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Soluções para o trânsito de Manaus passam por menos carro e mais integração

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Soluções para o trânsito de Manaus passam por menos carro e mais integração

Manaus acorda cedo e, para muitos, o dia começa antes mesmo do sol nascer. Entre ônibus lotados, longos engarrafamentos e deslocamentos que podem ultrapassar duas horas, a mobilidade urbana se tornou um dos principais desafios da capital amazonense.

Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) indicam que, em 2025, a cidade ultrapassou a marca de 1,3 milhão de veículos registrados, o equivalente a cerca de 80% de toda a frota do Amazonas. 

Em pouco mais de uma década, o crescimento da frota chegou a 119%, enquanto a população aumentou cerca de 27%. O resultado aparece diariamente em vias como Djalma Batista, Constantino Nery e Torquato Tapajós, onde o fluxo frequentemente supera a capacidade das avenidas.

Além dos congestionamentos, o impacto atinge diretamente a qualidade de vida. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 32% dos trabalhadores levam entre 30 minutos e uma hora para chegar ao trabalho, enquanto outros 20% gastam de uma a duas horas no trajeto.

Para quem depende do transporte público, a rotina é ainda mais desgastante. “Fico em média 1h40 no ônibus tanto para ir quanto para voltar. Se eu sair cinco minutos atrasada, eu já sei que vou chegar tarde”, relatou a diarista Natália Silva.

A superlotação, a insegurança e os atrasos constantes são apontados como os principais problemas. “A gente sai de casa com medo, passa muito tempo em pé e no calor. Isso pesa muito no dia a dia”, afirmou.

Foto: Clóvis Miranda/DPE-AM

Essa realidade ajuda a explicar o aumento da procura por veículos próprios, que, por sua vez, agrava ainda mais o trânsito, um ciclo difícil de quebrar.

Para o especialista em mobilidade urbana Manoel Paiva, a saída mais imediata passa pela valorização do transporte coletivo, aliada a uma visão integrada e mais ampla da mobilidade.

“As medidas mais eficientes e urgentes passam por um transporte coletivo acessível, integrado e mais veloz, com menor tempo de espera e maior capacidade”, afirmou. Segundo ele, o sistema precisa funcionar de forma articulada, incorporando diferentes modais e ampliando a oferta de deslocamento na Região Metropolitana de Manaus (RMM).

Paiva também destaca que o debate não pode se limitar apenas aos ônibus. “Os caminhos para a mobilidade urbana sustentável e segura exigem políticas integradas, com visão sistêmica. A mobilidade é transversal a várias áreas e envolve desde urbanismo até saúde pública e justiça climática”, explicou.

Nesse contexto, ele defende o fortalecimento da chamada mobilidade ativa, que inclui deslocamentos a pé e por bicicleta. “É preciso priorizar pedestres, garantir caminhabilidade, investir em mobiliário urbano e segurança viária, especialmente para estudantes, idosos e pessoas com deficiência”, pontuou.

Entre as propostas, está a criação de uma rede metropolitana de ciclovias, capaz de incentivar e dar segurança ao uso da bicicleta no dia a dia. A ideia, segundo o especialista, é ampliar o acesso à cidade e reduzir a dependência do transporte motorizado, tornando a mobilidade mais inclusiva e sustentável.

Pensando em sanar os desafios, o Executivo Municipal lançou no início de 2026 o edital para contratar projetos de corredores exclusivos de ônibus nas zonas Norte e Leste, com investimento previsto de R$ 6,3 milhões. A proposta retoma iniciativas como a “faixa azul”, implantada em 2015 para priorizar o transporte coletivo e reduzir o tempo de viagem.

Foto: Altemar Alcantara/Semcom

Experiências como a de Curitiba, referência mundial em BRT (Bus Rapid Transit), mostram que corredores exclusivos, integração tarifária e embarque ágil podem transformar o sistema e reduzir significativamente os congestionamentos.

Mobilidade ativa ainda é desafio

Foto: Divulgação

Outra frente considerada essencial é o incentivo a modais alternativos, como bicicletas. No entanto, a realidade de Manaus ainda está distante desse cenário.

Com cerca de 28 quilômetros de ciclovias, menos de 1% da malha viária, a capital tem uma das menores infraestruturas cicloviárias entre as capitais brasileiras. Em comparação, Belém possui cerca de 150 quilômetros de ciclovias.

A falta de estrutura impacta diretamente quem tenta adotar a bicicleta como meio de transporte. “O desafio maior com certeza é o trânsito caótico. Os motoristas não dão prioridade para a gente em momento algum”, compartilhou a ciclista Glenda Araújo. “Eu fujo das avenidas e ando por dentro das comunidades, porque tenho muito medo”.

Ela destaca que a diferença para outras cidades é evidente. “Em Belém, você vê ciclofaixa por toda parte. Dá vontade de pedalar. Aqui, isso desmotiva”, pontuou.

A insegurança também é um fator decisivo. “Não me sinto segura. Tem lugares que são impossíveis de pedalar, como a Rodrigo Otávio”, completou.

Foto: Divulgação/Semcom

Projetos como o Programa de Estímulo ao uso de bicicletas e modais alternativos, em tramitação na Câmara Municipal, buscam justamente incentivar esse tipo de deslocamento, mas ainda enfrentam dificuldades estruturais.

Tecnologia avança, mas não resolve sozinha

Enquanto mudanças estruturais avançam lentamente, a tecnologia surge como aliada na gestão do trânsito.

Em nota, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) informou que cerca de 48% dos semáforos de Manaus já são inteligentes, com mais de 130 cruzamentos monitorados em tempo real. Os equipamentos utilizam câmeras para ajustar o tempo dos sinais conforme o fluxo de veículos, podendo reduzir em até 30% o tempo de deslocamento em determinados trechos.

Além disso, sistemas de inteligência artificial, como o Go Data Intelligence, analisam dados de aplicativos e do monitoramento urbano para identificar congestionamentos e acidentes com mais rapidez. Ferramentas como o aplicativo “Cadê Meu Ônibus” também permitem que os usuários acompanhem o transporte coletivo em tempo real.

Apesar dos avanços, o impacto das medidas ainda é limitado diante do crescimento acelerado da frota de veículos.

Foto: Dhyeizon Lemos/Semcom

Outro fator estrutural que agrava a mobilidade em Manaus é o modelo de expansão urbana. A cidade cresceu de forma horizontal e concentrada, com forte dependência do Centro e do Distrito Industrial. Esse formato gera deslocamentos longos e sobrecarrega os principais corredores viários.

Para especialistas, a solução passa por transformar Manaus em uma cidade policêntrica, com mais serviços, empregos e infraestrutura distribuídos pelas zonas Norte e Leste.

“Os caminhos para a mobilidade exigem políticas integradas, com visão sistêmica. A mobilidade não é um tema isolado, ela envolve urbanismo, saúde e qualidade de vida”, destacou Manoel Paiva.

Além disso, os estudos são unânimes: não existe solução única. Melhorar o transporte coletivo, ampliar a infraestrutura para ciclistas, investir em tecnologia e repensar o crescimento urbano são medidas complementares e urgentes.

A constatação reforça um ponto central: mais do que escolher entre carro, ônibus ou bicicleta, o desafio de Manaus é construir um sistema de mobilidade que funcione para todos.

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