Conecte-se conosco

Notícias

Evangélicos: Por que imagem de Jair Bolsonaro não cola em Flávio

Publicado

em

Evangélicos: Por que imagem de Jair Bolsonaro não cola em Flávio

Flávio Bolsonaro foi batizado quatro vezes na fé evangélica. Primeiro na juventude, na Igreja Batista Itacuruçá, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Em 2016, aos 35 anos, o então deputado estadual do Rio foi batizado novamente acompanhando o pai, Jair Bolsonaro, em um mergulho nas águas do rio Jordão, em Israel. Em 2024, ele e a esposa Fernanda foram batizados mais uma vez na Igreja Comunidade das Nações, em Brasília. Por fim, no início deste ano, o hoje pré-candidato à Presidência da República voltou ao rio Jordão para “renovar a aliança com Deus”.

O batismo simboliza um ato público de obediência, o renascimento para a vida espiritual e a purificação de pecados. Ao contrário do catolicismo, em que batizados geralmente são reservados a bebês, a maioria das igrejas evangélicas pratica o rito em adultos, como um ato consciente de fé. Mas, apesar de não ser proibido se batizar várias vezes, o gesto costuma ser reservado a pessoas que se afastaram da religião ou mudaram de denominação.

Flávio Bolsonaro batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016

Para pastores ouvidos pela Agência Pública, a repetição do ritual por Flávio também tem um componente político. Por um lado, ele quer seguir os passos do pai, que viajou a Israel pouco antes da sua bem-sucedida campanha presidencial de 2018. De outro, também tenta se aproximar do grupo religioso que foi um dos mais determinantes para vitória de Jair, e que ainda não selou acordo final com Flávio. Para isso, dizem, não basta Flávio ser evangélico, ele precisa parecer evangélico.

Jair virou “enviado de Deus” por pauta conservadora

Flávio sempre se identificou como evangélico, por influência da mãe, Rogéria Bolsonaro, a primeira esposa de Jair. Ele estudou em uma tradicional escola privada batista e frequenta cultos religiosos com a família. Jair, por outro lado, é declaradamente católico, e não mudou de religião nem depois do episódio no rio Jordão. Apesar do contraste, há uma diferença na maneira como o meio evangélico enxerga os dois. 

Mesmo não sendo fiel de uma congregação, Jair se aproximou do meio após o batizado, que foi celebrado na época pelo Pastor Everaldo, então presidente do PSC, o partido ao qual era filiado. Everaldo tem laços com políticos influentes, como o ex-governador do Rio Anthony Garotinho e o ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha, ambos evangélicos e membros do Republicanos. Ele também foi padrinho político de Wilson Witzel ao governo do Rio (que também se converteu posteriormente). Anos depois, o pastor e Witzel caíram no mesmo escândalo de corrupção envolvendo a saúde na época da pandemia. Mesmo assim, Jair chegou a este meio legitimado por atores de prestígio.

Em 2018, ele foi acolhido de maneira vocal por diversas lideranças evangélicas de peso, como o bispo Edir Macedo, dono do grupo de mídia Record, da Igreja Universal do Reino de Deus e do banco Digimais, e o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo – que inclusive celebrou seu casamento com Michelle. Um dos motivos para a adesão foi o fato de o candidato ser visto como mais alinhado às pautas morais defendidas pela igreja, como ser contra o aborto, a legalização das drogas e a chamada “ideologia de gênero”. O hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava preso, e seu candidato, Fernando Haddad, foi rapidamente associado a um suposto “kit gay”.

Naquele momento, o nome de Jair foi consensuado em várias reuniões de comunidades evangélicas – apesar de ser um grupo amplo e diverso, com diferentes visões entre si. Uma delas foi descrita no livro “A Noiva sob o Véu”, que trata da participação evangélica nas eleições, escrito pelo pastor batista e doutor em Ciência da Religião Sérgio Dusilek. Ele relata uma sabatina com o então candidato organizado pela Global Kingdom Partnership Network (GKPN), rede fundamentalista norte-americana que articula os que ele chama de principais pastores evangélicos do Brasil, na Igreja Batista Central de Belo Horizonte, em 2018.

“Duas semanas após o encontro, em ação visivelmente coordenada, os pastores mais midiáticos ali presentes postaram vídeos de apoio a Bolsonaro em suas redes sociais. Em um curto espaço de dias, com diferentes argumentos e experiências, emprestaram o apoio a Bolsonaro, espiritualizando-o. Estamos falando de mais de vinte e cinco milhões de seguidores atingidos diretamente por tais publicações, sem contar os compartilhamentos”, escreveu Dusilek. 

