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Eduardo Bolsonaro e Go Up tentaram pagar filme via empresa húngara
Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama buscaram uma empresa com braços na Hungria e na Holanda para mover fundos para o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, segundo documentos obtidos e analisados pela Agência Pública.
A empresa Go Up chegou a formular uma minuta de contrato com a empresa Freeway Cam B.V para que essa servisse como “escrow agent” do filme Dark Horse. Um agente ou conta escrow (ou “conta de custódia”) funciona como uma terceira parte que retém fundos temporariamente em uma negociação e libera o pagamento de acordo com autorização da parte pagante. Geralmente, trata-se de um banco ou instituição financeira, mas na indústria do cinema existem empresas que se especializam em fazer este serviço, pelos altos valores e complexa mecânica de financiamento.
Segundo apuração da Pública junto a fontes que acompanharam as negociações, os produtores da obra buscavam uma maneira de permitir que investidores do filme permanecessem anônimos.
A minuta do contrato, datado de 7 de fevereiro de 2024, tem como partes Eduardo Bolsonaro, descrito como “financiador” do filme e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, como produtora, além da Freeway Cam BV, uma empresa de origem holandesa cujo endereço principal é Budapeste, na Hungria. Trata-se de um adendo a outro contrato de produção, assinado em 30 de janeiro do mesmo ano, autorizando a Freeway a realizar pagamentos ao diretor e roteirista do filme, Cyrus Nowrasteh.
O contrato foi elaborado quando o filme, agora chamado de Dark Horse (“O Azarão”, em tradução livre) ainda tinha o título provisório de “Capitão do Povo”, e não tem assinaturas.
A existência do documento foi revelada pelo The Intercept, em reportagem que afirmava que Eduardo teria poder de decisão sobre as verbas para o filme.
Fundada pelo holandês Gadi Wildstrom, a empresa opera na Hungria sob o nome Freeway Entertainment e tem como especialidade “exploração internacional de propriedade intelectual, gestão de ativos de entretenimento e direitos autorais, bem como a coleta, administração e distribuição transparentes, imparciais e seguras das receitas de royalties.”
Segundo postagens no Linkedin, ela atende diversas produções cinematográficas nomeadas a prêmios como Bafta e Golden Globes. Como outras empresas, a Freeway Entertainment aposta no vibrante mercado do audiovisual na Hungria.
Trecho do contrato obtido pela Agência Pública que indica que Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama buscaram uma empresa com braços na Hungria e na Holanda
Eduardo teria assumido risco de perder investimento
O contrato estabelece que Eduardo “se compromete a financiar parcialmente a produção cinematográfica intitulada ‘Capitão do Povo’, sob a gestão da produtora Go Up Entertainment” e autoriza a Go Up a dar instruções sobre os pagamentos a serem feitos para Cyrus Nowrasteh. Eduardo assumiria, segundo a minuta, risco de perder o investimento se o resto dos fundos para produzir o filme não fossem captados.
O documento traz ainda um diagrama sobre como os contratos de pagamento deveriam ser realizados, até 1 de março de 2024, a partir das autorizações feitas por Eduardo Bolsonaro.

Diagrama ilustra que os pagamentos são autorizados pelo “financiador” Eduardo Bolsonaro antes dos contratos de pagamento serem fechados
Outro documento obtido pela Pública indica que a Go Up Entertainment buscou outra entidade ligada ao mesmo grupo, o Freeway Entertainment, para realizar um pagamento no valor de US$ 57,5 mil para o diretor do filme. Trata-se de uma ordem de pagamento, no papel timbrado da Go UP Entertainment. Nela, Karina Ferreira da Gama instrui um agente da empresa de nome “David” a emitir o pagamento a Cyrus Nowrasteh por meio da empresa New Path Pictures Inc, sediada na Califórnia. “Estamos num momento em que estamos prontos para dar seguimento ao pagamento à New Path Pictures Inc. pelos inestimáveis serviços de desenvolvimento de roteiro prestados por Cyrus Nowrasteh”, escreveu ela.
O destinatário da ordem é a Stichting Freeway Custody, uma fundação registrada na Holanda que administra o dinheiro da Freeway Cam B.V.
O pedido de pagamento teria sido enviado em 5 de fevereiro de 2023.
Co-CEO da Freeway confirmou contatos mas diz que “declinou”
Procurado pela Pública, Martijn Meerstadt, co-CEO da Freeway e diretor corporativo da Stichting Freeway Custody, negou ter qualquer relação com Dark Horse, mas confirmou os contatos. “Verifiquei internamente e fui informado que, embora tenhamos sido contatados para prover soluções de partilha de receitas e relatórios para essa produção, nós declinamos da oportunidade. Não temos envolvimento com este projeto e não há nada mais que eu possa declarar”.

