Connect with us

Notícias

como bets garantem que jogador sempre perca

Published

on

como bets garantem que jogador sempre perca

Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.

Chega um momento em que você pensa “já perdi muito”, para e avalia: o prêmio prometido já está gigante e prestes a “estourar” após repetidas tentativas. Continua, clica mais pausadamente, afinal, talvez seja a hora de parar. A hesitação é computada em segundos pela interface de sua plataforma de apostas preferida. Chega uma oferta de bônus, cashback para recarga, lembrete do ganho acumulado. No Brasileirão, um gol inesperado muda as chances para todo mundo. Agora, o prêmio é cinco vezes superior se acertar autor do gol, resultado e número de cartões, mas, apenas se simultaneamente o seu arquirrival empatar em partida fora. Luzes, brilho, recompensas fáceis, emoção ao alcance das mãos. Você acredita na sorte, em seu tino futebolístico, no conhecimento que quase ninguém dispõe, apenas você. Só mais uma fezinha. As companhias agradecem.

Cada clique, tempo de sessão, saldo disponível, saques anteriores, número de plataformas em que é cadastrado, volume e velocidade entre apostas. Todos esses dados são extraídos e transformados em uma experiência personalizada, pensada para te manter jogando, com “quase ganhos” estratégicos e vitórias menores eventuais. O objetivo, lucro imediato, é o mesmo nas duas pontas da equação. De seu lado, ansiedade e esperança fazem parte do serviço. Do outro, a matemática opera sua mágica. E, invariavelmente, você ganhando ou perdendo, as casas ganham mais.

“O ecossistema das bets é sustentado por uma infraestrutura de captura de dados que rastreia comportamento em tempo real, incluindo informações como tempo de sessão, padrões de aposta, momentos de hesitação, intenção de saída etc. Esses dados retroalimentam sistemas que disparam notificações e ofertas nos momentos de maior vulnerabilidade do usuário”, explica o professor de mídias digitais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Daniel Marques.




“O ecossistema das bets é sustentado por uma infraestrutura de captura de dados que rastreia comportamento em tempo real, incluindo informações como tempo de sessão, padrões de aposta, momentos de hesitação, intenção de saída etc. Esses dados retroalimentam sistemas que disparam notificações e ofertas nos momentos de maior vulnerabilidade do usuário”, explica o professor de mídias digitais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Daniel Marques.




Nesse cálculo, entram psicologia comportamental, design de jogos, programação, estatística, distribuição, expectativa matemática e, claro, uma margem, assegurada por lei, de ganho médio mínimo das plataformas que oferecem os jogos. A regulação se impõe para que os cidadãos sejam protegidos, sem que esse ambiente se torne uma terra sem lei.




De acordo com a portaria 1.207/2024, o maior prêmio acumulado (jackpot) tentador e sem muitas explicações, que depende apenas de aleatoriedade, por exemplo, deve obrigatoriamente sair numa frequência mínima de uma a cada 100 milhões de jogadas. Na Mega Sena, considerando a análise combinatória, a probabilidade de acertar as seis dezenas é de uma em cada 50 milhões. Sim, o dobro de chances do que o mínimo legal imposto às bets.




O mesmo dispositivo legal também prevê o mínimo para operar, com certificação, quanto ao retorno ao apostador, o chamado “RTP”, que no Brasil é de 85%. Isso significa que de cada R$ 100 que a casa de apostas recebe para ofertar os jogos, ela ganha R$ 15, em média, e os demais R$ 85 circulam entre os apostadores, com ganhos pontuais.




Com RTP baixo, a probabilidade de vitória é menor, mas as recompensas são maiores. Normalmente, as bets operam com RTPs maiores, entre 94 e 98%, para que os ganhos sejam mais módicos, porém mais frequentes, o que estimula a adesão. Ou seja, as empresas podem ganhar menos por cada aposta, mas se beneficiam de um volume e frequência normalmente maiores de seus usuários.




Os valores de RTP são fixos para cada operação certificada, ou seja, para cada nível de RTP, há uma autorização específica feita pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, impedindo mudanças injustas por parte das empresas.