Assim, Jair ganhou uma “feição davídica [de rei Davi, descrito na Bíblia como um ‘homem segundo o coração de Deus’]” e foi apresentado como “um Messias”, ainda segundo a pesquisa de Dusilek. Ajudava o fato de Jair ter “Messias” como um de seus sobrenomes. Com essa aura de enviado de Deus, ele conseguiu contornar polêmicas e acusações sofrendo pouco impacto em sua imagem.

“O evangélico olhava assim: ‘ele é um santo homem de Deus, um enviado; se alguém está falando mal dele, é porque é o diabo querendo acusar esse santo homem.’ A pessoa desacredita na informação”, afirmou o pastor, que tem viés progressista, à Pública. “É como um teflon antiaderente: nada que você tenta colar nele gruda, por causa desse revestimento.”

“O Bolsonaro, quando ia em culto, cruzava o braço no meio da oração, ficava de olho aberto, com uma cara estranha, mas estava ali, e houve uma construção coletiva dessa figura messiânica, que colou. Depois ainda precisaram da imagem da Michelle como mulher evangélica. Ele não é evangélico, mas a mulher é, e ele foi se apropriando disso”, afirma o pastor Valdemar Figueiredo, coordenador do Observatório da Cena Política Evangélica.

O ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do pastor Silas Malafaia

O ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do pastor Silas Malafaia

Durante seu mandato, porém, Jair enfrentou desafios que aos poucos produziram desgastes em seu viés messiânico. Em 2022, quando buscou a reeleição, o país enfrentava o luto pelas centenas de milhares de mortes da pandemia. Alguns pastores escolheram se afastar da imagem bolsonarista – como o deputado federal Otoni de Paula (PSD), pastor de direita que afirma ter deixado de apoiar Jair após perceber que igrejas evangélicas estavam transformando o político em objeto de veneração.

As principais lideranças evangélicas acabaram mantendo o apoio ao então presidente naquela eleição, mas de forma um pouco mais envergonhada, com demonstrações de insegurança. O pastor Luciano Subirá, um dos líderes da Comunidade Alcance, gravou um vídeo dizendo ter jejuado por 40 dias para saber em quem votar, e, quando Deus teria lhe dito que seria em Jair, ele relata que jejuou por mais 40 dias para ter certeza. Como resposta, Michelle passou a ter protagonismo na campanha, apelando ao seu histórico de mulher cristã e repetindo que o marido seria o “enviado de Deus”.

Atualmente, a defesa das pautas morais continua tendo um apelo forte aos religiosos mais conservadores, mas a ideia do “homem escolhido por Deus” não parece se aplicar automaticamente ao “homem escolhido por Jair” – seu filho Flávio, de acordo com os pastores ouvidos.

O problema de Flávio

Jair foi condenado por tentativa de golpe de estado e cumpre prisão domiciliar. Antes disso, já havia sido declarado inelegível pela justiça eleitoral. Com a proximidade das eleições de 2026, formou-se um alvoroço de aliados que disputavam quem seria escolhido para herdar os votos do bolsonarismo. Entre os nomes cotados, Flávio não costumava aparecer como primeira opção.

O então senador se declarou pré-candidato à Presidência no início de dezembro de 2025, mas a decisão só foi validada no dia 25 daquele mês, quando ele leu uma carta escrita pelo pai em frente ao hospital onde o ex-presidente faria uma cirurgia de emergência. O texto tinha um tom emocionado: “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para resgatar o nosso Brasil”, dizia.

Desde então, Flávio tem enfrentado dificuldades para agregar a mesma base que se uniu em torno do pai poucos anos antes. Mas as coisas se complicaram em junho, quando apareceram áudios que ligam o pré-candidato ao banqueiro Daniel Vorcaro, do escândalo do banco Master, em que o senador teria negociado milhões de reais para uma cinebiografia sobre o pai – e cujo destino do dinheiro hoje é investigado pela Polícia Federal. Sua participação na Marcha para Jesus também foi criticada por ele apelar para a política em um momento que deveria ser religioso, segundo a consultoria Ativaweb DataLab, que analisou 17 milhões de posts nas redes sociais logo após o evento. 

Ainda em junho, sua madrasta Michelle divulgou um vídeo dizendo ter sido maltratada e humilhada pelo enteado após divergências em composições políticas do Partido Liberal nos estados. Respeitada no meio cristão e com trânsito entre lideranças religiosas de peso nacional, Michelle ajudou a complicar a imagem de Flávio entre mulheres e evangélicos, dois públicos que o senador já vinha perdendo espaço. 

A queda logo apareceu nas pesquisas eleitorais. Levantamento da Genial/Quaest mostrou que o apoio do grupo ao filho 01 encolheu nove pontos entre evangélicos em apenas um mês, passando de 61% a 52% das intenções de voto entre maio e junho. Outra pesquisa, da AtlasIntel/Bloomberg, feita logo depois da fala de Michelle, mediu que o senador havia perdido 10 pontos percentuais entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos. Para amenizar o baque, Flávio imediatamente gravou vídeos de pedidos de desculpas à ex-primeira-dama e intensificou postagens nas redes sociais em que aparece orando.

