R$ 782 mil por contratações, hospedagens, inscrições, refeições e transporte da Novo Nordisk.
Eu não sei se dá esse dinheiro todo, gente.
Eu só queria confirmar se o registro estava correto na base de dados.
Eu gerei essa despesa toda. Onde eu descubro isso?
É no site do DeclaraSus, do governo de Minas. Hospedagens, R$ 428 mil. Contratações R$ 268 mil…
Eu não faço a menor ideia por que, quando a gente é contratado, eles mandam para a gente: “Você vai ficar no hotel tal”. Não sou eu que escolho. Não pode ser um hotel de luxo; tem que ser de três estrelas. Justamente essa preocupação com as questões de “ah, está comprando médico e tal”. Não, é um hotel bom, decente. Aí tem o cara que se transporta do aeroporto ao evento. Ele se transporta do aeroporto ao hotel. A alimentação eles pagam na área do hotel: R$ 250 para almoçar e isso tem que ser no hotel. Então a gente tem uma série de coisas. O protocolo, né? Eu só posso chegar, no máximo, 12 horas antes da aula, 8 horas antes, pra não configurar o turismo. Se no dia seguinte eu quiser ficar, tenho que pagar do meu próprio bolso. Eu não posso ficar muito tempo, então é sempre um bate e volta.
A senhora já fez muitas dessas aulas? Essas viagens para dar aula são costumeiras?
Não.
Não atrapalha a dinâmica do seu consultório?
Aqui, como a gente consegue remanejar os pacientes, porque, como eu falei, para eu fazer um evento desses, eu fico ausente do consultório 24 horas. Então, eu falto por um dia e meio, no máximo. Às vezes também tem aula na minha cidade ou em uma cidade próxima. Tem cidade que eu vou, a Divinópolis; vou e volto no mesmo dia. Eu dou aula e volto à meia-noite pra Belo Horizonte. Prefiro dormir na minha casa…
Entendi…
Agora, voltando à sua pergunta, né, sobre a ética, é uma questão que sempre vai ter. Esse questionamento sempre será oportuno. Por quê? Como a indústria seduz o médico? A indústria seduz o médico com pequenas coisas, até pela vaidade. Quando você é convidado para um evento, você já vai. Você não precisa nem ganhar; você já se sente valorizado.
O Conselho Federal de Medicina lançou, em 2025, uma norma para fazer algo semelhante ao que ocorre em Minas Gerais, que exigia declarações nacionais. A senhora chegou a fazer?
Não, eu nem sabia que tinha que fazer a declaração. Os médicos, ninguém sabe. Você está sabendo de algo que eu não sabia.
Com informações da Agência Pública