Nesse cálculo, entram psicologia comportamental, design de jogos, programação, estatística, distribuição, expectativa matemática e, claro, uma margem, assegurada por lei, de ganho médio mínimo das plataformas que oferecem os jogos.




A regulação se impõe para que os cidadãos sejam protegidos sem que esse ambiente se torne uma terra sem lei. As limitações matemáticas foram estabelecidas pela portaria 1.207/2024, que define algumas regras.




O maior prêmio acumulado (jackpot), tentador, sem muitas explicações e que depende apenas de aleatoriedade, por exemplo, deve obrigatoriamente sair numa frequência mínima de uma a cada 100 milhões de jogadas.




Na Mega Sena, considerando a análise combinatória, a probabilidade de acertar as seis dezenas é de uma em cada 50 milhões. Sim, o dobro de chances do que o mínimo legal imposto às bets.




O mesmo dispositivo legal também prevê o mínimo para operar, com certificação, quanto ao retorno ao apostador, o chamado “RTP”, que no Brasil é de 85%.




Isso significa que de cada R$ 100 que a casa de apostas recebe para ofertar os jogos, ela ganha R$ 15, em média, e os demais R$ 85 circulam entre os apostadores, com ganhos pontuais.

Prejuízo real estimulado e pouco palpável

“A abstração do dinheiro é uma estratégia eficaz de apagamento do risco, pois o custo psicológico de cada aposta diminui”, explica o professor de mídias digitais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Daniel Gois Rabelo Marques.

E é por isso que você pode fazer recargas facilitadas, com biometria, em apenas um clique, ou que compra tokens, fichas ou créditos fictícios para jogar, em vez de ter exposto, na tela, de fato o dinheiro que já gastou (ou, na prática, perdeu). “No caso do Pix, o depósito financeiro é transformado em um gesto corriqueiro, com pouco atrito, pouca pausa e, consequentemente, pouco confronto com o valor real”, completa o especialista.

O comportamento esperado do usuário já é previsto, estudado e estimulado antes mesmo que ele comece a apostar, ainda na captação de jogadores e até mesmo no depósito de dinheiro ou créditos para engajar com as plataformas, e isso é ciência aplicada.

“Quando se fala em jogos de azar, o único tipo de jogador que existe é o sortudo, pois toda a vitória, derrota, ganhos ou perdas são frutos de uma estatística que sempre favorece a banca, por isto existe o coeficiente de taxa de retorno em todos os jogos.

A tendência é o jogador sempre perder graças à matemática dos grandes números”, classifica o engenheiro civil e desenvolvedor Matheus Augusto Estrella, antes de sintetizar: “A própria confecção destes softwares são feitas ao se apoiar nas fraquezas do usuário, sendo intrinsecamente predatórios”.

Do lado da regulação, a fiscalização efetiva é um dos caminhos para evitar que o ambiente predatório se imponha. Do lado do cidadão comum, potencialmente usuário, resta compreender as técnicas utilizadas para não ser presa fácil do ecossistema que navega.

O pulo do tigre: perder ou perder

Na matemática utilizada pelas plataformas, o algoritmo utiliza as chances de um evento para definir a probabilidade de um episódio ocorrer, as chamadas odds: “a empresa nunca trabalha com odds ‘justas’”. A frase é do desenvolvedor de jogos Leandro Melo da Costa e parece atualizar um ditado popular da cultura dos cassinos: “A casa sempre ganha”.

Na selva estatística e financeira das bets, um ensinamento deveria ser fundamental antes do usuário começar a apostar, já que o indicador ofertado nunca é, de fato, o que aquela aleatoriedade valeria. Isso porque o evento é convertido em um multiplicador de pagamento que já inclui a margem da casa embutida. Por exemplo, as odds reais de 2 passam a ser ofertadas a 1,8. No conjunto dos cenários oferecidos, essa diferença garante que a plataforma lucre, mesmo que muitas pessoas acertem o cenário apostado. 