Flávio e Michelle: divergências públicas expõem disputa por legado de Bolsonaro

Flávio e Michelle: divergências públicas expõem disputa por legado de Bolsonaro

Malafaia, que já declarava abertamente preferir como candidato o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), até chegou a participar de um culto com Flávio, mas parece tê-lo abandonado, dizendo que “não passa a mão na cabeça de corrupto”. O pastor Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, também próximo a Bolsonaro, seguiu o mesmo caminho. “O evangélico pensa: às vezes é melhor votar num candidato que não é cristão do que um que diz ser, mas não mantém a coerência”, já disse.

Pastores de congregações menores também têm demonstrado desconforto em apoiá-lo abertamente, como relata Filipe Gibran, líder da Igreja Comuna do Reino. “Vejo nos grupos de WhatsApp pastores de vários lugares, com visões diferentes, falando da relação dele [Flávio] com Daniel Vorcaro, do banco Master. Pegou mal, surgiu uma desconfiança”, afirma. “Não quer dizer que eles vão passar a apoiar o Lula, mas, se forem votar em Flávio, vai ser mais pelo sentimento de antipetismo, que ainda é dominante, do que por gostarem do Flávio”.

Até o momento não houve apoio incisivo de lideranças evangélicas ao nome de Flávio. Se isso acontecer – o que não está descartado – pode ficar reservado para a proximidade da data das eleições. Enquanto isso, Lula e outros políticos tentam se aproximar. O Ministério Madureira, que integra a Assembleia de Deus e tem 15 mil templos, do bispo Samuel Ferreira, foi um dos poucos que já declarou o apoio a um candidato: o escolhido foi o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), apontado como uma opção para a direita cansada do bolsonarismo.

Festas, vape e sexo fora do casamento

Flávio também não consegue decolar entre o público porque ele “não parece evangélico”, na avaliação dos líderes religiosos ouvidos pela Pública. Além dos casos de corrupção que já foi acusado – como o escândalo da rachadinha, na Assembleia Legislativa do Rio, e o aparecimento de seu nome nas investigações do caso Master –, ele também costuma aparecer em festas e bailes de carnaval, já foi filmado fumando vape (cigarro eletrônico) e tem um vocabulário considerado “não muito cristão”. 

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao lado da mulher, Fernanda, durante o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio, em 2022

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao lado da mulher, Fernanda, durante o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio, em 2022

Em 2023, circularam boatos de que ele teria tido uma relação com uma mulher transsexual em uma festa do jogador Neymar (o que Flávio nega). Agora, enfrenta rumores sobre supostamente aparecer em um vídeo numa festa de Vorcaro com mulheres (ele também nega). Essas questões podem não ser determinantes para muitos setores da sociedade, mas falam alto a um eleitorado religioso conservador.

Para o pastor Ricardo Gondim, presidente da Igreja Betesda, o maior problema de Flávio não são as acusações de corrupção, mas a percepção de que ele não vive sob a correção da fé. “Se o Flávio passar a ser visto como alguém que ia nas festas do Vorcaro e que não está seguindo uma vida virtuosa, digamos assim, talvez ele sofra um baque. Isso seria muito mais grave do que se conseguirem provar que ele embolsou os R$ 136 milhões do filme [Dark Horse, valor que teria negociado com Vorcaro], muito mais grave para o mundo evangélico.”

De acordo com Figueredo, a imagem de Flávio parece descolada dos valores do imaginário cristão. “O Flávio se batizou na Igreja Batista, mas nada nele pega nesse sentido, porque parece falso. É como uma obra de arte, se você viu a verdadeira, você identifica a falsa”, diz o pastor. Ele cita como exemplo o vídeo gravado por Michelle. “Ali tem muitos símbolos que remetem à fé evangélica. A postura dela, o vocabulário que usa, os adereços. Ela combina com aquele ambiente. Mas imagine colocar o Flávio ali. Vai soar ridículo.”

Gondim, teólogo líder da Betesda, acredita que Flávio dificilmente conseguirá se desviar dos escândalos sem danos à sua imagem. “Aquele encantamento que o Bolsonaro produziu na eleição de 2018 não se repetirá agora. Ele pode até ganhar, mas aquela sedução, aquela hipnose coletiva que o país acabou mergulhado em 2018 não se repetiu depois, em 2022, e também não se repetirá agora”, diz Gondim.

“Carisma não é hereditário. E o ‘teflon’, digamos assim, também não é transferível”, aponta Dusilek. Ele também cita um fundamento da fé evangélica: “a questão do chamamento, da vocação, da escolha de Deus para uma missão especial, é individual. Não passa de pai para filho como um sobrenome.”

Com informações da Agência Pública