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El Salvador oferece saúde pública com IA e demite médicos
No fim de 2025, El Salvador lançou o aplicativo digital DoctorSV, que utiliza inteligência artificial (IA) para oferecer atendimento médico básico e gratuito à população de 18 a 30 anos.
A iniciativa, promovida pelo presidente Nayib Bukele, foi anunciada como um sistema inovador de atendimento ininterrupto, que oferece diagnóstico assistido por IA e avalia o caso antes de encaminhar o paciente para uma videochamada com um médico.
O governo incentiva os cidadãos a baixarem o aplicativo em seus celulares. Para isso, devem preencher um formulário com suas informações pessoais, incluindo seu histórico clínico.
A divulgação do aplicativo ocorre em meio ao aumento das queixas por falta de medicamentos básicos no sistema público de saúde e da demissao de médicos especializados no Instituto Salvadorenho do Seguro Social (ISSS). Com essas mudanças, os pacientes renais ficaram à deriva, sem saber como continuar seus tratamentos.
Seguridade social com menos especialistas
No dia 17 de dezembro de 2025, o secretário do Sindicato de Médicos do Instituto Salvadorenho do Seguro Social (Simetrisss), Rafael Aguirre, denunciou a eliminação de aproximadamente 672 postos de trabalho nessa rede hospitalar de cobertura nacional.
Ele afirmou que foram demitidos pediatras, clínicos gerais, médicos de família e profissionais de enfermagem que trabalham no edifício central e em três policlínicas da capital, que atendem aproximadamente cinco mil usuários.
“Dezembro terminou com uma onda de demissões em diversas unidades médicas e hospitalares do país, na rede da seguridade social (…) Essas medidas representam uma ameaça direta ao direito à saúde da população salvadorenha”, afirmou Aguirre ao Expediente Público.
Em El Salvador, há 2,1 milhões de beneficiários afiliados à Seguridade Social, que é o único sistema no país que oferece atendimento médico-hospitalar subsidiado para doenças crônicas.
Além disso, o ISSS desmantelou a Unidade de Pensões que atendia 185 mil aposentados. Desde 5 de janeiro de 2026, eles passaram a ser cobertos pelo novo Instituto Salvadorenho de Pensões, uma entidade governamental não vinculada à estrutura administrativa da Seguridade Social.
A mudança causou insatisfação entre usuários. “A confusão é muito grande, porque não há informação sobre o local onde devemos apresentar as provas de vida que garantem o pagamento de nossas pensões”, disse ao Expediente Público Josefina Escalón, uma nonagenária que precisa da ajuda de terceiros para realizar esse trâmite a cada semestre para comprovar que segue viva e assim receber o pagamento.
Quem desenvolveu o aplicativo DoctorSV?
Bukele afirma que os médicos assistidos por IA, por meio do aplicativo DoctorSV, têm uma precisão diagnóstica de 93%. Segundo ele, o sistema realizou dez mil consultas por dia nas duas primeiras semanas de teste. No entanto, não há provas documentais que comprovem esse cálculo.
O governo também afirma que a plataforma foi desenvolvida pelo Google. Mas a empresa de tecnologia não aparece como desenvolvedora do aplicativo. O crédito é da marca “Desarrollador HospitalES”.
No final de 2023, o governo de Bukele já havia colocado em funcionamento outro aplicativo chamado Doctor ISSS, também criado pela marca “Desarrollador HospitalES”, que oferecia atendimento por telefone aos beneficiários. Agora, ele já está fora do mercado.
Por outro lado, o governo informou que os dados pessoais que os usuários do DoctorSV deixam na plataforma são armazenados nos servidores do Google Cloud.
Em um encontro divulgado pela Secretaria de Comunicações da Presidência há um mês, o representante do Google Cloud para a América Latina, o argentino Eduardo López, elogiou o projeto de El Salvador, pois, segundo ele, melhorou a acessibilidade à saúde.
“A equipe me contou tantas coisas sobre o sistema de saúde que vim conhecê-lo. Fiquei encantando com o que vi. (…) Fiquei muito feliz por usarem nossa tecnologia”, celebrou López.