O “pulo do gato” das plataformas normalmente se concentra no pós-perda e em todo o ambiente que envolve esse momento. É o recurso do “Near miss”, literalmente o “quase ganhar”, o que fica explícito na interface gráfica das bets. O sistema pode definir distribuições específicas de combinações de apostas, de símbolos em slots ou estruturas de recompensa que apareçam para o apostador com mais frequência visual do que ditaria uma situação, de fato, aleatória.





É aquela situação de “está aparecendo muito X”, alimentando a expectativa de vitória iminente. “[Há] animações, sons, desaceleração dos reels e efeitos visuais que reforçam a sensação de ‘quase ganhar’”, conta Leandro Costa, acrescentando que muitas plataformas fazem uso de reforços variáveis, conceito conhecido da psicologia comportamental.




“O sistema não entrega recompensas em padrões fixos, mas em intervalos imprevisíveis, criando expectativa constante e aumentando o engajamento. […] Jogos mais estáveis passam sensação de controle e retenção maior de saldo. Jogos mais voláteis tendem a gerar mais tensão, expectativa e emoção, porque existe a sensação de que um grande prêmio pode acontecer a qualquer momento”, conclui.




Após você perder, o código se volta à personalização a partir de dados de perda em evento único, tempo de sessão, padrão emocional de aposta, total perdido e probabilidade de recompra de créditos. “O sistema pode disparar estímulos quase imediatos, como free bets, cashback, notificações, odds turbinadas, sugestões de nova entrada ou ‘você esteve muito perto’”, conta.




“Em iGaming, grande parte do trabalho técnico não está apenas na matemática do jogo, mas em sistemas de retenção, comportamento e recorrência que mantêm o usuário engajado após perdas emocionalmente impactantes”, conclui o desenvolvedor.




As bets se apresentam em formatos diversos, conhecidos como slots, crashes, apostas esportivas, mas muitas vezes funcionam conectadas em um ambiente de aplicativos que compartilham carteiras únicas com recursos de cassinos. E para estimular a frequência das apostas, é necessário manter o usuário engajado – e nada melhor para isso do que a sensação de ganho inicial.




O “pulo do gato” das plataformas normalmente se concentra no pós-perda e em todo o ambiente que envolve esse momento. É o recurso do “Near miss”, literalmente o “quase ganhar”, o que fica explícito na interface gráfica das bets.




O sistema pode definir distribuições específica de combinações de apostas, de símbolos em slots ou estruturas de recompensa que apareçam para o apostador com mais frequência visual do que ditaria uma situação, de fato, aleatória.




É aquela situação de “está aparecendo muito X, né?”, alimentando a expectativa de vitória iminente. “[Há] animações, sons, desaceleração dos reels e efeitos visuais que reforçam a sensação de ‘quase ganhar’”, conta Leandro Costa.




Ele acrescenta que muitas plataformas fazem uso de reforços variáveis, conceito conhecido da psicologia comportamental. “O sistema não entrega recompensas em padrões fixos, mas em intervalos imprevisíveis”




“Isso cria expectativa constante e aumenta o engajamento. […] Jogos mais estáveis passam sensação de controle e retenção maior de saldo. Jogos mais voláteis tendem a gerar mais tensão, expectativa e emoção.”




“Isso porque existe a sensação de que um grande prêmio pode acontecer a qualquer momento”, conclui Costa.

Após você perder, o código se volta à personalização a partir de dados de perda em evento único, tempo de sessão, padrão emocional de aposta, total perdido e probabilidade de recompra de créditos. “A partir disso, o sistema pode disparar estímulos quase imediatos, como free bets, cashback, notificações, odds turbinadas, sugestões de nova entrada ou [mensagens do tipo] ‘você esteve muito perto’”, conta.

“Em iGaming, grande parte do trabalho técnico não está apenas na matemática do jogo, mas em sistemas de retenção, comportamento e recorrência que mantêm o usuário engajado após perdas emocionalmente impactantes”, conclui o desenvolvedor.

