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Nepal enchente: tragédia alerta para recuperação entre desastres

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Nepal enchente: tragédia alerta para recuperação entre desastres

As inundações repentinas na fronteira entre Nepal e Tibete destruíram casas, estradas, pontes e projetos locais de geração de energia hidrelétrica. A inundação do rio Bhote Koshi está afetando 50 mil moradores. Mais de 500 pessoas morreram, e centenas estão desaparecidas, incluindo turistas estrangeiros.

Essa região do Himalaia ainda não havia se recuperado das inundações do rio Bhote Koshi em 2025, que mataram nove pessoas ao arrastar uma “ponte da amizade” que ligava o Nepal à China, interrompendo o comércio e o transporte por meses.

No Sri Lanka, as recentes inundações e deslizamentos de terra atingiram comunidades que ainda estavam se recuperando do ciclone Ditwah, que havia causado danos generalizados há nove meses. Com pouco tempo para se recuperar do ciclone, as comunidades ficaram sem proteção contra novas inundações. Mais de 15 mil pessoas foram diretamente afetadas e 6.800 pessoas foram deslocadas em agosto deste ano.

A gestão do risco de desastres geralmente considera a intensidade da próxima inundação, incêndio florestal, ciclone ou seca. Mas os exemplos do Nepal e do Sri Lanka mostram duas dimensões que costumam ser negligenciadas: quão rapidamente uma comunidade consegue se recuperar e se isso acontecerá antes da chegada do próximo desastre.

Raramente um desastre deixa um lugar exatamente como ele era antes. E quando um segundo desastre acontece, estradas e pontes ainda podem estar danificadas, enquanto famílias já podem ter gastado suas economias. Empresas ainda podem estar em dificuldades. Governos podem continuar financiando a reconstrução, enquanto hospitais e outros serviços públicos permanecem sob pressão.

Se outro evento extremo ocorrer antes que esses sistemas tenham se recuperado, ele não encontrará a mesma comunidade que existia antes do primeiro desastre. Encontrará um lugar com menor resiliência e infraestrutura enfraquecida.

Povoado no centro-norte do Nepal soterrado após inundações na fronteira com o Tibete

Uma maneira útil de compreender esse fenômeno é entender o chamado “intervalo de recuperação” (recovery gap, em inglês): a relação entre o tempo necessário para a recuperação antes de outro desastre capaz de causar danos.

Imagine duas comunidades que passam por inundações semelhantes. Em uma delas, o último grande desastre ocorreu há dez anos. As casas foram reconstruídas, a infraestrutura foi reparada e os recursos de emergência foram repostos.

Na outra, o desastre mais recente aconteceu há seis meses. As estradas continuam em reconstrução, as famílias ainda estão deslocadas ou endividadas, e as autoridades públicas continuam pagando pela reconstrução. A nova inundação pode ser fisicamente semelhante nos dois locais. Suas consequências, porém, podem não ser.

Uma recuperação incompleta pode aumentar substancialmente as perdas no longo prazo. Um estudo de 2025 sobre inundações recorrentes nas Filipinas constatou que as perdas causadas por estas tragédias aumentaram 40% entre 2000 e 2018 devido à recuperação incompleta.

Isso sugere que as perdas provocadas por desastres recorrentes nem sempre são simplesmente cumulativas. O primeiro desastre pode alterar as condições em que o segundo desastre ocorre, fazendo com que os efeitos das tragédias subsequentes sejam muito mais graves.

A recuperação tem tempos diferentes

A recuperação costuma ser descrita como algo binário, como se uma comunidade conseguisse ou não se reerguer. Na realidade, trata-se mais de uma escala gradual.

O fornecimento de eletricidade e água potável pode ser restabelecido em poucos dias. Mas uma estrada danificada pode levar meses para ser reparada. A reconstrução de moradias pode levar anos. Empresas podem reabrir, enquanto ainda carregam dívidas substanciais.

As finanças das famílias, os ecossistemas e o bem-estar psicológico podem se recuperar em escalas de tempo completamente diferentes.

Assim, um lugar pode parecer recuperado de acordo com um indicador, mas continuar altamente vulnerável de acordo com outro.

Foram necessários mais de dez anos para que Nova Orleans, nos Estados Unidos, conseguisse se recuperar significativamente após o furacão Katrina, em 2005. Embora as operações básicas de emergência e o restabelecimento de energia tenham levado de semanas a meses, a reconstrução completa dos bairros, a estabilização da população e grandes melhorias no sistema de proteção contra inundações se estenderam por 15 anos ou mais. E isso em um dos países mais ricos do mundo.

A recuperação também é desigual. Famílias de maior renda podem contar com seguros, poupança e acesso a crédito. Famílias mais pobres frequentemente têm menos recursos para reparar suas casas, substituir seus pertences ou absorver a perda de renda.

No caso do furacão Katrina, muitas famílias de baixa renda que tinham seguro contra furacões tiveram seus pedidos de indenização negados porque os danos foram considerados decorrentes das inundações provocadas pelo rompimento dos diques, e não do furacão. Portanto, não é apenas o intervalo entre os desastres que importa.

Essa questão ganha importância à medida que as mudanças climáticas alteram a frequência ou a intensidade dos eventos extremos. Se a reconstrução exige cinco anos, mas outro evento capaz de causar danos ocorre dois anos depois, o intervalo entre os desastres começa a competir com o tempo necessário para a recuperação. Isso deveria mudar a forma como administramos o risco de desastres.

Medir a recuperação, não apenas os danos

Em geral, os governos são bons em registrar as perdas imediatas: edifícios danificados, pessoas deslocadas, infraestrutura destruída e custos financeiros. Mas também precisam saber o que permanece sem reparos meses ou anos depois.

O monitoramento da recuperação deve incluir moradia, funcionamento da infraestrutura, atividade empresarial, situação financeira das famílias, serviços públicos e deslocamento. Não temos de perguntar apenas o quanto perdemos, mas também o quanto ainda estamos vulneráveis.

Os desastres não são ocorrências isoladas. Inundações, incêndios florestais, secas e tempestades são frequentemente avaliados de forma separada. Essas avaliações são essenciais, mas as comunidades vivenciam esses eventos com a mesma infraestrutura, economia e população.

A estrada danificada por um evento pode ser necessária para uma evacuação durante o próximo. Um sistema elétrico enfraquecido hoje pode estar abastecendo hospitais ou serviços de água amanhã. As avaliações de risco deveriam, portanto, considerar sequências plausíveis de eventos e as condições em que os sistemas críticos podem se encontrar quando outro desastre ocorrer.

Isso não significa prever a ordem exata dos futuros desastres. Significa abandonar a suposição de que cada novo desastre encontra um sistema plenamente recuperado.

A recuperação não deve ser vista apenas como a etapa final do desastre que acabou de acontecer. Ela também é uma preparação para o que vier. Restaurar a infraestrutura, apoiar as famílias e reabrir rapidamente os serviços essenciais pode reduzir a vulnerabilidade para o próximo evento.

Mas reconstruir os mesmos sistemas vulneráveis recria os mesmos riscos. A recuperação deve, portanto, combinar rapidez com adaptação: infraestrutura mais resistente, planejamento de emergência aprimorado e mais apoio a comunidades que, de outra forma, levariam mais tempo para se recuperar.

Ao perguntar “qual a gravidade do próximo desastre?”, também deveríamos perguntar “o quão recuperados estaremos quando ele chegar?”. Porque o próximo desastre não começa do zero. Ele herda o que o anterior deixou para trás.

Com informações da Agência Pública