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Política

Fumaça sufoca Amazonas enquanto políticos travam duelo de narrativas sobre queimadas no Estado

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Amazônia, 10/09/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Marielos Peñaclaros fala durante o TEDXAmazônia. Foto: Diego Aguilar/Divulgação

O fim de semana no Amazonas é dominado pelo tema “fumaça e queimadas”. O assunto protagonizou o debate político, entrou com força nas campanhas eleitorais e criou um duelo de narrativas entre quem tem mandato e quem está disputando votos.

Roberto Cidade (União Brasil), Lula (PT),, Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo Seffair (PL) usaram seus recursos para tentar ser o dono do jogo.

Os governos Roberto Cidade e Lula travaram uma disputa sobre culpabilidade. O Governo do Amazonas reclamou que não recebeu ajuda em quantidade e tempo suficientes.

O comandante geral Coronel Orleilso Muniz chegou a dizer que o Governo Federal recusou prestar socorro ao Amazonas.

Com o potencial dano eleitoral, o presidente Lula foi às redes sociais anunciar ajuda com aviões, determinou a presença do alto escalão no Estado e procurou reforçar a imagem de que o Amazonas não está esquecido por sua gestão.

Cidade deixou para o comandante do Corpo de Bombeiros a função de ataque. Nas redes sociais, preferiu o tom diplomático em relação ao Governo Federal, após ser acusado por adversários de ignorar verbas que poderiam ter estruturado a brigada para o combate ao fogo intenso.

Já o senador Omar Aziz, candidato a governador do Amazonas, repassou a culpa para os adversários políticos. Disse que o Governo Wilson Lima poderia ter comprado um avião com dinheiro que ele conseguiu por meio de emenda.

Da mesma forma, a candidata Maria do Carmo Seffair subiu o tom contra as queimadas e não repetiu o erro do primeiro turno, quando chegou a minimizar os efeitos das mudanças climáticas no Amazonas.

AMAZONAS VIVE SITUAÇÃO ALARMANTE

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), 229 incêndios já foram extintos no estado desde o início do atual período crítico.

Para além de discursos políticos, está a ciência. De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares, a Amazônia essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior “máquina de chuva” do planeta.

Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de água todos os dias.

Marielos Peñaclaros destaca a importância do bioma durante TEDXAmazônia. Diego Aguilar/Divulgação

“Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós cientistas chamamos de rios voadores.”

Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas dedicados a estudar o bioma, destaca que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes eAquecimento global

Nos últimos anos, a região também tem sofrido com os efeitos do aquecimento global. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca da sua história, por consequência do El Nino, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação atmosférica, e tem se tornado mais intenso. 

Marielos destaca que 88% da bacia amazônia sentiu os efeitos dessa seca, que também interferiu na “máquina de chuva”. A capital da Colômbia, Bogotá, localizada na região dos Andes, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, capital do Equador, que também está fora da Amazônia, a falta de água levou à cortes no fornecimento de energia elétrica. 

“A pergunta que todos deveríamos estar fazendo é:  De onde nasce a água de inúmeras cidades latinoamericanas? De onde nasce a água que usamos na agricultura, pecuária, indússtria, produção de alimentos?”, provocou a copresidente do Painel Científico pela Amazônia.
 

Seca na Amazônia deixa barcos encalhados e paralisa transporte pelos rios
10/11/2023
REUTERS/Bruno Kelly

Seca na Amazônia deixa barcos encalhados e paralisa transporte – REUTERS/Bruno Kelly/Proibida reprodução

A seca também deixou a Amazônia mais vulnerável às queimadas, que foram recordes naquele ano. Julia Valentim Tavares lembra que a fumaça dos incêndios chegou a se espalhar pelo país e alcançar até a Região Sudeste. 

“Esse fato revelou duas coisas muito importantes. Primeiro: a Amazônia nunca esteve distante, o que acontece na floresta não permanece na floresta. E segundo: milhões de pessoas dependem da Amazônia, mas ainda assim não se sentem conectadas com ela.”

A previsão de que um super El Niño ocorra este ano alarmou as pesquisadoras. “Quando existem essas secas, a floresta ou tem mortalidade por falha hidráulica, ou para de crescer, somado com os eventos de fogo. Então, a Amazônia deixa de funcionar como um sumidouro de carbono e passa a ser um emissor, aumentando o aquecimento global”, alerta Julia. 

“A gente está esperando que seja tão ou mais forte do que em 2024, mas a principal diferença é que da outra vez aconteceram coisas que ninguém estava esperando. Como um rio poderia secar na Amazônia? Agora, todo mundo está falando sobre isso”, enfatizou Marielos.  carbono a níveis local, regional e global. 

“Em outras palavras, a Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo.”

Ficam muitas perguntas que a política não tem sido capaz de responder e imagens como a deste tamanduá, em Itacoatiara, no interior do Amazonas, com as pastas queimadas, imagem que nenhuma narrativa será capaz de vencer.