Ordem de pagamento enviada pela Go UP para “David”, um agente trabalhando em nome da fundação Stichting Freeway Custody, ligado ao grupo Freeway Entertainment.
Especialistas citam “sinal de alerta” em transação financeira
Especialistas ouvidos pela Pública sinalizam que a arquitetura do pagamento por meio de outras empresas é um sinal de alerta sobre a transparência das transações.
Casey Michel, um reconhecido especialista em paraísos fiscais e sigilo bancário, autor do livro “United States of Oligarchy” (Estados Unidos da Oligarquia, em português), afirmou que “essa não é uma transação de negócios tradicional”.
“Parece um arranjo financeiro montado para propositadamente esconder as origens dos fundos e a identidade do financiador”, disse.
Já Monte Friesner, um operador que chegou a ser condenado por lavar dinheiro e depois trabalhou para a CIA e montou sua própria empresa para orientar corporações sobre como mover verbas em contas offshore, afirma que o uso de uma fundação na Holanda, um paraíso conhecido para sigilo corporativo e bancário, é mesmo um “sinal de alerta”. “A pessoa que enviou o dinheiro não queria deixar um rastro documental, seja por motivos de taxação, porque o dinheiro era sujo, ou porque não queriam que ninguém soubesse que estava envolvida”, afirma Friesner.
Segundo revelações recentes do The Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro fez aportes de R$ 61 milhões para Dark Horse por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos, o Havengate Development Fund LP, com sede no Texas.
Eduardo Bolsonaro foi contactado por WhatsApp, mas não respondeu até a publicação. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada se houver um posicionamento.
Em um vídeo postado nas redes sociais, Eduardo disse ter investido US$ 50 mil no filme Dark Horse para garantir a contratação do diretor – quantia inferior à que teria sido paga a Cyrus apenas na ordem de pagamento de 2023. O ex-deputado disse, ainda, que recebeu o dinheiro de volta da produtora e que a verba não passou pelo fundo de investimentos Havengate Development Fund LP, onde foram depositados os do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso por fraude.
A Polícia Federal (PF) está investigando se os valores enviados por Vorcaro para o financiamento de Dark Horse foram usados para bancar a vida de Eduardo nos EUA.
Nas suas redes sociais, o ex-deputado afirmou que não teve qualquer papel de gestão no filme. “Nós não somos donos do filme, mas sim os mais de uma dezena de investidores”, escreveu. Disse, ainda, que seu status migratório não permitiria que ele recebesse dinheiro do fundo apoiado por Vorcaro: “o próprio governo americano me puniria”.
Karina Gama foi contactada por WhatsApp e não retornou até a publicação. O agente David Zanoni, consultor da Freeway para os Estados Unidos que trabalha a partir do México, foi procurado por telefone, pelo Linkedin e por e-mail e não retornou os contatos.
O diretor Cyrus Nowrasteh foi contactado por e-mail e não respondeu até a publicação. O espaço segue aberto.

Cyrus Nowrasteh (à direita), Mário Frias (ao centro) e o ator que interpreta Bolsonaro (à esquerda) em cena do filme Dark Horse
Freeway Entertainment e TMF Group
Estabelecida desde 2001 na Holanda, o grupo Freeway Entertainment tem uma trajetória de apoiar financeiramente empreendimentos cinematográficos. Seu consultor para os Estados Unidos, David Zannoni, opera desde Quintana Roo, estado onde fica a cidade turística de Cancún, no Caribe mexicano.
David foi procurado por telefone pela reportagem, mas não foi localizado.
Além de atuar na Hungria, a Freeway Entertainment chegou a ter um CNPJ no Brasil e ser registrada na Agência Nacional do Cinema (Ancine). O nome da empresa no Brasil era Freeway Entertainment KFT, mas a descrição da área de atuação é diferente dos serviços prestados pela matriz: estava registrada em maio de 2008 como empresa especializada no “comércio atacadista de livros, jornais e outras publicações”. O registro foi suspenso em outubro de 2021.
Segundo levantamento da Pública, a empresa no Brasil chegou a participar da produção do filme Cão Sem Dono, com direção de Beto Brant e Renato Ciasca, lançado em 2007.
A maioria das ações do grupo Freeway Entertainment e da empresa Freeway Cam B.V. (60%), pertence ao grupo TMF Group BV, uma multinacional holandesa que trabalha com soluções financeiras e oferece abertura de contas offshore. De acordo com seu relatório anual de 2025, o grupo TMF controla nove subsidiárias no Brasil e foi multado diversas vezes pelos reguladores holandeses e pelo Banco Central da Holanda por falhas no processo de “due diligence”, ou seja, checagem sobre a idoneidade dos seus clientes, e por falhas na prevenção à lavagem de dinheiro. A TMF também apareceu nos Paradise Papers, onde foi revelado que ela controla um trust constituído em Malta.
Com informações da Agência Pública

