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Manaus sedia Conferência Livre dos ODS com chancela do INPA nesta quarta-feira

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Manaus sedia Conferência Livre dos ODS com chancela do INPA nesta quarta-feira

Manaus volta a se colocar no centro dos grandes debates nacionais sobre desenvolvimento sustentável com a realização, nesta quarta-feira (29), da Conferência Livre Grandes Obras de Infraestrutura na Amazônia e os ODS, uma das etapas preparatórias para a 1ª Conferência Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, iniciativa que mobiliza instituições, pesquisadores, movimentos sociais e gestores públicos em torno de propostas concretas para o futuro do país.

Com a chancela do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a conferência ocorrerá no Auditório do Bosque da Ciência, das 8h30 às 16h30, reunindo especialistas em duas mesas centrais de debates, uma dedicada às hidrelétricas na Amazônia e outra voltada às rodovias na região, temas estratégicos que dialogam diretamente com os desafios do desenvolvimento, da conservação e da justiça socioambiental.

Inserida na agenda nacional dos ODS, a conferência propõe um debate de alta relevância sobre os impactos, os dilemas e as oportunidades associados às grandes obras de infraestrutura em território amazônico, articulando temas como segurança hídrica, energia limpa, crescimento econômico, proteção da biodiversidade, justiça institucional e enfrentamento das mudanças climáticas.

Os debates dialogam diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável  em uma construção que busca integrar desenvolvimento regional, inclusão social e responsabilidade ambiental.

A realização do encontro no Bosque da Ciência, um dos espaços mais simbólicos da produção científica amazônica, destaca o papel do INPA como instituição estratégica na construção de agendas de futuro para a região.

Amazônia e a agenda global

Mais do que uma conferência temática, o encontro se insere em um movimento mais amplo de formulação de propostas que deverão alimentar a Conferência Nacional dos ODS, consolidando contribuições da Amazônia para o debate brasileiro sobre sustentabilidade.

Entre os eixos centrais do encontro estão as reflexões sobre infraestrutura, integração regional, proteção socioambiental e modelos de desenvolvimento compatíveis com a complexidade da região.

A proposta é discutir grandes obras não apenas sob a ótica dos impactos, mas também a partir de perspectivas de planejamento, governança e construção de soluções.

Segundo organizadores, a conferência busca qualificar o debate e superar visões reducionistas, reconhecendo que a Amazônia exige respostas sofisticadas para desafios igualmente complexos.

O seminário de 2019

Foto professor Cristóvam Luiz

A conferência desta quarta-feira também recupera uma trajetória de debates que antecede a própria agenda dos ODS no Amazonas.

Nas palavras do professor e articulador Cristóvam Luiz, o encontro guarda conexão histórica com o I Seminário de Desenvolvimento do Setor Mineral no Amazonas, realizado em 2019 na Assembleia Legislativa do Amazonas, sob a chancela do Fórum de Estudos Econômicos e Sociais para o Desenvolvimento Sustentável (FOCOS), experiência que, segundo ele, antecipou discussões que hoje reaparecem em novas bases institucionais e ambientais.

Cristóvam relembra que aquele seminário, realizado nos dias 28 e 29 de março de 2019, reuniu especialistas, representantes institucionais, lideranças indígenas, geólogos, pesquisadores e atores do setor produtivo para discutir desenvolvimento, soberania, recursos naturais e sustentabilidade na Amazônia. O encontro resultou na Carta do Amazonas pela Mineração com Sustentabilidade e em um conjunto de propostas estruturantes que ainda ecoam no debate regional.

Segundo Cristóvam, aquele momento marcou uma inflexão importante. “Ali se plantou uma visão de desenvolvimento associada à sustentabilidade e à participação social. Muitos dos temas que hoje voltam ao centro da agenda, como infraestrutura, ordenamento territorial, segurança jurídica, valorização científica e protagonismo amazônico, já estavam colocados naquele seminário”, recorda.

Entre as propostas debatidas em 2019 estavam a mobilização institucional em torno do artigo 231 da Constituição, a criação de um fórum interinstitucional para o desenvolvimento do setor mineral, a adequação do plano estadual de mineração, a recriação de uma estrutura estadual voltada ao setor e estudos estratégicos para projetos logísticos estruturantes, como a chamada Ferrovia do Nióbio. 