O Google abriu operações em El Salvador em abril de 2024 como parte de um acordo declarado como reservado. Isso ocorreu no âmbito da Lei Geral para a Modernização Digital do Estado, aprovada previamente pela Assembleia Legislativa.

O funcionário que dirige o projeto DoctorSV é o médico intensivista Manuel Bello. Ele assegurou a meios de comunicação do governo que os usuários inicialmente são classificados e encaminhados a um médico, que prescreve os medicamentos.
Segundo o governo, os pacientes podem retirar os medicamentos em uma rede de 350 farmácias e utilizar 75 laboratórios distribuídos em todo o país.
De heróis a funcionários demitidos
Na antevéspera de Natal, em 23 de dezembro de 2025, o Ministério da Saúde convocou 1.800 funcionários do Hospital Nacional Rosales para anunciar que seus contratos de trabalho haviam sido encerrados.
Médicos e enfermeiros, que foram chamados de heróis pelo presidente Nayib Bukele por seu papel no combate à pandemia de Covid-19, ficaram sem trabalho.
Os funcionários do hospital tiveram que escolher entre assinar uma carta de desligamento voluntário, caso quisessem o pagamento referente à sua indenização e benefícios, que seria feito dentro de um ano, ou receber um valor imediato correspondente a menos de 50% de seus anos de serviço.
A Coordenadora Nacional de Direitos Humanos em Saúde (Conadesa), uma organização civil de trabalhadores do setor, advertiu, em comunicado oficial, que as demissões “reduzem a capacidade de atendimento nos centros de saúde, ao se traduzirem em menos consultas, leitos sem atendimento e atrasos que poderiam colocar em risco a vida dos pacientes”.
Além disso, a Coordenadora denunciou que os demitidos foram coagidos a aceitar qualquer uma das opções. “(O governo) não garante o pagamento imediato nem integral de suas prestações e, em muitos casos, abre a porta para a perda de direitos trabalhistas adquiridos”, afirmou.
O Movimento de Trabalhadores Demitidos (MTD) denunciou que o chamado “remédio amargo”, conceito cunhado por Bukele em seu discurso de posse em 2019, recaiu majoritariamente sobre o setor de saúde, que totaliza 7.772 pessoas demitidas ao longo de 2025, sob o título de “supressão de postos de trabalho”.

Comunicado do Ministério da Saúde confirmando que o Hospital de Rosales não pertence mais ao Estado, mas a uma rede autônoma
Pacientes renais à deriva
O presidente do Colégio Médico salvadorenho, o infectologista Iván Solano, afirmou ao Expediente Público que a situação é lamentável, sobretudo para pacientes que sofrem de Doença Renal Crônica (DRC), que não têm informação sobre onde continuar seu tratamento, já que muitos médicos que os atendiam deixaram seus cargos.
“Como o atendimento no novo Hospital Rosales vai melhorar, demitindo 1.500 profissionais de saúde, realocando 500 e deixando 200 no limbo? Estamos no caminho certo?”, questionou Solano.
“Os pacientes com insuficiência renal são um exemplo vivo do que acontece quando se demite pessoal especializado”, acrescentou.
Em El Salvador há 52.102 pacientes que sofrem de DRC, sendo que 1.609 fazem diálise peritoneal e 1.773 hemodiálise, segundo o ministro da Saúde, Francisco Alabí, em uma entrevista a uma emissora de rádio em maio de 2025.
A eliminação dos 1.800 postos de trabalho no hospital nacional da capital desperta duas reações: usuários perguntam onde podem continuar seus tratamentos, enquanto outros celebram nas redes sociais, afirmando que os funcionários demitidos prestavam um serviço ruim e que tudo vai melhorar com a proposta de Bukele.
Para os desempregados, o cenário é muito mais confuso depois que o Ministério da Saúde confirmou em suas redes oficiais que, desde agosto de 2025, o Hospital Rosales pertence a uma Rede Nacional de Hospitais com caráter autônomo. Ou seja, agora não existe uma instância competente que indenize os profissionais demitidos.
Com informações da Agência Pública


