Cidades
Brasil e as Copas do Mundo: uma história de glórias, fé e esperança renovada
O empresário e publicitário Durango Duarte, em seu artigo, destaca a relação do Brasil com o futebol, a trajetória da conquista dos cinco títulos mundiais da Seleção e a expectativa pela busca do Hexa.
Por Durango Duarte (*)
Poucas nações possuem uma relação tão profunda com o futebol quanto o Brasil. Desde a primeira Copa do Mundo, disputada em 1930, o esporte tornouse parte da identidade nacional, capaz de unir gerações, regiões e classes sociais em torno de uma mesma paixão. Ao longo de quase um século de história, a Seleção Brasileira construiu uma trajetória incomparável, tornando-se a única participante de todas as edições do Mundial e a maior vencedora da competição, com cinco títulos.
Os primeiros sinais de grandeza surgiram em 1938, na França, quando Leônidas da Silva conduziu o Brasil ao terceiro lugar. Mas foi a dolorosa derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã, que fortaleceu ainda mais o sonho de conquistar o mundo. A recompensa veio em 1958, na Suécia. Com Pelé, Garrincha, Didi e Nilton Santos, o Brasil apresentou ao planeta um futebol alegre, criativo e eficiente, conquistando seu primeiro título mundial. Quatro anos depois, no Chile, veio o bicampeonato.
Em 1970, no México, a Seleção Brasileira alcançou um patamar que muitos consideram insuperável. Liderada por Pelé e comandada por Mário Jorge Lobo Zagallo, venceu todos os seus jogos e encantou o mundo com um futebol que permanece como referência até hoje.
A conquista do tricampeonato consolidou definitivamente o Brasil como a maior potência do futebol mundial. Depois de um período de jejum, o país voltou ao topo em 1994, nos Estados Unidos. Com Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel, a Seleção conquistou o tetracampeonato.
O pentacampeonato chegaria em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, sob o brilho de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Roberto Carlos. Desde então, o Brasil continuou chegando às Copas entre os favoritos, mas sem conseguir repetir as conquistas do passado. Ainda assim, a esperança nunca abandonou o torcedor brasileiro. Afinal, poucas seleções possuem uma história tão rica e uma tradição tão vitoriosa.
Agora, o mundo do futebol volta suas atenções para a Copa de 2026, a maior da história, realizada em três países: Estados Unidos, México e Canadá. E, para os brasileiros, não faltam coincidências capazes de alimentar a imaginação dos supersticiosos.
Das três sedes do torneio, duas já foram palco de conquistas memoráveis da Seleção. Foi no México que o Brasil de Pelé e Zagallo conquistou o tricampeonato em 1970. Foi nos Estados Unidos que a geração de Romário trouxe para casa o tetracampeonato em 1994. Para quem acredita em sinais, a coincidência não poderia passar despercebida.
E há mais. A estreia brasileira acontece no sábado, dia 13 de junho. Para muitas culturas, o número 13 é associado ao azar. No Brasil, porém, ele também carrega significados positivos para milhões de pessoas. Não por acaso, o futebol brasileiro possui uma relação histórica com esse número.
O maior símbolo dessa ligação foi justamente Zagallo. Supersticioso assumido, o eterno “Velho Lobo” considerava o 13 seu número da sorte. Costumava lembrar que a expressão “Brasil campeão” possui treze letras e repetia essa coincidência como um sinal favorável ao país. A frase tornou-se parte do folclore esportivo nacional e atravessou gerações. Assim, não faltará quem enxergue um simbolismo especial no fato de a caminhada rumo ao hexacampeonato começar justamente em um dia 13.
O torcedor brasileiro sempre foi mestre em transformar coincidências em esperança. Há quem use a mesma camisa durante toda a competição, quem ocupe o mesmo lugar diante da televisão, quem faça promessas ou repita rituais que acredita trazer sorte. A superstição, afinal, é parte inseparável da experiência de viver uma Copa do Mundo.
Mas não são apenas as coincidências que despertam expectativa. Pela primeira vez em sua história, a Seleção Brasileira é comandada por um treinador estrangeiro em uma Copa do Mundo. E não qualquer treinador.
Carlo Ancelotti, italiano, chega ao comando da equipe após construir uma das carreiras mais vitoriosas da história do futebol. Campeão nas principais ligas europeias e recordista de títulos da Liga dos Campeões da Europa, ele assume a missão de conduzir o Brasil na busca pelo tão sonhado hexacampeonato.
A presença de Ancelotti representa uma novidade histórica. Acostumada a ser dirigida por técnicos brasileiros, a Seleção aposta agora na experiência internacional de um profissional reconhecido pela capacidade de administrar grandes estrelas, montar equipes equilibradas e lidar com a pressão dos grandes torneios. Naturalmente, a realidade impõe cautela.
O futebol mundial nunca foi tão competitivo. Argentina, França, Espanha, Inglaterra, Alemanha e diversas outras seleções chegam fortes ao Mundial. Em uma Copa do Mundo, talento é fundamental, mas organização, equilíbrio emocional e regularidade costumam fazer a diferença.
Por isso, o sentimento que deve acompanhar a campanha brasileira é o do otimismo responsável. O Brasil possui jogadores talentosos, uma tradição vencedora e um treinador de primeira linha. Tem razões concretas para acreditar. Mas também sabe que não existem atalhos para o sucesso. Ainda assim, quando o assunto é Copa do Mundo, o brasileiro permite-se sonhar. Faz parte da nossa cultura acreditar que o impossível pode acontecer. Faz parte da nossa identidade repetir que “o brasileiro não desiste nunca”.
E faz parte do nosso imaginário popular recorrer, entre a fé e o bom humor, a outra frase que atravessa gerações: “Deus é brasileiro”. Talvez essas expressões não expliquem vitórias dentro de campo, mas ajudam a compreender por que o futebol ocupa um lugar tão especial em nossas vidas. A cada quatro anos, renova-se a convicção de que o próximo capítulo pode ser inesquecível.
A Copa de 2026 já começou. O caminho será difícil, como sempre foi, mas a história ensina que o Brasil costuma crescer quando o mundo inteiro está olhando. Entre a tradição e a renovação, entre a realidade e a esperança, entre a técnica e a superstição, mais uma vez a nação veste amarelo e volta a acreditar. E se Zagallo estivesse aqui para comentar a estreia no dia 13, certamente abriria um sorriso e lembraria sua frase favorita: “Brasil campeão tem treze letras”.
Para os supersticiosos, um sinal, para os realistas, uma curiosidade, para todos os brasileiros, mais um motivo para sonhar.
(*) Empresário e publicitário