“Isto não é algo difícil de ser implementado para quem possui os dados estatísticos do jogador em tempo real, muitas empresas estimulam que o jogador comece ganhando justamente para depois começarem perdas programadas”, afirma o engenheiro civil e desenvolvedor Matheus Estrella.

É possível que você conheça (ou seja) um grande entendedor de futebol e as apostas esportivas sejam sua “especialidade” e principal recurso para “quebrar a banca”. Na prática, as casas de apostas não sentem o impacto desse perfil no dia a dia. Ainda assim, elas usam recursos de “segurança”, que supostamente preveniriam perdas para os usuários como forma de, no fim das contas, arrecadar mais. 

Um grande exemplo é a lógica do cashout, quando você busca travar parte dos ganhos ou reapostar parte do que já estava comprometido para tentar diminuir perdas de eventos em andamento – um gol surpresa em qualquer fim de semana, que estraga o seu churrasco (e, nesse caso, também a carteira). E daí você salva parte da aposta ou mesmo arrisca no resultado contrário à sua escolha original, tudo para diminuir perdas. 

“Para quem domina e entende essa metodologia, o cashout é uma ferramenta legítima e que pode gerar lucro. Só que a casa de aposta não é boba. Ela sabe que a grande maioria dos jogadores não entende esse mecanismo. E é exatamente por isso que ela acaba lucrando muito mais. […] Muitos jogadores aceitam o cashout em vez de aguardar o fim do evento porque a espera gera muito cortisol, muita adrenalina, muita dopamina — gera tensão. Então, na hora do calor emocional, as pessoas preferem sair antes. E essa saída antecipada, de fato, é uma forma da casa de aposta se proteger”, explica o especialista de cassinos Carlos Frederico Amaral.

No fim das contas das bets, as perdas se fazem regra, mas a vitória – ou quase ganho – têm sabor estimulante, recheado de adrenalina, à base de muita ciência e planejamento, mesmo quando você acha que está sendo o mais esperto do recinto.




O conceito de captura afetiva diz respeito a um ecossistema desenhado para influenciar e engajar usuários. E foi para tentar dar materialidade ao uso desse conceito que pesquisadores da UFRB e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Daniel Marques e Thiago Falcão, respectivamente, entrevistaram profissionais da área de desenvolvimento de jogos digitais.




A ideia do trabalho seria tratar sobre o papel ativo que os profissionais desempenham nessa indução ao jogo e as situações éticas que envolvem esse cenário. Assim foi concebido o artigo Design persuasivo e mediação tecnológica em plataformas digitais de apostas: práticas e dilemas éticos de designers e desenvolvedores.




Em entrevista à Agência Pública, Marques explica que os principais gatilhos visuais que fazem parte do cálculo das plataformas são as contagens regressivas, botões de repetição rápida e animações celebrativas, em especial considerando recompensas intermitentes, além de características comuns a diversos ambientes de apostas.




Alguns exemplos são a ausência de monitores de quanto já foi apostado, perdido ou o tempo de uso da plataforma. “Essa ausência de informação relevante ao juízo do usuário é, em si, uma estratégia persuasiva”, descreve o professor. “Nas bets, esse efeito se materializa de forma sofisticada a partir de elementos de microinteração projetados para mobilizá-lo”.




“A ideia é fazer o corpo sentir que o ganho está próximo e que vale a pena continuar, produzindo uma espécie de esperança como recurso”, completa Marques. Entre os profissionais entrevistados anonimamente para o artigo, há um que descreve o uso de clickbait personalizado, do tipo “você ganhou”, quando a realidade o ganho seria apenas de uma nova chance de participação.




Outro aponta mensagens que “explodem da tela” ao perceber hesitação, com direito ao recado “não abandone sua aposta”. “A interface é projetada para eliminar pontos de saída ou qualquer elemento que quebre a continuidade da experiência e devolva o usuário ao mundo real. […] Todos os elementos são projetados para dissolver as fronteiras entre o ambiente do jogo e o mundo exterior”.




