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SUS na Floresta leva saúde a comunidades isoladas no AM

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SUS na Floresta leva saúde a comunidades isoladas no AM

A mais de 1.200 quilômetros de Manaus, um novo ponto de saúde começa a mudar a realidade de comunidades ribeirinhas. O Ponto de Atendimento à Saúde “José Rodrigues”, instalado na comunidade do Ubim, em Eirunepé (AM), já atende moradores da Reserva Extrativista (Resex) do Rio Gregório.

A iniciativa integra o Programa Juntos Contra a Pobreza e o projeto SUS na Floresta. Além disso, reúne esforços da Vale, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), do BNDES, do IDIS e do poder público local. Juntos, esses parceiros estruturaram um modelo que combina atendimento presencial, telessaúde e suporte contínuo.

Atendimento reduz isolamento histórico

Na prática, a unidade deve beneficiar mais de 990 pessoas em mais de 30 comunidades. Desse total, 59 vivem no Ubim e cerca de 930 estão distribuídas em outras áreas da reserva.

Antes disso, moradores enfrentavam longas jornadas para acessar serviços básicos. Em muitos casos, uma consulta exigia até três dias de viagem de barco. Agora, com o novo ponto, os atendimentos já ocorrem desde a inauguração.

Além disso, o espaço oferece teleconsultas e mantém presença permanente de profissionais de enfermagem. Dessa forma, a população passa a contar com vacinação, pré-natal, cuidado infantil e acompanhamento de doenças crônicas.

Logística dificulta acesso à saúde

Na Resex Rio Gregório, o deslocamento ainda representa um dos principais desafios. Para chegar à sede de Eirunepé, moradores dependem exclusivamente do transporte fluvial.

Partindo do Ubim, o trajeto pode levar cerca de 8 horas em lancha rápida. No entanto, em embarcações comuns, a viagem dura até três dias. Durante a estiagem, a situação se agrava, pois bancos de areia e trechos rasos dificultam ou até impedem a navegação.

Além do tempo, o custo pesa no orçamento. As despesas com transporte, alimentação e hospedagem elevam os gastos de famílias que vivem da pesca, da mandioca e de produtos florestais. Por isso, muitos acabam adiando consultas e exames.

“Antes, o atendimento era muito difícil, porque a gente não tinha meio de transporte para a cidade, e eram raras as pessoas que iam. Então, fazíamos o que estava ao nosso alcance: usávamos um remédio caseiro ou pedíamos ajuda ao vizinho. Quando falaram que ia ter esse ponto, a comunidade se preparou para abraçar essa oportunidade, não só para nós, mas para toda a RESEX”, afirma Dionilson Mota.

Desafios de saúde persistem

Créditos: Lucas Bonny

Atualmente, equipes itinerantes sustentam o atendimento na região. A Unidade Básica de Saúde Fluvial visita as comunidades, mas, em média, realiza atendimentos apenas a cada quatro meses.

Diante disso, a FAS identificou três principais desafios por meio do Acompanhamento Familiar Multidimensional.

Primeiro, o pré-natal ainda começa tarde e ocorre com poucas consultas. Cerca de 40% das gestantes realizam o acompanhamento adequado. Em seguida, o cuidado infantil apresenta falhas no monitoramento do crescimento e da vacinação. Por fim, doenças crônicas, como hipertensão, afetam ao menos 29 pessoas, que enfrentam dificuldades para manter o tratamento.

“Desde 2020, acompanhamos todo o processo e as dificuldades do enfrentamento à Covid-19 no território. Diante disso, decidimos que, entre as áreas em que a FAS atua, seria importante contar com pontos que apoiassem um atendimento digno e adequado para a população. A RESEX do Rio Gregório foi uma das primeiras áreas escolhidas, e a FAS conseguiu inaugurar este ponto de atendimento, junto com os parceiros, com uma carteira de serviços que irá atender às necessidades da população”, destaca Mickela Souza.

Estrutura integra atendimento presencial e remoto

Para enfrentar esses desafios, o projeto estruturou uma unidade adaptada à realidade amazônica. O espaço reúne consultório multiprofissional, sala de triagem, farmácia básica e consultório odontológico.

Além disso, a unidade conta com internet e equipamentos para telemedicina. Assim, profissionais em Eirunepé podem apoiar atendimentos à distância, o que amplia a resolutividade dos casos.

O local também inclui dormitório para equipes de saúde e espaço adequado para circulação dos pacientes. Com isso, o atendimento se torna mais contínuo e eficiente.

Modelo garante cuidado contínuo

O funcionamento combina presença local, missões periódicas e telessaúde. Uma técnica de enfermagem atua de forma permanente no Ubim, com apoio de agentes comunitários.

Enquanto isso, equipes com médico, enfermeiro e dentista realizam missões a cada dois meses, permanecendo cerca de 15 dias. Entre essas visitas, a telemedicina assegura o acompanhamento dos pacientes.

Impacto esperado na região

No curto prazo, o projeto deve ampliar o acesso à Atenção Primária à Saúde e reduzir a necessidade de deslocamentos longos. Além disso, deve garantir maior continuidade no cuidado, especialmente para gestantes, crianças e pacientes crônicos.

Por outro lado, mudanças estruturais nos indicadores de saúde exigirão mais tempo. Por isso, a FAS acompanhará os resultados em parceria com o poder público.

Combate à pobreza amplia impacto

Créditos: Lucas Bonny

Paralelamente, outras ações avançam no território. O programa também investe em educação, geração de renda, saneamento e segurança alimentar.

O Juntos Contra a Pobreza busca retirar 500 mil pessoas da extrema pobreza. Para isso, utiliza uma metodologia que analisa renda, educação, saúde, nutrição e infraestrutura.

“O Juntos Contra a Pobreza foi concebido como uma rede de parceiros, públicos e privados, atuando coletivamente para que as políticas públicas cheguem efetivamente em quem mais precisa. A metodologia, desenhada numa visão orientada por dados, visa privilegiar o protagonismo das famílias em situação de pobreza extrema e o fortalecimento das políticas públicas a partir das especificidades de cada território. Sabemos que a pobreza incide de forma bastante diferente em contextos urbanos, rurais e de floresta e, cada vez mais, constatamos que as melhores soluções emergem do próprio território, a partir do conhecimento de quem lá vive”, afirma Flavia Constant.

Na Resex Rio Gregório, o projeto atende cerca de 247 famílias desde 2024. A partir disso, equipes elaboraram planos personalizados para ampliar o acesso a políticas públicas, como Cadastro Único e Bolsa Família.

“Ao articular saúde, proteção social e sociobioeconomia ajudamos a criar condições para que as famílias tenham dignidade, prosperidade e permaneçam em seus territórios, com acesso a direitos e melhores perspectivas de futuro. Precisamos proteger as pessoas que protegem a Amazônia”, diz Márcia Soares.

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