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Sem impacto algum, diz professor sobre Flávio Bolsonaro nos EUA
O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), discursou nesta terça-feira (7) em uma audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). Em mais uma tentativa de se afastar do desgaste causado pelo seu entorno político, que, aliado ao governo de Donald Trump, supostamente articulou, em 2025, o tarifaço de 50% sobre as importações brasileiras, Flávio afirmou ter defendido em Washington as empresas brasileiras, a economia nacional e o Pix.
Apesar da guerra de narrativa contra o governo federal, especialistas ouvidos pela Pública apontam que a manifestação de Flávio na audiência não é capaz de alterar ou influenciar a decisão da autoridade comercial americana, que é quem vai decidir sobre a investigação contra práticas comerciais do Brasil e a proposta do governo de Donald Trump de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
“Ele fez uma intervenção apenas para gerar material de campanha. Não terá impacto algum. E como nada vai acontecer com o Pix no curto prazo, vai dizer que foi em razão do pedido dele. Mesma coisa para qualquer alívio que vier”, afirmou à Agência Pública o professor de direito do comércio internacional da Universidade de São Paulo (USP), José Augusto Fontoura Costa. De acordo com ele, a ida de Flávio aos Estados Unidos reforça outro elemento comum: a ideia de aproximação com Trump, que seduz parte do seu eleitorado.
Não à toa, o senador enviou uma carta ao USTR na semana passada, em que pediu a revogação de novas tarifas. Flávio propôs, também, que uma possível decisão sobre o tema fosse adiada para depois das eleições de outubro, sob o pretexto de que o governo brasileiro estaria se beneficiando politicamente das sanções comerciais impostas pelo país. Em resposta, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, enviou uma carta oficial ao senador reafirmando a posição dos EUA diante da proposta. “Algo completamente fora da normalidade diplomática”, analisa Fontoura Costa.
Por que isso importa?
- Os Estados Unidos avaliam impor tarifas de 25% na importação de produtos brasileiros.
- As taxas seriam uma retaliação por práticas do Brasil que, segundo o governo norte-americano, são prejudiciais para o comércio e empresas dos EUA.
Cerca de duas horas depois de discursar na audiência, o Flávio publicou um vídeo no X (antigo Twitter), afirmando que fez “a defesa do Brasil contra as tarifas e contra o Lula”. Ele caracterizou ainda a ação como “técnica, mas também política” e criticou a ausência de representantes do governo federal, numa estratégia de embate com a gestão petista, que viu sua popularidade crescer no ano passado ao apoiar a bandeira da soberania nacional, em oposição às tarifas aplicadas por Donald Trump.
“É impressionante como é que tinha todo mundo lá: os defensores das empresas, dos produtos brasileiros, advogados, empresários, mas não tinha ninguém, nenhunzinho do governo Lula escalado para fazer a defesa nessa espécie de tribunal, que é quem vai sugerir ou não que as tarifas sejam aplicadas ao presidente dos Estados Unidos”, disse Flávio em vídeo nas redes sociais.
A questão também foi explorada pelo seu irmão e ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. “Lula não inscreveu ninguém na audiência pública, pois deseja as tarifas, mesmo que você pague o preço por isso”, publicou Eduardo. O filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro segue nos EUA desde março de 2025, onde tem intensificado sua atuação na ofensiva internacional. O governo brasileiro, no entanto, enviou uma observadora para acompanhar as audiências e reforçou que as negociações continuam diretamente com representantes da gestão de Donald Trump.
Segundo o professor de direito da USP, este tipo de audiência é destinado principalmente a empresas e atores não governamentais que possam ser afetados pela aplicação das sanções. Ele cita como exemplo a companhia Coca-Cola, que pediu a suspensão de eventuais tarifas sobre derivados de alimentos cítricos, já que a alta de preços desses insumos poderia afetar seus custos de produção.
“É esse tipo de manifestação que poderia ajudar a modificar alguma coisa nas tarifas. O governo federal tem acesso direto à autoridade comercial. Não haveria porque procurar esse acesso por um meio indireto, que seria ainda filtrado pelos condutores da audiência antes de irem para a autoridade comercial. Flávio diz que é um tribunal: é mentira, pois o USTR não decide nada”, explica Fontoura Costa. O USTR reporta o que considera relevante para o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, que é quem toma a decisão final sobre o tema. O órgão é chefiado por Howard Lutnick, Secretário de Comércio dos Estados Unidos.
Para José Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, a viagem de Flávio aos Estados Unidos é também formada por um viés político eleitoral e, por isso, é muito difícil que o país reverta sua postura sobre a taxação.
“Acho que os pontos apresentados por Flávio não se sustentam, lembrando que o primeiro tarifaço imposto pelos EUA teve alguma influência de Eduardo Bolsonaro e de um grupo de pessoas que estão ali fazendo um movimento de relações públicas com a Casa Branca para punir o Brasil, por exemplo, com relação à atitude do Supremo Tribunal Federal na política brasileira”, explica Niemeyer.
“Esta ida de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência da República, mesmo indo como senador da República, tem a ver também com esse processo de tentativa de uma influência do Executivo norte-americano nas eleições no Brasil”, completa o professor do Ibmec-RJ.
A audiência promovida pelo USTR é a última fase pública da investigação aberta contra o Brasil sobre práticas abusivas que poderiam justificar a implementação de uma tarifa de 25% aos produtos brasileiros nos Estados Unidos. A decisão final está prevista para 15 de julho.
Além de Flávio, participaram da sessão desta terça-feira o embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio representando a Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de representantes da indústria, como a gerente de relacionamento e negócios da Abicalçados Letícia Sperb Masselli, e Wagner Parente, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, Abimaq.
Com informações da Agência Pública