O professor universitário aponta que foi possível encontrar um padrão consistente entre os diferentes profissionais entrevistados no sentido do reconhecimento de cada um deles dos efeitos persuasivos do design combinado com ausência total de espaços institucionais para reflexão ética nas plataformas “embora os profissionais saibam o que estão fazendo”, diz.




“O que identificamos é que o problema é estrutural, pois a responsabilidade ética é fragmentada pelas hierarquias organizacionais. Então, os profissionais em regime de trabalho precarizado executam, mas não decidem a estratégia”, conclui o pesquisador.




Assim foi concebido o artigo Design persuasivo e mediação tecnológica em plataformas digitais de apostas: práticas e dilemas éticos de designers e desenvolvedores.




Em entrevista à Agência Pública, Marques explica que os principais gatilhos visuais que fazem parte do cálculo das plataformas são as contagens regressivas, botões de repetição rápida e animações celebrativas.




“Essa ausência de informação relevante ao juízo do usuário é, em si, uma estratégia persuasiva”, descreve o professor. “Esse efeito se materializa de forma sofisticada a partir de elementos de microinteração projetados para mobilizá-lo”




“Essa ausência de informação relevante ao juízo do usuário é, em si, uma estratégia persuasiva”, descreve o professor. “Esse efeito se materializa de forma sofisticada a partir de elementos de microinteração projetados para mobilizá-lo”




“[A ideia é] fazer o corpo sentir que o ganho está próximo e que vale a pena continuar, produzindo uma espécie de esperança como recurso”, completa.





Entre os profissionais entrevistados anonimamente para o artigo, há um que descreve o uso de clickbait personalizado, do tipo “você ganhou”, quando a realidade o ganho seria apenas de uma nova chance de participação.




Outro aponta mensagens que “explodem da tela” ao perceber hesitação, com direito ao recado “não abandone sua aposta”.




“O que identificamos é que o problema é estrutural, pois a responsabilidade ética é fragmentada pelas hierarquias organizacionais. Então, os profissionais em regime de trabalho precarizado executam, mas não decidem a estratégia”, conclui.

Clica aqui no meu link?

Já entendemos até aqui que a regra é que a Casa sempre ganha, e que o acaso define quando você pode ganhar ou perder, mas há um terceira parte, elemento moderno nessa equação, que celebra qualquer desses cenários: os influenciadores. No ecossistema das bets, eles são classificados como “afiliados” e estão sempre distribuindo aquele link cheio de vantagens e bônus para agregar mais jogadores. Não é por acaso.

“Os links de afiliados funcionam como um hyperlink rastreável. A gente consegue acompanhar por onde o link está sendo clicado, por onde as contas estão sendo abertas, os FTDs (First Time Deposits) e qual é o trajeto que esse jogador faz dentro da plataforma depois de entrar pelo link”, explica o especialista em cassinos Carlos Amaral. 

Neymar Jr. em seu Instagram divulgando a casa de azar e bets, Blaze

“O padrão tradicional do mercado é um modelo híbrido. O afiliado recebe uma parte fixa e uma porcentagem em cima do GGR — ou seja, em cima do quanto o jogador indicado por ele perde”, adiciona o especialista. GGR é a métrica utilizada pelas casas de apostas para representar suas receitas brutas e é utilizada para calcular as destinações sociais, incluindo os impostos.

Esse modelo híbrido é o que o mercado chama de revshare e pode ser calculado diretamente sobre as perdas dos usuários que clicaram no link do influenciador ou em combinações prévias mais arrojadas. Um exemplo que se tornou público foi o da influenciadora Virgínia Fonseca, que, durante a CPI das Bets no Senado, evidenciou que seu contrato com uma grande empresa de apostas incluía um “bônus” de 30% se a casa duplicasse seus ganhos no período em que ela fazia a divulgação – como já sabemos a essa altura, isso se dá com uma parte de cada aposta e, mais massivamente, em tudo que se perde, já que a casa ganha sempre.

