Política
Copa e xenofobia: universitários brasileiros ameaçados na Argentina
“Eles vêm pra cá estudar de graça e são ingratos”, disse, ao vivo, um comentarista da CrônicaTV enquanto mostrava postagens de estudantes brasileiros nas redes sociais comemorando a derrota da seleção argentina, por 1 a 0, contra a Espanha na final da Copa do Mundo no último domingo (19).
Na tela, fotos e contas públicas dos jovens. O cenário de rivalidade acirrada que ebulia no país até então se somou à frustração com o resultado da competição e virou uma caça aos brasileiros no ambiente digital, com direito a ameaças de agressão e morte.
Na plataforma de microblogs X, uma trend se formou para expor os dados pessoais e perfis nas redes de quem manifestou apoio à Espanha ou fez piada com os resultados. Perfis de estudantes foram marcados com comentários com emojis de macacos, manifestação racista recorrente direcionada a brasileiros e outros povos latinos por parte de parte da população argentina – o que, no Brasil, é considerado crime. Em algumas manifestações, usuários da plataforma sugerem “lições” a serem aplicadas aos brasileiros “nas ruas”.
“Quando eu te vir na universidade, pode ter certeza que você vai sofrer. Vou bater na sua cabeça com um martelo”, dizia uma mensagem recebida pela paulistana Lays Bressane, de 23 anos. Logo depois, recebeu a foto de uma arma de fogo com a legenda “Na Argentina não brincamos”.
“Fui [ver o jogo] com a camisa da Argentina e postei que estava de ‘mufa’, que seria pé-frio. Mas não é sobre futebol, não. Porque até o jogo com a Jordânia eu torcia pra eles, até ver a quantidade de comentários racistas que fizeram com a gente”, lamenta a universitária que está há quatro anos em Buenos Aires.
“Já tinha passado por episódios assim, mas com a minha mãe, que é negra. Em restaurantes, não querem atender, tratam mal. Cheguei a postar um vídeo quando aconteceu e viralizou”, lembra a jovem, que teve endereço e outros dados pessoais expostos nas redes sociais. “Eu tô com medo. Meus pais estavam visitando e estão querendo mudar a passagem pra ficar aqui comigo”, completou.
Estudante de medicina da Fundação H. Barceló, conhecida por admitir um alto contingente de estudantes estrangeiros, especialmente brasileiros, o pernambucano Fernando Seabra, 31, disse que o cenário é de caça às bruxas, que os grupos estudantis foram tomados pela palavra “mono” (macaco, em espanhol) e que a situação mudou nas últimas semanas, enquanto havia “brasileiros atiçando de um lado, argentinos do outro”.
“Minha faculdade, graças a Deus, ajuda bastante, inclusive puniu e expulsou dois ‘ayudantes’ da monitoria depois de comentários que podiam ser interpretados como xenofóbicos”, conta. “Antes era ‘respeitem a Papá [uma alusão a Messi], vocês são apenas visitantes aqui’ agora é comentário de ‘macaco’”, complementa.
Os estudantes não formalizaram queixa na polícia. Na Argentina, a discriminação é regulada pela Lei 23.592, que abrange desde raça até ideias políticas ou orientação sexual, no entanto, a Lei Nacional Antidiscriminação não tem caráter criminal, como experiências no Brasil, tem penas menos pesadas por se voltar mais à reparação civil individual, exceto quando se tratam de ações que pregam superioridade da raça – nesse caso, limitada a poucos meses de detenção. No Brasil, o crime de injúria racial pode se equiparar ao de racismo, que é inafiançável e prevê pena de 2 a 5 anos de prisão, além de multa.
Com informações da Agência Pública
