Cidades
Grupos de WhatsApp viram mercado de armas, drogas e carros roubados
Grupos de WhatsApp com milhares de participantes estão sendo utilizados por organizações criminosas para comercializar armas, drogas, veículos roubados, documentos falsificados e diversos outros produtos ilegais. O que deveria ser uma ferramenta de comunicação passou a funcionar, em alguns casos, como um verdadeiro shopping clandestino operado por integrantes do crime organizado.
Em comunidades identificadas por símbolos associados ao Comando Vermelho (CV), criminosos anunciam desde carros adulterados e joias roubadas até fuzis, munições e serviços fraudulentos voltados a aplicativos de transporte. Em alguns grupos, os participantes seguem regras próprias para permanecer nas comunidades, incluindo exigências de comportamento e identificação ao ingressar.
Entre os anúncios encontrados estão veículos vendidos por valores muito abaixo do mercado, evidenciando indícios de origem criminosa. Uma Chevrolet Tracker Premier avaliada em cerca de R$ 118 mil foi ofertada por apenas R$ 10 mil. Já um Volkswagen Polo Track 2025 apareceu anunciado por R$ 7,5 mil, enquanto seu valor de mercado ultrapassa R$ 75 mil.
Veículos adulterados e peças automotivas movimentam mercado ilegal
Uma expressão aparece repetidamente nos anúncios: “feito de tudo”. O código é utilizado para indicar que os principais elementos de identificação dos veículos foram adulterados, incluindo placas e chassis.
O esquema também envolve a comercialização de peças automotivas e motocicletas. Baterias, rodas, amortecedores e componentes originais são oferecidos por valores muito abaixo dos praticados no mercado formal.
A procura é intensa. Integrantes dos grupos solicitam modelos específicos e recebem respostas em poucos minutos, criando uma dinâmica semelhante à de plataformas convencionais de compra e venda.
Fraudes em aplicativos de transporte
Além dos veículos, os grupos oferecem serviços ilegais relacionados a aplicativos de mobilidade urbana.
Os anúncios prometem o cadastramento de motoristas e motociclistas mesmo sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) válida ou com documentação irregular. Também são comercializadas contas para plataformas de transporte, prática proibida pelas empresas do setor.
Segundo a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), a venda ou compartilhamento de contas representa uma violação das regras das plataformas e pode gerar consequências legais para os envolvidos.
Armas, munições e equipamentos restritos
Uma das áreas mais preocupantes do comércio ilegal envolve armamentos.
Os grupos reúnem anúncios de revólveres, pistolas e fuzis de uso restrito, além de acessórios táticos, carregadores, equipamentos de proteção e munições de diversos calibres.
Os vendedores chegam a compartilhar vídeos para demonstrar o funcionamento das armas, utilizando imagens de disparos e manuseio dos equipamentos.
Também aparecem ofertas de bloqueadores de sinal, conhecidos popularmente como “capetinhas”, utilizados para dificultar rastreamentos eletrônicos. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a comercialização e o uso desses equipamentos são proibidos no Brasil, salvo em situações específicas autorizadas por lei.
Documentos falsos e serviços fraudulentos
Os grupos também são utilizados para a oferta de documentos falsificados e serviços ilegais.
Entre os produtos anunciados estão atestados médicos, documentos de identidade, comprovantes de residência, receitas médicas, certificados escolares e versões digitais de documentos veiculares.
Outra prática identificada é a oferta de pessoas dispostas a assumir a responsabilidade por multas de trânsito para evitar a perda de pontos na carteira dos verdadeiros infratores.
Joias roubadas e celulares abaixo do preço
O comércio clandestino inclui ainda joias e eletrônicos supostamente obtidos em ações criminosas.
Em um dos anúncios, uma aliança de casamento com os nomes dos proprietários gravados foi colocada à venda após ter sido retirada de uma vítima de assalto na Barra da Tijuca.
Celulares também aparecem entre os produtos mais procurados. Modelos de iPhone e smartphones de outras marcas são anunciados por valores muito inferiores aos praticados em lojas e marketplaces.
Drogas e animais silvestres
Os grupos também funcionam como pontos de negociação para entorpecentes e animais silvestres.
Anúncios de drogas sintéticas, cocaína, derivados da cannabis e lança-perfume são compartilhados com frequência, acompanhados de fotos e vídeos dos produtos.
Entre as ofertas encontradas está a venda de um filhote de macaco-prego, prática que configura crime ambiental e viola a legislação brasileira de proteção à fauna.
Polícia monitora atividades criminosas
A Polícia Civil informou que acompanha e investiga o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens para a prática de crimes e a comercialização de produtos ilícitos.
Segundo a corporação, o trabalho busca identificar os responsáveis, reunir provas e subsidiar operações destinadas ao combate dessas organizações criminosas.
Já a Meta, empresa responsável pelo WhatsApp, informou que a plataforma não permite o uso do aplicativo para atividades ilegais e destacou que usuários podem denunciar conteúdos e comportamentos inadequados diretamente pelo aplicativo. A empresa ressaltou ainda que as mensagens são protegidas por criptografia de ponta a ponta, o que impede o acesso ao conteúdo das conversas.
*Com informações do Extra
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