Cotidiano
Crônica de um encontro que não se mistura

Confesso que nunca mais consegui olhar o encontro das águas com a mesma inocência depois de reler o livro “Encontro das Águas”, de Fernando Sabino. Há paisagens que existem por si. Outras, depois de atravessadas pela literatura, passam a existir também dentro de nós. Manaus, para mim, tornou-se uma dessas duplicidades, real e narrada ao mesmo tempo.
Quando Sabino esteve aqui, na década de 1970, e tomo a liberdade de situá-lo no espírito de 1976, a cidade era menos aquilo que é hoje e mais aquilo que prometia ser. Crescia com pressa. A Zona Franca, instituída em 1967, ainda dava seus primeiros passos, mas já sustentava expectativas grandiosas. Falava-se com insistência na integração da Amazônia ao Brasil, como se a região ainda precisasse ser incorporada a uma ideia de país que sempre lhe pertenceu, mas que até hoje não a compreende e não a respeita.
Sabino chegou com o olhar atento de quem observa para traduzir. Não se limitou a contemplar. Diante do encontro das águas, fez sua escolha de cronista. Ali, disse ele, nascia o Amazonas. Não o rio exato dos mapas, que já vinha de longe carregando outros nomes, mas o rio que se revela ao olhar humano. O rio percebido.
Sei que os mapas discordam. A hidrografia não aceita concessões. Ainda assim, a crônica não responde à cartografia, responde à experiência. E para quem está em Manaus, é no encontro disciplinado entre o escuro do Negro e o barrento do Solimões que algo se inaugura, nem que seja apenas a maneira de nomear o mesmo rio.
Mas Sabino não se deixou encantar apenas pela paisagem. Havia em seu olhar uma leve acidez, discreta e elegante, dirigida ao cenário mais amplo que se construía ao redor. Manaus era apresentada como promessa de futuro. Ao mesmo tempo, revelava fissuras que escapavam ao entusiasmo oficial. O progresso era anunciado com convicção, mas não conseguia esconder por completo os contrastes sociais e a improvisação que ainda moldavam a cidade.
Ele também percebeu que Manaus carregava consigo uma memória que não se dissolvia. A cidade ainda respirava o tempo dos barões da borracha. Uma elite que tratava a riqueza como se fosse inesgotável, abrindo caixas e mais caixas de bebidas importadas de Paris, como se a Europa pudesse ser desembalada no meio da floresta. O luxo não era exceção, era hábito.
Havia também, nesse cenário, um detalhe quase irônico. Muitas dessas fortunas vinham acompanhadas de esposas que não se deixavam seduzir pelo calor úmido nem pela insistência dos carapanãs e mucuins. Preferiam a Suíça. Enquanto os maridos celebravam a abundância amazônica, elas escolhiam o frio ordenado europeu, distante do zumbido irritante da floresta. Manaus, para elas, era mais um entreposto de riqueza do que um lugar de permanência.
A história, como costuma fazer, cobrou seu preço com discrição e precisão. Enquanto aqui se brindava com bebidas francesas, sementes cruzavam oceanos no maior jogo de malandragem europeia. Em terras asiáticas, germinaram sob método aquilo que na Amazônia crescera em excesso e improviso. O esplendor ruiu. E a cidade permaneceu, obrigada a conviver com o eco de sua própria grandeza.
Talvez por isso o encontro das águas seja mais do que um fenômeno natural. Ele persiste como metáfora. Duas correntes que se tocam sem se misturar. Assim também é Manaus. O passado e o presente convivem lado a lado. A promessa e a realidade seguem em paralelo. Nada se dissolve por completo.
Sabino entendeu isso com a precisão de quem escreve mais do que vê. Sua leitura da cidade, em muitos aspectos, permanece atual. Os contrastes que ele percebeu não desapareceram. Apenas cresceram com o tempo.
Ainda assim, não posso deixar de notar que seu olhar era um olhar de fora. Havia curiosidade e havia admiração. Mas também havia distância. Em alguns momentos, a Amazônia surge filtrada por um imaginário que não lhe pertence inteiramente. Isso não diminui sua escrita. Apenas a situa em seu tempo.
Hoje, quando volto ao encontro das águas, vejo mais do que o fenômeno. Vejo também o gesto do cronista. Vejo a escolha de transformar geografia em narrativa. E compreendo que Sabino não pretendia explicar a Amazônia. Queria somente contá-la, o que o fez com raro talento.
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas
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