Cristóvam afirma que o espírito daquele seminário ressurge agora ampliado. “Naquele momento discutíamos mineração com sustentabilidade. Agora o debate se amplia para infraestrutura e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O eixo é o mesmo. Como desenvolver respeitando a Amazônia e sua gente”.

Ele também recorda que, já em artigo publicado anos depois, defendia uma abordagem menos ideológica e mais pragmática sobre desenvolvimento amazônico. “Precisamos abandonar falsos antagonismos e construir uma agenda baseada em ciência, soberania e soluções”, sustenta.

Infraestrutura em debate

A programação da Conferência Livre foi estruturada em duas mesas temáticas que abordam questões centrais para a região.

A primeira mesa tratará das hidrelétricas na Amazônia, tema que envolve segurança energética, impactos socioambientais, governança dos recursos hídricos e transição energética.

A segunda mesa discutirá as rodovias na Amazônia, com foco nos dilemas entre integração logística, proteção territorial, desenvolvimento regional e ordenamento sustentável.

A expectativa é que os debates resultem em contribuições qualificadas para a etapa nacional dos ODS, com propostas articuladas a partir da experiência amazônica.

Protagonismo científico

A chancela do INPA confere densidade institucional e científica ao encontro desta quarta. Ao sediar a conferência em seu espaço simbólico, o instituto reafirma a importância da ciência como base para a formulação de políticas públicas e para a construção de estratégias de desenvolvimento para a Amazônia.

Pesquisadores destacam que a realização do evento em uma instituição científica reforça a necessidade de que grandes decisões sobre infraestrutura na região sejam ancoradas em evidências, pesquisa e diálogo social.

Essa dimensão é central para a própria lógica dos ODS, que pressupõe integração entre conhecimento científico, políticas públicas e participação social.

Chamado a consensos

Para Cristóvam Luiz, a conferência representa também uma oportunidade de amadurecimento do debate público. Conforme ele, o grande desafio não está em escolher entre desenvolvimento ou conservação, mas em construir modelos capazes de combinar ambos.

“A Amazônia precisa ser pensada com inteligência estratégica. Não se trata de negar infraestrutura nem de ignorar proteção ambiental. Trata-se de construir caminhos sustentáveis e soberanos”, afirma.

Ele observa que essa visão dialoga com a própria memória dos debates iniciados no seminário de 2019 e ganha nova dimensão ao ser conectada à agenda dos ODS.

Além dos debates, a expectativa em torno da conferência envolve a sistematização de contribuições que poderão fortalecer agendas futuras sobre planejamento sustentável para grandes obras na Amazônia, governança territorial e participação social, segurança hídrica e energética, infraestrutura com baixa emissão de carbono, proteção socioambiental e direitos territoriais e  integração entre ciência, políticas públicas e desenvolvimento regional.

A conferência também é vista como espaço para reforçar a presença da Amazônia no debate nacional sobre sustentabilidade em um momento de crescente atenção global sobre a região.

A realização da Conferência Livre dos ODS em Manaus é mais do que uma etapa preparatória. Representa a afirmação de que a Amazônia não pode ser apenas objeto das grandes decisões nacionais, mas sujeito ativo de sua formulação.

Ao reunir memória, ciência, propostas e diálogo, o encontro reafirma que desenvolvimento sustentável não se constrói por abstrações, mas por processos coletivos, institucionais e concretos.

Se em 2019 um seminário na Assembleia Legislativa lançou bases para discussões sobre sustentabilidade e desenvolvimento regional, agora, sob a chancela do INPA e inserida na construção da 1ª Conferência Nacional dos ODS, a nova conferência projeta essas discussões em escala nacional.

Como resume Cristóvam Luiz, trata-se de uma continuidade histórica. “O que estamos vivendo agora não começa hoje. É parte de uma construção. A diferença é que agora a Amazônia entra nesse debate conectada a uma agenda global e com muito mais maturidade para propor caminhos”.

Juscelino TaketomiJuscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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