Os influenciadores frequentemente aparecem demonstrando os jogos, exibem bônus e quase sempre aparecem com saldo significativo de ganhos, gravando reações sobre o montante. Amaral conta que esse é um recurso de marketing de experimentação comum no ambiente das apostas.

“É um modelo que existe em vários formatos, em aplicativos paralelos, onde o influenciador consegue jogar com uma banca infinita. Ele aparece jogando como se estivesse com muito dinheiro — parece que está apostando R$ 100 mil reais, mas na verdade são 100 mil fichas, sem valor real”. A vontade de participar e também ganhar, no entanto, é mais que verdadeira e muita gente aproveita o convite bonificado para se aventurar, o que o especialista em cassino entende como previsível e de praxe: “Está comprovado: quando você mexe com os pecados capitais, você converte mais.”

“Pode isso, Galvão?“

Seja para controlar a indução dos usuários a perdas ou para garantir a integridade do ambiente de apostas, todos os especialistas ouvidos pela Pública põem as fichas na fiscalização governamental e em uma regulação mais detalhada para impedir excessos.

“Hoje em dia, ele está até mais justo do que já foi. Por dois motivos. Primeiro, porque o mercado está regulamentado. Um mercado regulado é, por definição, mais justo do que era antes — antigamente, era o velho oeste, o ‘mato’”, defende Carlos Amaral.

“Como profissional, acredito que a responsabilidade não está apenas no operador, mas também na regulação, educação financeira e maturidade do mercado como um todo. O mesmo sistema que pode ser usado de forma abusiva também pode ser desenvolvido com foco em transparência, controle e jogo responsável”, opina o desenvolvedor Leandro Melo da Costa.

Para o professor de mídias digitais da UFRB Daniel Marques, apenas a regulação ainda não é suficiente para garantir segurança para os usuários. “A Lei 14.790/2023 e a Portaria SPA/MF nº 722/2024 avançaram ao exigir avisos de jogo responsável, mecanismos de autoexclusão e limitação de gasto, mas ainda não é suficiente. Acredito que é possível disputar o design dessas plataformas, mas isso exige um marco regulatório que incorpore parâmetros éticos para o design e não apenas para o conteúdo exibido”, avalia.

Para não restar dúvidas

Como as bets fazem o usuário perder?

As bets usam matemática, odds com margem da casa, design persuasivo e dados de comportamento para manter o jogador apostando até perder no longo prazo.

As casas de apostas sempre ganham?

Sim. A reportagem explica que a estrutura do jogo é montada para dar vantagem estatística à casa, mesmo quando o usuário tem ganhos pontuais.

O que é RTP nas bets?

RTP é o retorno teórico ao apostador. Quanto menor o RTP, maior tende a ser a vantagem da casa e menor a chance de ganho do jogador no longo prazo.

O que é near miss nas apostas?

Near miss é o “quase ganhar”. É um recurso visual e psicológico que faz o jogador sentir que está perto do prêmio e continuar apostando.

O que as bets monitoram do usuário?

Elas monitoram tempo de sessão, padrão de apostas, hesitação, saques anteriores, saldo, volume apostado e sinais de intenção de saída.

Como o Pix ajuda as casas de apostas?

O Pix facilita depósitos rápidos e reduz a percepção do gasto, porque transforma o pagamento em um gesto simples e quase automático.

O que são odds nas bets?

Odds são as probabilidades convertidas em pagamento. A reportagem mostra que elas nunca são justas, porque já incluem a margem da casa.

O cashout é vantajoso para o jogador?

Pode ser, em casos específicos. Mas a reportagem destaca que a ferramenta também é usada para proteger a casa e capturar decisões emocionais do usuário.

Como influenciadores ganham com bets?

Eles atuam como afiliados e recebem comissão por indicação, muitas vezes ligada ao volume de perdas ou ao faturamento gerado pelos apostadores indicados.

A regulação resolve o problema das bets?

Ajuda, mas não resolve sozinha. A reportagem defende fiscalização, regras mais detalhadas e critérios éticos de design, além de educação financeira.

Com informações da Agência Pública