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Exploração de animais em passeios turísticos no AM provoca estresse e riscos à fauna, diz biólogo
Cobranças extras para fotos com jacarés, preguiças e cobras transformaram animais silvestres em atrações turísticas na região do lago do Janauari, em Iranduba, município localizado a menos de 30 km de Manaus.
Os passeios, divulgados como experiências de contato com a natureza amazônica, incluem a manipulação direta dos animais e o pagamento de valores adicionais para fotografias. Segundo investigações da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), alguns dos animais utilizados nessas interações podem ter sido sedados para aparentarem comportamento dócil durante o contato com visitantes.
As suspeitas levaram à realização da Operação Anhangá 2, deflagrada em maio de 2026 pela polícia em parceria com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Durante a ação, quatro homens foram presos no lago, dois jacarés e uma preguiça foram resgatados e multas que totalizaram R$ 10,5 mil foram aplicadas.
De acordo com os agentes, os animais estavam amarrados com cordas e eram mantidos em jaulas pequenas. Após o resgate, eles foram encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), do Ibama, na zona Sul.
Crescimento do turismo e fiscalização
Dados do Ministério do Turismo, Embratur e Polícia Federal mostram que o Estado recebeu 28,4 mil turistas internacionais em 2024, crescimento de 18,2% em relação ao ano anterior.
Foto: Lucas Silva/Amazonastur
Com a expansão do chamado turismo de experiência, aumentaram os passeios oferecidos em hotéis de selva, flutuantes e comunidades ribeirinhas que prometem interação direta com animais amazônicos. Parte dessas atividades, no entanto, ocorre sem autorização ambiental.
A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) é clara em proibir a utilização de animais silvestres sem licença e prevê pena de seis meses a um ano de detenção, além de multa, para quem utiliza, mantém ou explora espécies silvestres de forma irregular.
Já o Decreto Federal 6.514/2008 estabelece sanções para a exploração comercial da imagem de animais mantidos ilegalmente em cativeiro, incluindo publicações em redes sociais.
Para o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, a legislação é abrangente, mas a fiscalização enfrenta limitações concretas. “Todos os órgãos têm deficiência no número de servidores e na estrutura logística para construir operações de inteligência”, afirma, acrescentando que os próprios infratores adotam estratégias para ocultar as práticas ilegais e dificultar a identificação dos envolvidos.
Joel destacou ainda que a pauta da fauna compete internamente com temas considerados de maior impacto imediato, como desmatamento e garimpo, embora o Ibama mantenha operações específicas voltadas à proteção de animais silvestres.
Impactos à saúde dos animais
Foto: Beatriz Sampaio/PC-AM
O biólogo Marcelo Gordo explicou que o contato frequente com turistas pode causar uma série de danos físicos e comportamentais aos animais. Segundo ele, o manuseio constante provoca estresse prolongado, que pode resultar em queda de imunidade e maior vulnerabilidade a doenças.
A proximidade entre humanos e animais silvestres também favorece a transmissão de patógenos em ambas as direções, representando risco tanto para os animais quanto para os visitantes.
Outro problema apontado é a alimentação artificial oferecida durante alguns passeios turísticos para atrair espécies como botos. De acordo com o biólogo, a prática pode provocar dependência alimentar e comprometer a saúde dos animais quando os alimentos fornecidos não fazem parte da dieta natural.
“Em atividades sustentáveis, não ocorre a manipulação dos animais e as distâncias de fuga são respeitadas. Os turistas são orientados a manter distância suficiente para evitar estresse”, pontuou.
Em 2023, uma operação conjunta do Ibama e do Ipaam em um hotel de Novo Airão resultou na apreensão de 26 animais silvestres mantidos irregularmente. Entre as espécies encontradas estavam araras, jiboias, sucuris, jabutis, macacos-prego, papagaios e pirarucus.
Treze desses animais estavam incluídos na lista da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), que reúne espécies ameaçadas com comércio controlado internacionalmente.
O proprietário do estabelecimento foi multado em R$ 234,5 mil e obrigado a remover das redes sociais conteúdos que mostravam turistas interagindo com os animais.
Em nota, o Ipaam informou ao Em tempo que qualquer interação turística não autorizada com fauna silvestre é considerada irregular. O órgão afirmou ainda que as fiscalizações têm sido intensificadas, especialmente em áreas onde esse tipo de prática é mais frequente.
Atualmente, o único modelo de interação regulamentado no Amazonas envolve a observação de botos, disciplinada pela Resolução CEMAAM nº 28/2018. A norma estabelece regras de bem-estar animal, distância mínima entre estruturas flutuantes e sistema de rodízio de funcionamento, além de proibir o toque e o nado com os animais.
Experiência do turista
Foto: Leo Albuquerque/ICMBio
A maquiadora Cláudia Maria participou de um passeio turístico nas proximidades de Manaus que incluía contato com preguiças, botos e cobras, além de plantas aquáticas como vitórias-régias. Ela conta que a motivação inicial era proporcionar aos filhos uma experiência com a natureza amazônica, mas que durante o passeio surgiram dúvidas sobre as condições em que os animais eram mantidos.
“Havia uma cobrança adicional por animal, com valores diferenciados, e a comercialização daquilo me causou estranheza. Eu questionava a qualidade dos cuidados, a alimentação adequada, a legalidade da presença dos animais no local”, relatou.
A experiência da maquiadora ilustra uma lacuna apontada pelos especialistas: muitos turistas desconhecem os critérios que diferenciam uma atividade ambientalmente regular de uma prática ilegal, e nem sempre recebem orientação adequada dos operadores antes de embarcar nos passeios.
Foto: Divulgação
Esse mercado ilegal tem dimensões expressivas no Brasil: segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais são traficados por ano no país, e de cada dez, nove morrem antes de chegar ao consumidor final.
O país também responde por aproximadamente 15% do comércio ilegal global de fauna, cerca de US$ 1 bilhão por ano, e o tráfico de animais é considerado o terceiro maior crime de contrabando do mundo, segundo relatório de 2024 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Alternativas ao contato direto
Caio Vieira, gerente de receptivo da Iguana Tour, operadora de turismo de Manaus, observa uma mudança gradual no perfil dos visitantes. Para ele, muitos turistas chegam hoje mais informados sobre as questões ambientais e buscam experiências de observação da fauna em vez de interação direta, embora a demanda por contato físico com os animais ainda persista entre parte dos visitantes.
“O foco deve ser a contemplação. A Amazônia já é grandiosa naturalmente e não é necessário forçar interações para criar experiências memoráveis”, afirma.
Caio também defendeu que a floresta, os rios, a cultura dos povos tradicionais, a gastronomia regional e a observação responsável da fauna já oferecem experiências suficientes para atrair e satisfazer visitantes sem que seja necessário submeter animais a situações desgastantes.
Denúncias sobre maus-tratos ou manutenção ilegal de animais silvestres podem ser feitas ao Ibama pela Linha Verde: 0800 61 8080, ou diretamente à delegacia mais próxima para registro de boletim de ocorrência.
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